“Legado? O que é um legado? É plantar sementes num jardim que nunca poderemos ver.”

Em 2015, audiências puderam ver “Hamilton” pela primeira vez nos palcos da Broadway. Escrito e composto por Lin-Manuel Miranda, o musical conta a história de Alexander Hamilton, um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos. Porém, ele fá-lo de uma forma incomum: através do hip-hop, do R&B, e do teatro musical, e com um elenco maioritariamente de pessoas de cor a representar as figuras históricas do país. Lin descreveu mesmo a obra como “a América de antes, contada pela América de agora”.

O interesse de LMM por Hamilton começou em 2008, quando leu a biografia escrita por Ron Chernow durante umas férias, ficando especialmente fascinado com o contraste entre as suas origens e tudo aquilo que ele atingiu. Hamilton escreveu incessantemente, trabalhou incansavelmente, e lutou a qualquer chance que tinha. O grande mote da sua personagem no musical é mesmo: “não vou desperdiçar a minha oportunidade”. O Alex que conhecemos é alguém obsessivamente determinado, movido pela necessidade constante de provar o seu valor e de superar todos os obstáculos que surgem no seu caminho (“Hamilton enfrenta uma subida interminável. Ele tem algo a provar, ele não tem nada a perder”). Ao longo da obra, esta ambição está intimamente ligada a uma preocupação persistente: aquilo que ele tem tempo de deixar ao mundo.

“O conceito de legado é particularmente engraçado em relação a Alexander Hamilton.”

Ele foi uma figura decisiva na fundação dos EUA, tendo sido um dos colaboradores mais próximos de George Washington, escrito grande parte dos Artigos Federalistas e tendo criado o Sistema Financeiro norte-americano. Apesar disso, até 2015, ele permaneceu relativamente ausente da memória americana em comparação com os outros Pais Fundadores. Foi precisamente o musical que lhe devolveu o destaque.

Então, “Hamilton” acaba por ser uma obra muito meta. Para além de contar a história de um homem preocupado com a forma como seria lembrado, é também a coisa que transformou a forma como ele é lembrado. O musical termina a avisar a audiência de que “nós não temos controlo sobre quem vive, quem morre, quem conta a nossa história”.

No final, é Eliza, viúva de Alex, que toma o palco como seu e assume o centro da narrativa. É ela quem preserva os escritos do marido, ergue monumentos, e procura aqueles que lutaram ao seu lado. É Eliza que garante a sobrevivência da sua história.

E, atualmente, também o é este musical. Hamilton (provavelmente) nunca imaginou que, mais de duzentos anos após a sua morte, muitas pessoas conheceriam o seu nome através da Broadway. Da mesma forma, o legado de Lin foi inevitavelmente transformado por esta criação. Os nomes de ambos ficarão para sempre ligados.

Esta é a lição mais importante de “Hamilton”, sobretudo para os que se sentem destinados a algo maior. Nenhum de nós controla a forma como vamos ser lembrados. É-nos impossível prever que partes das nossas vidas as pessoas irão recordar, ou sequer se se irão lembrar de nós de todo. O que podemos controlar é a forma como escolhemos viver. Podemos criar, trabalhar, amar, sonhar, e deixar algo de nós para trás. Depois disso resta confiar que as sementes que plantamos vão crescer num jardim que nos faça jus.