Francisco Queiroga
Artigo exclusivo do site, publicado em Junho de 2026
A memória tem a fascinante capacidade de guardar, por vezes, até os mais pequenos detalhes da nossa vida, da nossa experiência no mundo. É a memória que nos deixa fazer o que o Doc Brown e o Marty McFly precisaram de um carro para atingir, visitar uma versão do passado que guardámos. É numa destas caixas do cérebro que tenho uma vívida e clara memória do meu primeiro dia na FEP. Lembro-me do caminho que fiz (especialmente das voltas que dei à procura do metro da casa da música), das músicas que estava a ouvir em preparação para esse dia tão especial, da roupa que estava a usar, de tudo. Lembro-me também dos nervos, de tremer por dentro e por fora em antecipação. Hoje, ao olhar com olhos que viram 4 anos de FEP, vejo o quão importante foi aquele salto.
A Faculdade de Economia do Porto foi-me pintada como uma grandiosa entidade de grande prestígio, na qual grandes cabeças aprendiam verdadeira economia como nenhuma outra faculdade é capaz de ensinar. Aos olhos de um aluno de secundário perdido no meio do Alentejo assemelhava-se a uma versão dos Campos Elíseos gregos, e foi levado por esta vontade gigantesca de me juntar às “grandes cabeças” e pelo desejo de alcançar o céu que parti para longe, 400 quilómetros de longe para ser preciso. Tal como Ícaro, ao entrar com tanto desejo e expectativa, houve o derreter das asas de cera e a queda.
Os primeiros tempos foram complicados, há quem diga que foi o facto de estar tão longe de casa e fora do “ninho”, há também quem acuse a nova vida boémia fruto da juventude longe de casa (embora não pudesse estar mais longe da verdade), mas a realidade é que foi a mistura de uma panóplia de fatores que desenhou um catastrófico e atribulado ano. Um ano em que tive que aprender muito, aprender novos métodos de estudo, novas regras, como lavar roupa sozinho, como saber se estou bem, o que fazer numa crise de ansiedade sozinho, o que é um ativo fixo tangível, como calcular integrais, como não passar o dia na cama mesmo quando a cabeça e o corpo não querem enfrentar o mundo lá fora, e tantas outras coisas. A realidade é que não estava pronto, não tinha a cabeça e o espírito prontos para uma cidade nova e o ensino superior. A ansiedade e a depressão regiam-me com uma mão dura e crua, ditando, muito mais do que a minha vontade, aquilo que fazia. Tinha medo de falar com as pessoas da faculdade e parecer inferior, tinha medo de lhes poder parecer demasiado “cromo” ou desinteressante, tinha medo de alguns dos professores e da maneira como olhavam para nós e falavam de sermos parte da “melhor faculdade de economia do país”. Não acreditava nas minhas capacidades para estar a par dos meus colegas, cria mesmo que tinha ido parar àquelas salas de aula por acidente, que por um erro de cálculo tinha tido média para entrar naquela faculdade, achava genuinamente que não era o meu lugar, que não tinha sido feito para isto.
Hoje olho para esse Francisco com menos 4 anos e não podia ter estado mais errado. Eu pertenço, agora, à FEP como se de uma segunda casa se falasse. Vivi muito no grandioso edifício de betão galardoado da FEP (que, por curiosidade, já sofreu um bombardeamento e ainda podem ser encontradas marcas do mesmo na sua fachada). Tive muitos desgostos e dias complicados, mas tive ainda mais dias em que cheguei a casa com dores nos cantos dos lábios de tanto sorrir e com uma sensação engraçada na barriga de tanto rir, dias em que acabava o dia orgulhoso com o meu trabalho e fascinado com o que aprendi. Foi na FEP que fiz amizades que certamente levarei para a vida inteira, amizades forjadas em aulas confusas de matemática, outras à porta da faculdade numa pausa para saborear o ar, outras ainda na FINK, a quem devo tanto deste processo. Nesta faculdade tive a oportunidade de aprender atualizações e capitalizações, depreciações e amortizações, Schumpeter e Marx, mas foi também nas suas mesas que almocei com amigos, escrevi artigos, joguei Magic: The Gathering, tive conversas que rivalizam os mais influentes dos filósofos e tantas outras coisas que a mesa perto da sala 135 protagonizou.
