Opinião de Sara Arêde
Também incluído no FEPIANO 61, publicado em Novembro de 2025
Durante séculos, a literatura agitou sociedades. As palavras eram impressas no papel com o peso de serem um espelho da humanidade e combustível para a transformação. Hoje, parecem não falar com ninguém. Mas o silêncio que se instalou à sua volta diz mais sobre nós do que sobre elas.
O hábito de ler tem-se tornado, para a grande maioria, cada vez mais distante, como se se tratasse de algo perdido há tanto tempo que apenas nos recordamos quando tropeçamos acidentalmente nele. As crianças já não sonham com a recompensa do cheiro de um livro novo por terem boas notas ou, de sorriso desalinhado, tateiam sob a almofada com esperança de sentir os contornos de uma capa, obra da “fada dos dentes”.
O mundo parece girar cada vez mais rápido. O passo das pessoas tornou-se mais apressado, os corações passaram a bater ao ritmo de alguma sinfonia presto e os pensamentos são teias densas, mestria de uma senhora aranha que não tem descanso. Quando finalmente nos sentamos, um algoritmo seleciona cuidadosamente exatamente aquilo que queremos ver, não aquilo de que realmente precisamos. Não paramos verdadeiramente: continuamos no mesmo ritmo frenético, saltando entre vídeos e posts, conteúdo rápido e condensado, um ataque de milhares de pedacinhos informativos que nos ocupam, mas não nos preenchem.
“Pegar num livro e submergir na sua história converteu-se num ato de resistência à cultura do “mais””
Tentar sair desta corrente implacável, para a qual saltamos voluntariamente, é extremamente exigente. A sociedade ocidental é uma sociedade cansada, mas tirar tempo para não ser produtivo parece errado e até pode gerar ansiedade. Habituados a sentir stress e a mudar constantemente o foco de atenção, desacelerar e concentrar em algo mais moroso e calmo, tornou-se um verdadeiro desafio. Pegar num livro e submergir na sua história converteu-se num ato de resistência à cultura do “mais”.
Estaremos verdadeiramente conscientes do que perdemos e das consequências de condenar infinitos mundos, vidas e ensinamentos a viver lado a lado, em prateleiras, num silêncio quase claustrofóbico? Talvez Saramago tenha razão e estejamos cegos. Talvez tenha começado no momento em que deixámos de viver mais que a nossa realidade ou quando deixámos de permitir que um livro nos mudasse.
Mas nem sempre foi assim. Um olhar sobre o passado permite-nos recordar que os livros não eram silêncio, mas voz: um lugar de encontro, de confronto, de descoberta. As palavras, centelhas de revoluções, instrumentos de pensamento e armas de transformação. Se escutarmos com atenção, conseguimos ouvir preces de Platão e Aristófanes para nos questionarmos, para não aceitar cegamente o estabelecido, ponderarmos o bem e o mal, o poder e a justiça, o nosso propósito e o que significa viver em sociedade. As suas palavras ainda hoje inspiram teorias políticas e filosóficas e estão presentes na fundação da nossa estrutura societária. A democracia como a conhecemos deve-se, em grande parte, a pensadores como estes, que utilizaram as palavras para perguntar o impensável, contagiando sociedades ao longo da história a fazer o mesmo.
A literatura constituiu desde sempre um motor de mudança de correntes ideológicas e movimentos históricos e filosóficos. A maneira como vemos, não só o mundo, mas a nós mesmos, foi-se transfigurando à medida que as palavras foram ocupando novas posições nas frases, adquirindo novos significados e encontrando novas formas de tocar quem as lia ou as partilhava. A realidade já foi produto da mente e dos sentidos, mas o mundo também já existiu apenas “fora” de nós. Os sentidos e a razão lutaram e substituíram-se como meio para conhecer a realidade e construir o conhecimento. O ser humano já foi instruído a guiar-se pelo pragmatismo para, depois, ser confrontado com o existencialismo, obrigado a conviver com a subjetividade individual.
Mas há algo que sempre permaneceu inalterado: o poder das palavras. Desde o início, a escrita foi vista como algo poderoso, capaz de mover multidões, questionar o status quo e até derrubá-lo. As ideias tornam-se armas.
Vejamos o caso de Rousseau, cuja defesa da liberdade individual e do contrato social incendiou consciências e acendeu revoluções. Colocar a soberania em causa foi suficiente para gerar fortes polémicas, mas converteu-se no coração ideológico da revolução: monarquias foram derrubadas, repúblicas fundadas e constituições moldadas.
A escrita também foi um importante instrumento na luta daqueles que, oprimidos, não tinham voz. O papel carregou, impressa, uma importante parte da luta pela igualdade de género: levou pessoas a sonhar com uma sociedade mais justa. Escritoras como Mary Wollstonecraft, Virginia Woolf e Mary Shelley recusaram que, além dos seus direitos, lhes restringissem o pensamento, mostrando que a escrita pode ser um ato de emancipação, movendo consigo quatro ondas do feminismo e conquistas sociais.
A ciência também se reinventou através da escrita e, consequentemente, a nossa visão do mundo e do Homem. Copérnico, Galileu e Newton reescreveram as leis do universo, desafiando dogmas religiosos e certezas milenares. Darwin foi ainda mais longe, considerando o ser humano fruto de uma evolução natural, retirando-nos do centro da criação divina. A humanidade mudou irreversivelmente: a medicina, a genética e a biologia evoluíram, mas também a própria consciência do “eu”.
Se estes exemplos não soam suficientemente espetaculares, lembremo-nos de que houve um livro que foi capaz de estar no centro da queda e criação de civilizações, de mover exércitos e guiar povos. A Bíblia, mais do que uma obra religiosa, é um eixo da história humana: inspirou guerras, tratados de paz, conhecimento e a arte. Hoje, continua a influenciar leis e justiça e a cultivar esperança e fanatismo.
A literatura não refletiu apenas o mundo, reinventou-o. Assim, devemos àqueles que pagaram o preço da palavra livre para que hoje possamos ler, pensar e discutir sem medo. Esse legado impõe-nos a responsabilidade de o proteger, sobretudo com o regresso de tentativas de censura e apagamento, quando livros voltam a ser proibidos e vozes caladas. “The Handmaid’s Tale” (Margaret Atwood, 1985) é mais que uma obra distópica: é um alerta para a fragilidade da liberdade quando deixamos que a passividade e ignorância ditem o que deve ser dito, lido ou lembrado.
“Ler cria ideias, e ideias mudam o mundo.”
Mas também devemos algo a nós próprios. A literatura permite-nos viver múltiplas realidades, novas emoções e perspectivas, desenvolver empatia, criatividade e pensamento crítico para compreender personagens e contextos. Tornamo-nos cidadãos mais críticos, porque somos levados a questionar o que foi dito ou o que o autor deixou por dizer. Descobrimo-nos a nós próprios nas páginas, enquanto adquirimos novas palavras e visões para entender e questionar o mundo. Ler cria ideias, e ideias mudam o mundo.
Talvez os livros nunca tenham deixado de falar, nós é que deixámos de escutar. Mas, enquanto houver um livro aberto, haverá pensamento e, com ele, possibilidade. Depende de nós que essas páginas não se fechem.

Comentários