Podemos começar nas eras “Taylor Swift” (2006), “Fearless” (2008), “Speak Now” (2010), “Red” (2012), onde ouvimos “Love Story”, “You Belong With Me”, “22” ou “I Knew You Were Trouble”,  e assistimos a uma transição do country para o pop. 

A partir daí, entramos numa das minhas eras favoritas: “1989” – o seu primeiro álbum inteiramente pop. É aqui que começamos a ouvir músicas sobre a liberdade, mas também sobre o passado. Na minha opinião pessoal, 1989 é sobre liberdade: mudamo-nos para outro local e crescemos lá. Neste registo fala-se não só de novos romances, mas também de sonhos selvagens, de amores que nunca passam de moda ou até espaços vazios. É certo que aqui nasceu uma cultura de “easter eggs”, onde os fãs tentam analisar e decifrar letras escondidas, cores de unhas ou números nos videoclipes, criando assim um sentimento de pertença a uma comunidade de Swifties com recompensas dopaminérgicas que nenhuma campanha de marketing tradicional alguma vez conseguiria proporcionar.

Contudo, chamo à atenção para a evolução da narrativa de Taylor Swift: ela é muito mais do que apenas o estigma de cantora que só escreve sobre o ex – ela é a maior contadora de histórias da sua geração, explorando temas como “vingança”, ambição, o peso da fama e até a autocrítica. A partir daqui surge “Reputation” – era de sonoridade dark pop e resposta a controvérsias. Nesta coletânea, ela responde a quem fez “pouco” dela e acredito que todos nós, em algum momento da nossa vida, passamos pela nossa era reputation. Entretanto, surge “Lover” – um álbum que celebra o amor em todas as suas formas, desde o romântico, ao amor próprio e pelos fãs. 

Ao entrarmos na época da pandemia COVID-19, Taylor Swift escreve “Folklore” – o seu oitavo álbum. Assim como Evermore – um livro de histórias de canções, onde,  em vez de escrever diretamente sobre a sua própria vida, Taylor cria um mundo com personagens. Ambos os álbuns  têm vibrações mais calmas e folclóricas de contar histórias, muito diferentes do seu registo pop habitual. 

Após tudo isto, apresento-vos “Midnights” – sobre os momentos que mantiveram Taylor acordada à noite, desde grandes escolhas na vida até tristezas – “The Tortured Poets Department” e, finalmente, “The Life of a Showgirl” – onde a cantora opta por usar o humor, indiretas, respostas a polémicas e fala sobre a vida de uma show girl.

Por isso, cara ou caro leitor, quero provocá-lo com uma questão: ainda acha que a Taylor Swift escreve apenas sobre o ex?

“ainda acha que a Taylor Swift escreve apenas sobre o ex?

Todos estes álbuns representam uma era. Cada um deles conta uma história diferente e Taylor Swift é uma “mastermind” ao usar todo um branding característico para segmentar a sua carreira: cada álbum é um universo estético completo que dita tendências ao reconfigurar o guarda-roupa, o vocabulário e a estética da cantora, bem como de milhares de pessoas. É o uso de cores e de símbolos como uma linguagem própria que permite que os fãs se identifiquem uns aos outros em qualquer lugar. 

“Todos estes álbuns representam uma era. Cada um deles conta uma história diferente e Taylor Swift é uma “mastermind” ao usar todo um branding característico para segmentar a sua carreira”

Algo fantástico, e que não poderia deixar de referir, é que esta arquitetura de eras é todo um ecossistema financeiro – é uma economia gerada pelo engagement dos fãs que acaba por influenciar o PIB de países e que vai mudando as regras da indústria. Exemplos dessas mudanças são as gravações de Taylor’s Versions. Para quem não sabe, Taylor’s Versions são mais do que uma manobra comercial para recuperar os direitos autorais dos seus masters iniciais, são um ato de soberania criativa. Taylor Swift provou que, na indústria musical, o valor de um álbum é definido pelo seu criador e não pelo seu detentor, pois regravou vários dos seus álbuns e subverteu a lógica da indústria.

Tenho outra questão para quem está a ler. O que é que acontece quando uma era acaba? Eu acredito que as eras nunca terminam realmente, apenas se transformam na seguinte. Dentro da mesma lógica, percebemos que o “ex” nunca foi o protagonista. O protagonista é o sistema e a indústria que ela construiu, com a precisão de quem sabe que, para ser eterna, não basta cantar – é preciso reescrever as regras do jogo enquanto o mundo assiste, atento, a cada “easter egg”.

“O que é que acontece quando uma era acaba? Eu acredito que as eras nunca terminam realmente, apenas se transformam na seguinte. Dentro da mesma lógica, percebemos que o “ex” nunca foi o protagonista. O protagonista é o sistema e a indústria que ela construiu, com a precisão de quem sabe que, para ser eterna, não basta cantar – é preciso reescrever as regras do jogo enquanto o mundo assiste, atento, a cada “easter egg”.”