Chegamos a 31 de dezembro e chega o momento de fazermos promessas, de definir os nossos desejos, com 12 uvas de baixo da mesa. Clássico. Eu posso admitir que é bastante clichê, mas eu mesma como as 12 uvas de baixo da mesa, coloco uma folha de louro na carteira, subo para cima de uma cadeira… Apesar de tudo isto, basta chegar a janeiro para perceber que muitas promessas de Ano Novo não chegarão a fevereiro.

Janeiro surge como um intervalo temporal artificial: o ano muda, mas a “vida real” não. Por isso, vemos o calendário como se tivesse um poder psicológico real em nós, nunca esquecendo o valor simbólico do ditado “ano novo, vida nova”. Mais ou menos como uma ilusão de controlo, e a necessidade humana de recomeços formais: como esquecer algo ou alguém, conhecer o amor da nossa vida, parar de fumar, iniciar um novo plano alimentar, mudar de emprego, e tantos outros exemplos que aqui poderia referir.

Mas, porque é que pedir desejos pode melhorar a nossa vida? Os desejos nascem daquilo que mais queremos e sentem-se antes de se explicarem. Ainda assim, só ganham forma quando lhes dedicamos atenção e compromisso. Num mundo frequentemente dominado pela incerteza, desejar torna-se uma forma simbólica de recuperar algum controlo. (RITUALS, 2018)

Dentro do mesmo universo dos desejos, estão as promessas. Aquelas que cumprimos e que não cumprimos. Poderia vir aqui falar da sequência que usualmente se verifica: fazemos promessas, não as cumprimos, então somos “fracos”. Mas isto seria demasiado superficial e moralista. De acordo com Rohrer (2026), o cérebro é o principal inimigo das promessas de ano novo, porque ele não gosta de mudanças, ou seja, não funciona bem com mudanças abstratas (“ser melhor”, “ser mais saudável”). 

Contudo, se sabemos que as promessas falham, porque é que continuamos a fazê-las? Porque precisamos delas. Tal como os desejos. Mesmo sabendo que poderão não durar muito tempo, dão-nos um momento de esperança. Elas não garantem mudanças na nossa vida, nem são provas de força de vontade. São meramente pequenos gestos de esperança, frágeis, temporários, mas são algo profundamente humano. Talvez o problema nunca tenha estado em falhar as promessas de ano novo, mas em acreditarmos que elas são mais do que são. Mas errar é humano. 

 “Se sabemos que as promessas falham, porque é que continuamos a fazê-las? Porque precisamos delas. Tal como os desejos. Mesmo sabendo que poderão não durar muito tempo, dão-nos um momento de esperança.”

As promessas e os desejos não precisam de ser grandes nem distantes. Podem nascer de gestos simples e crescer a partir do momento em que os colocamos em prática. No fundo, começam em nós. Pequenas ações – como a bondade desinteressada, o respeito pelo outro, a atenção a quem tem menos – ajudam a transformar desejos em realidade, mesmo que de forma discreta. (RITUALS, 2018) 

Ainda assim, há promessas que não são tão abstratas nem grandiosas – e talvez essas  sejam as mais possíveis e mais honestas: esquecer alguém, deixar para trás uma relação, um hábito ou uma versão de nós próprios onde já não nos enquadramos e que nem nos faz bem. Não se trata de apagar o passado, mas de aceitar que continuar a carregá-lo pode impedir algum recomeço. Nesse sentido, prometer deixar ir pode ser, simultaneamente, um desejo e um ato de cuidado e de amor connosco mesmos. 

Talvez 2026 não seja um ano de grandes transformações imediatas, mas pode ser um ano de recomeços mais conscientes – daqueles que começam quando nos escolhemos a nós, quando finalmente não aceitamos ficar onde já não somos felizes.