It’s a dangerous business, Frodo, going out your door. You step onto the road, and if you don’t keep your feet, there’s no knowing where you might be swept off to.” – A Irmandade do Anel, J.R R. Tolkien

Numa sala de aula em Oxford, lecionava um professor de literatura inglesa. Não era um professor qualquer, embora a sua aparência clássica de feições serenas e até imponentes, pois este professor carregava no peito e na cabeça toda uma outra realidade. Uma realidade em que o bem encontra sempre maneira de se sobrepor ao mal, uma realidade mística em que até as mais pequenas das criaturas conseguem influenciar todo o futuro da sua terra, uma realidade que era sua e que ansiava ser partilhada. Era John Ronald Reuel Tolkien, mais conhecido como J.R.R. Tolkien, o nosso professor. Um soldado que já sonhava com deuses que cantavam o universo, um pai que nas histórias que contava aos filhos começava a construir um mundo na sua cabeça e, novamente, um professor que nas margens dos testes que corrigia materializava os primeiros passos deste seu mundo. É este o “pai” da terra média, quem nos trouxe esse Golias da fantasia, o autor da saga O Senhor dos Anéis e todas as histórias que rodeiam o místico do mesmo. 

São vários os aspetos que fazem com que Tolkien e o seu trabalho tenham perdurado o passar de décadas e décadas, encontrando sempre um público que carrega os seus volumes como imponentes bandeiras, seja da sua cultura dita “nerd”, seja por movimentos hippies dos anos 60. Depois de o volume final dos Anéis ter sido publicado, deu-se a sua popularização nos EUA, já que os seus temas se encaixavam perfeitamente na contracultura da época. Enquanto Tolkien passava os seus dias a discutir as suas ortografias e sintaxes com os editores americanos, os seus livros eram passados de mão em mão nas universidades estadunidenses, muitas vezes em edições não oficiais. A celebração da beleza da natureza e as críticas à industrialização alinhavam-se com os “rebeldes” da altura, e a frase “Frodo Lives!” começou a surgir em todo o lado. O mote, que traduz para “Frodo vive”, apareceu como resposta a um momento do terceiro livro, mas representava para a comunidade o verdadeiro ato de resistência – a escolha da compaixão em vez do poder.

Tolkien criou, dentro de todo o misticismo da Terra Média, raízes religiosas para o seu mundo, semeou cuidadosamente um mito creacionista onde Eru Ilúvatar, figura análoga de Deus, canta e entoa um mundo que a pouco e pouco se materializa, se enche das mais diferentes e belas criaturas. Entre a música de Ilúvatar e da sua principal criação, os Valar (analogamente considerados de anjos), que surge um destes que ambiciona algo diferente, ambiciona ser também ele criador, mas temido, temido por aquilo que criar, poder submeter aquilo que ele próprio deseja materializar, este é Melkor. É inegável o paralelismo que se pode subentender entre este e Lúcifer, o anjo caído, da Bíblia, ambos levados pelo orgulho a rebelarem-se contra o “Pai”. Para Tolkien o maior dom que Ilúvatar passa às suas criações é o gosto exatamente por criar, por querer construir algo que, mesmo que seja seu por direito, é para toda a terra média. Leva então à reflexão de que o autor, ele próprio criador destes tão maravilhosos mundos e complexas histórias, sente que tem em si uma parte do seu deus, que ele lhe deu esta vontade de criar e partilhar com todos.

E neste ato da criação, neste génesis de 1977, ele não só criou a Terra Média, como mudou para sempre a literatura. “A verdade é que, sem Tolkien, o mundo (ou mundos) da fantasia como o conhecemos seria irreconhecível.” Não é exagero dizer que todas as obras do genre consequentes, consciente ou inconscientemente, lhe devem algum louvar. Ele é, em muitos aspetos, um dos grandes pais da literatura (ou o “avô da fantasia”, como lhe chama Brandon Sanderson). De facto, nos nove membros da Irmandade do Anel, encontramos as bases de inúmeras personagens em todos os tipos de media: o escolhido e o seu leal companheiro, o rei exilado, o elfo que veste verde, o anão carrancudo, a dupla cómica, o sábio de barbas brancas, e aquele que está destinado a cair. Estes arquétipos tornaram-se o ADN da fantasia moderna e diz o seu destino que serão infinitamente revistos, reciclados, ruminados, re-interpretados (e tantos outros verbos com “r”) em milhares de universos. A presença de Tolkien tornou-se algo a que nenhum escritor consegue escapar por completo, sendo ele tanto o alicerce como o desafio. Pode-se até dizer que o seu olho paira sobre todos os novos grandes nomes do estilo literário como se ele próprio fosse Sauron, criador do Anel a que (quase) ninguém consegue resistir.

