Opinião de Francisco Queiroga
Também incluído no FEPIANO 68, publicado em Junho de 2026
No meu nono ano, estava desejoso de sair do básico, de seguir para o secundário: a escola de gente crescida e onde, nos filmes, toda a vida adolescente realmente acontecia. Faltava, contudo, um ponto crucial nesta ascensão académica: qual seria a área? Os famosos testes psicotécnicos indicavam que tanto poderia ser engenheiro como filólogo, mas houve um interruptor que acendeu o caminho certo. Sempre gostei do ânimo da professora de História: entusiasmada por nos ensinar cada detalhe e cantinho da História. Foi justamente numa aula de História, como todas as outras, que ouvi pela primeira vez sobre a famosa Sexta-feira Negra, sobre o crash da bolsa de 1929 e a subsequente crise dos anos 30. Assim começou o bicho da economia: foi aquela aula, aquele momento, que me trouxe de certa forma a estas páginas.
Claro que a disciplina de História não marcou todos os alunos da mesma forma, mas é completamente inegável a sua importância, e é por carregar este peso que deve manter a sua integridade ao máximo. Ouve-se, de vez em quando, o antigo e bafiento debate sobre a “necessidade” da disciplina de História e da sua tão extensa e complicada matéria à qual os alunos, as nossas pobres e frágeis crianças com cabeças preciosas e pequenas, são subjugados. Mas há ainda a conversa de alterar os conteúdos da disciplina, ocultar aos jovens um detalhe aqui e ali, sendo que são pensamentos e histórias que “magoam muito” por obrigarem ginástica mental, uma jogada quase Orwelliana para moldar o passado com cada geração subsequente. Atenção, claro que o sistema de ensino precisa de mudanças, não sou nenhum velho do Restelo que espera que seja tudo como era “no meu tempo”. Os jovens e as crianças portuguesas merecem um sistema que os incentive a querer saber mais, mas quero que estas mudanças sejam evoluções, que sejam em nome de dar a estas próximas gerações todas as ferramentas possíveis e imagináveis para construírem um futuro melhor do que aquele que hoje temo.
Mas porque é que a História é assim tão importante? Verdade seja dita, caro leitor, não defendo a presença desta disciplina e deste conhecimento por achar piada a ouvir um facto curioso sobre algum imperador antigo, ou por achar que todos devemos ter mais chances de acertar uma ou outra pergunta de “cultura geral” num programa televisivo apresentado pelo pequeno grande homem, Vasco Palmeirim. Embora sejam cativantes razões, não é aqui que devemos descansar os olhos, inebriados pela faceta superficial, é preciso lembrarmo-nos de que não nos podemos deixar esquecer. Não podemos deixar cair no esquecimento tudo aquilo pelo que lutámos e que nos trouxe exatamente a este momento. Tudo aquilo que conquistámos e que nos levou, como raça humana, mais longe, e também todos os nossos erros. Todas aquelas partes de nós que queremos deixar na parte de trás do armário da História, porque é ao olhar para trás e ao perscrutar as passadas de todos aqueles (tantos como as estrelas no céu, ou assim foi descrito a Abraão) que abriram caminho para nós que nos podemos preparar para o futuro que queremos. É assim que não esquecemos; é assim que os jovens de amanhã subirão para os ombros dos gigantes históricos.
“é preciso lembrarmo-nos de que não nos podemos deixar esquecer”

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