Tal como a Billie Eilish na música “TV”, quem é que nunca ficou, num sábado à noite,  afundado num sofá a ver programas de sobrevivência como “Survivor” ou “Naked and Afraid”? Neste último, os concorrentes são deixados numa ilha ou noutros ambientes hostis, precisamente nos lugares onde a maioria de nós não desejaria estar. Rodeados de vida selvagem, sujeitos a climas extremos e a insetos venenosos e fatais. E quase sem nada: sem roupas, telemóveis ou comida. Têm de caçar, cozinhar e fazer abrigos com folhas ou pedras. A primeira coisa que têm de fazer é encontrar uma fonte de água, já que, no máximo, sobrevivemos cerca de três dias sem água. E o pior, na minha opinião, é conseguir, com o que a natureza nos dá, fazer fogo para ferver a água. Se existirem escuteiros a ler este texto, já que, infelizmente, o mercado de trabalho e o LinkedIn já não valorizam essas skills como antigamente, deixo aqui a minha admiração. 

Estes programas tentam recriar os tempos antigos: viver como os primeiros hominídeos. Na Pré-História, éramos nómadas até descobrirmos a agricultura e a pastorícia, que nos permitiram fixar num sítio e criaram-se, assim, as condições para surgir a primeira civilização na Mesopotâmia. As primeiras aldeias tinham uma organização social: havia quem trabalhasse a terra, quem se focasse nos trabalhos pesados, quem se dedicasse à olaria, e os guerreiros protegiam o território.

Quando se fala de História, uma das civilizações mais impressionantes é a do antigo Egito. É uma das civilizações mais duradouras que já existiu, tendo perdurado por cerca de 3000 anos, algo difícil de imaginar à escala da vida humana. Instalaram-se perto do rio Nilo pelas suas condições favoráveis: quando este transbordava e deixava lodo nas margens, tornava as terras, antes áridas, cobertas de vida. Curiosamente, nesta altura já se cobravam impostos. Ao que parece, perseguem-nos há milhares de anos.

Os egípcios tinham uma visão muito diferente da nossa sobre o seu governador. O som ensurdecedor dos bombos e das trombetas anunciavam não só um rei, mas alguém que acreditavam ser o dono do universo, filho de deuses, juíz supremo e todo-poderoso.  E, entre todos que já existiram, Tutankhamon é o mais lembrado. Provavelmente por ter dado origem à lenda arqueológica mais fascinante: a Maldição dos Faraós. Este faraó ascendeu ao trono aos 9 anos, o que por si só é surpreendente. Afinal, quando pensamos numa criança dessa idade, é mais fácil imaginá-la a defender “dar gomas a toda a gente” do que a governar um império. O seu túmulo, muito bem conservado, revelou muitos segredos. Sabe-se que tinha uma saúde frágil que o atraiçoou aos 19 anos e encontraram indícios de malária e necrose óssea. Algumas pessoas envolvidas  na abertura deste túmulo morreram algum tempo depois, algumas com sinais de infeção. Este conhecimento aumentou a crença, entre alguns, da profecia de que, quem perturbasse o túmulo do faraó cairia em desgraça. Sabe-se que os egípcios acreditavam na vida após a morte e, por isso, deixavam tantos tesouros e joias, para que os defuntos pudessem utilizá-lo na outra vida. O império egípcio acabou por cair, tendo sido conquistado ao longo do tempo por diferentes impérios, nomeadamente os gregos e os romanos. 

“Quando se fala de História, uma das civilizações mais impressionantes é a do antigo Egito”

E tal como existem programas televisivos a recriar os modos de vida primitivos, todos os anos, aqui em Portugal, recria-se o quotidiano da Idade Média. Revisitamos a vida do povo, da nobreza, do clero, da realeza e até as coscuvilhices das cortes. Quando se entra no recinto sente-se uma atmosfera própria: cenários verdes e rochosos em granito escaldado pelo calor abrasador, estandartes ao alto, ferreiros a trabalhar o metal, música e jogos. No ar misturam-se o aroma a especiarias do Oriente com o do pão com chouriço e o do caldo verde. Ruas inteiras imersas noutro tempo e a única pista de que ainda estamos no século XXI talvez sejam alguns “camponeses” em túnicas de linho fresco com um telemóvel discreto a resvalar da lateral das calças. Em Santa Maria da Feira, realiza-se uma das maiores feiras medievais da Europa, onde todos os anos se destaca um rei português. Este ano será D. Afonso Henriques.

Provavelmente, o facto mais curioso que eu aprendi quando visitei a feira é que costumava existir um tribunal de objetos inanimados e de animais. Mouzinho da Silveira, por exemplo, terá morrido insolitamente com um piano na cabeça, dentro da sua própria casa. Se este Senhor tivesse vivido na Idade Média, o piano dele provavelmente teria sido condenado.  Se esta noção de culpa parece completamente desfasada, revela algo mais distorcido: a culpa podia ser transmissível ou até atenuada mediante negociação. Quando vejo alimentos reluzentes, aveludados e coloridos num supermercado com uma tabuleta “leve 2 pague 1”, penso que isto é marketing de amadores. Faz-me lembrar os verdadeiros pioneiros desta estratégia, aqueles cujo atrevimento ninguém conseguiu igualar: peque à vontade, pague uma vez e receba um generoso alívio de culpa. Os abusos nas indulgências, que ganharam expressão na Idade Média, traduziram-se numa maximização do lucro dos pecados.

No secundário tinha uma professora de inglês que dizia que “some of us will learn English, and some of us will breathe English”. Contudo, na História ninguém chega verdadeiramente a escolher. Talvez ela seja o oxigénio que todos respiramos quando, nas ruas por que passamos diariamente, nem pensamos se por ali já passou um coche de talha dourada de D. João V ou se aquela rua já cheirou de forma diferente durante o Império Romano. Não precisamos do truque da lamparina e do álcool para tentar ler um papel chamuscado que outrora conteve palavras visíveis, porque as palavras que o tempo queima e condensa, estão em todo o lado.

Eu, pelo menos, cresci numa casa cuja decoração, nos primeiros tempos após os meus pais a comprarem, parecia pertencer a um professor de História. Costumava ter escudos de metal nos corredores, naus dos Descobrimentos em madeira envernizada, luzes que imitavam tochas ao longo do corredor. O elemento mais alarmante talvez fosse a estátua de D. Afonso Henriques no meio da sala. 

“A História nunca fica no passado, está até nos reality shows

Dessa altura, lembro-me de todos acharmos a decoração invulgar e de passar algum tempo a olhar para os quadros dos reis e para os seus cognomes. Foi assim que descobri palavras que nunca tinha ouvido, como “magnânimo”, e que comecei a pensar como é que reis portugueses acabavam associados a cognomes como “a Louca”, “O Gordo “, “O Africano”, “O Mártir” ou “O Cruel”? 

No fundo, estes rótulos que lhes demos carregam mais história e poder do que a curiosidade inicial sugere. Já vivemos sob diferentes ordens mundiais e só um conjunto de condições específicas nos levou até onde estamos. Com a certeza de que a História nunca fica no passado, está até nos reality shows, termino aqui: “With great power comes great need to take a nap”.