Antes da Terra Média ter um mapa, já tinha línguas. Na realidade, o primeiro passo na escrita foi inventar a Quenya, uma língua completa, com morfologia e etimologias, que acabou por usar no universo de O Senhor dos Anéis, e a ela se seguiram Sindarin, Khuzdul, entre outras. O Professor não criou estes elementos para os colocar no Hobbit, mas criou todo este mundo para lhe poder aplicar as linguagens. Depois, baseou-se nas mitologias europeias e tornou-se um historiador de algo que nunca aconteceu. Tolkien, numa aula que deu, que acabou por publicar em texto sob o nome “Sobre Histórias de Fadas”, criou o termo “fairy story” para atribuir à própria obra, já que “fairy tale” tem uma conotação infantil. Aqui, delineou os três propósitos da fantasia – fuga, recuperação, e controlo. A fuga, muitas vezes alvo de escárnio, para ele não era cobardia, mas um certo sentimento de liberdade; a recuperação é a visão renovada que conquistamos ao regressar; e a consolação, ou aquilo a que ele chamou “eucatástrofe”, é a súbita e jubilosa viragem que ocorre quando o desespero dá lugar à graça.

Apesar de toda a discussão à volta do que Tolkien nos pretenderia dizer nas entrelinhas da jornada do anel, ele próprio avisa no prefácio de O Senhor dos Anéis: “Detesto alegorias em todas as suas manifestações, e sempre detestei desde que cresci e tinha cautela suficiente para me aperceber da sua presença. Prefiro muito mais a história – verdadeira ou fictícia – com a sua variada aplicabilidade ao pensamento e à experiência dos leitores”. Claro que, ainda assim, nenhum artista se consegue remover completamente da sua arte, e não foi Tolkien, mesmo na sua perspicácia natural, que fugiu à regra. Lemos em Senhor dos Anéis os passos de veteranos, de “zés-ninguéns” em que lhes caiu nas mãos responsabilidades de guerras que não eram suas para travar, e certamente que a aventura do “grande” protagonista não teria decorrido como Tolkien narrou se ele próprio não fosse veterano da Grande Guerra.

No entanto, quando algo é amado de forma tão geral, haverá sempre aqueles que tentarão nadar contra a corrente. Assim surgiu uma onda de “anti-Tolkiens”, liderada, claro, por George R.R. Martin, que desde logo se assumiu como um escritor que tentaria fazer tudo o que o Professor não fez. Nas suas Crónicas de Gelo e Fogo (mais conhecidas como A Guerra dos Tronos), encontramos muito mais personagens “cinzentas” (não como Gandalf), intriga política, e supostos heróis em lutas incessantes pelo poder, ao contrário da magia, do misticismo, e da clareza moral a que estamos habituados em O Senhor dos Anéis.

Ainda assim, estas “oposições” apenas comprovam o alcance incontornável de Tolkien. Para se definirem, foi necessário primeiro numerarem a sua distância dele. Robert Jordan admitiu basear-se na Terra Média quando começou a construir o mundo de A Roda do Tempo, Sanderson propositadamente evita momentos demasiado descritivos ou lentos, e Harry Potter é praticamente um filho de Frodo. O nosso filólogo acabou por se tornar o eixo em torno do qual gira o genre. Seja “contra” ele ou com ele, os escritores de fantasia como os lemos agora caminham sempre na sua sombra.

“É uma honra poder passear pela mente de Tolkien nas páginas da sua obra.” Desde a beleza da sua escrita, descritiva e rica, sem medo de enveredar por descrições ditas “longas” para prados verdejantes logo após momentos tumultuosos para a nossa Irmandade, à magnificência da sua criação pura, envolta em línguas, deuses, anéis, personagens além de amáveis e, no fundo, uma história que toca a tantos, que influenciou tantas outras coisas que amamos e que se demarca como um verdadeiro Golias (ou balrog, para fãs de Tolkien) do genre. Este artigo é uma carta aberta de carinho e fascínio por todo o seu trabalho, de autores que sonham e discutem a terra média como se à distância de um toque estivesse.”Not idly do the leaves of Lorien fall