A escrita é um processo criativo onde se cria algo do vazio, o que não é universal às artes narrativas. As artes visuais e performativas aliam-se a elementos visuais para contar uma história. Esta objetividade pode ser castrante. Alguém que veja o “Gótico Americano” compreende quem é o sujeito de crítica. Shakespeare retratou toda uma sociedade inglesa. Mas, nenhum deles ergueu uma cidade como Lisboa, palavra por palavra, como fez Eça de Queiroz. Isto tudo porque apesar de não ter adereços para o auxiliar, Eça também não tinha figuras que o inibissem. 

No meio desta reflexão, surge George Orwell. Quando li as chamadas “Seis dicas de Orwell para a escrita” fiquei surpreendido pela sua dissidência ao modelo de um “bom romance” que nos foi incutido pelo plano nacional de leitura. Aqueles que saltam mais à vista são “nunca use uma palavra longa se pode usar uma curta que significa o mesmo” e “sempre que for possível eliminar uma palavra, elimine”. 

Orwell é, mais do que um romancista, um ensaísta. Todas as narrativas que cria têm uma máxima inerente. Aquilo que caracteriza Londres é a percepção que o protagonista, Winston, tem dela. Orwell não se foca particularmente na descrição arquitetónica, mas na socioeconómica, e, por dedução, imaginamos como era urbanizada. Os edifícios que descreve ao pormenor são todos do quotidiano de Winston, existindo os outros mais no campo abstrato. Já Eça, ergueu primeiro a cidade, e depois habitou-a, porque pretende que os leitores vejam Lisboa como um todo, considerando que a cidade tem uma espécie de consciência comum que uniformiza os burgueses. 

A descrição do Ramalhete pretende deixar o leitor com uma impressão da casa e dar-nos uma melhor compreensão da família. Orwell descreve o ministério da verdade como gigantesco, imponente e branco. Retrata-o da forma moribunda com que Winston vagueava o mundo. Em “1984” os edifícios são assim porque é dessa forma que Winston os vê. Em “Os Maias”, Carlos é assim porque habitava o Ramalhete. 

O público dos dois romances também é distinto. A crítica de Orwell dirige-se aos populares, já a de Eça a uma burguesia supérflua, a quem quer apresentar verdadeiro intelectualismo, sendo normal que escreva um livro mais denso.

Orwell mostra-nos uma Londres solitária. Eça dá-nos Lisboa onde as pessoas se sentem sozinhas rodeadas de gente. Daí, para Winston, os seus conterrâneos acabam por se diluir, como os complacentes da ditadura. Por outro lado, Carlos da Maia é impactado por todos que interagem com ele. Afonso da Maia é descrito na sua juventude como um radical revolucionário, censurado pelo pai. Informa-nos sobre a relação dos patriarcas da família com a política, mas, também nos dá outra face de Afonso. Fica a ideia de que também ele já tinha sido jovem e irreverente como Carlos o que vai acabar por nos comunicar o mesmo de uma forma diferente.

Em “1984” Winston monta o puzzle, já Carlos é só mais uma peça.

Podemos dizer que em termos de urbanismo literário, Eça era um arquiteto enquanto Orwell era um engenheiro. Orwell é um microeconomista, enquanto Eça é um macroeconomista.