“Eu pertenço, agora, à FEP como se de uma segunda casa se falasse. Vivi muito no grandioso edifício de betão galardoado da FEP”
Não estaria onde estou hoje, aqui a escrever para vós, leitores, se não fossem um conjunto de figuras emblemáticas que o tornaram possível, seja de forma material e palpável, seja de forma mais incorpórea e metafísica. Claro que primeiramente vem a família, os pais e irmã que me viram partir de malas e mochilas, que me seguraram sempre e que apoiaram esta ida para o desconhecido. Depois vêm também os tios e primos que fizeram-me sempre sentir em casa longe de casa e estiveram sempre lá, fosse com um ombro amigo ou uma refeição quentinha. Por fim, a minha avó, que deixei de coração pesado quando parti, mas que nunca deixou de acreditar em mim, nem por um momento. A todas as amizades, novas e velhas, que me iluminaram os tempos mais nebulosos, fosse com visitas de Beja ao Porto para passear e arejar os pensamentos, fosse com os jantares em casa que se tornavam ceias movidas a música pimba, fossem as caminhadas errantes pela cidade para manter os pés acordados enquanto se conversa, fossem as peregrinações a lojas perdidas no topo da rua de Santa Catarina para comprar cartas de Senhor dos Anéis.
Há um senhor, no entanto, que também tenho que lembrar neste percurso. No meu exame de recurso à unidade curricular de Cálculo e Instrumentos Financeiros, durante o meu ano mais acidentado, entreguei o teste sabendo que ia chumbar, mas quem me recolheu o teste foi o meu professor, João Couto. Não consegui evitar naquele momento confessar-lhe algo, admiti que ia chumbar à cadeira, certamente, e que pedia desculpa por o fazer pois as suas aulas eram fascinantes e tinha tanto gosto em participar nelas. Não recebi um olhar austero e chateado, mas sim um sorriso e palavras que nunca mais esquecerei: “Não tens que pedir desculpa, sei perfeitamente os alunos que não vêm às aulas porque não querem e aqueles que faltam porque não conseguem vir”. Foi o Professor João Couto a primeira pessoa que olhou para mim e me viu como se me tivesse conhecido a vida toda, foi graças a si que enfrentei tantos medos de cabeça erguida, foi com as nossas conversas que aprendi a olhar para todas as situações da vida com maior cuidado porque, como sempre me disse, “Há sempre o outro lado da moeda, Francisco”. Obrigado, Senhor Professor, por tudo o que me ensinou além de cálculo financeiro, por todas as conversas e por ler tantos dos meus textos, sendo sempre o crítico que tenho na mais alta consideração. Saberei sempre atualizar um Cash-Flow graças a si, mas também saberei sempre que nem sempre um mais um será igual a dois.
Tudo, eventualmente, tem o seu fim, todas as grandes aventuras cessam de uma forma ou de outra. Este artigo marca o fim do meu percurso na FINK, tive a sorte de entrar na organização no meu segundo ano na faculdade e conhecer tantos bons amigo, deu-me a liberdade para explorar a minha escrita em todos os artigos que escrevi e ainda tive a honra de poder liderar uma grande equipa neste último ato, aprendi tanto com todos vós e irei levar estes tempos na FINK comigo para sempre.
“Eu hei de ir, hei de ir,/ Eu hei de ir andando./ Tu hás de ficar,/ Tu hás de ficar,/ Em casa chorando.” – Castelo de Beja, Cancioneiro Alentejano
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