São assustadores os dias em que damos por nós no trabalho ou faculdade e temos a reflexão “Não sei como cá cheguei, sinto que abri os olhos e estava aqui”, natural de quando o cérebro entrega ao lado automático do corpo todas as funções pois não aguenta o peso emocional de processar mais um dia na mesma rotina, com as mesmas tarefas, com as mesmas pessoas, com as mesmas ansiedades, os mesmos medos, o mesmo olhar perdido. Olhamos à nossa volta e sentimos um vazio enorme, questionamos todas as decisões que nos colocaram naqueles metros quadrados, que nos levaram ao exato ponto da vida em que estamos.

Onde está a nossa luz própria? Onde estão os pequenos momentos que nos trazem um quente ao coração e à mente que nos permite enfrentar mais um dia? Estes existem, todos os temos, possivelmente nem todos são iguais. Para o leitor pode ser beber um café com um colega ou amigo e discutir o episódio da nova série da Netflix, enquanto que para outros pode ser ter disponibilidade para ler um capítulo do seu livro e poder digeri-lo verdadeiramente, analisando as suas nuances e detalhes com gosto, ou até mesmo o simples ato de poder parar um pouco, sem qualquer tipo de interação, e olhar para a natureza, apreciá-la no seu todo e poder, pela primeira vez num dia inteiro, respirar verdadeiramente fundo. Estas “candeias” metafóricas estão presentes em todos nós, guardamo-las no peito ao lado dos frascos de memórias e caixas de conhecimento, mas parece que, muitas vezes, nos esquecemos de abrir a porta do armário do corpo e acender as candeias.

Ora há algum tipo de incongruência no seguimento lógico, sentimo-nos pressionados, cansados e vazios, temos os métodos para os amenizar de forma eficaz, no entanto não se verifica a utilização de tais métodos. Não precisamos de colocar um chapéu de detetive para observar que há fatores externos que afetam esta regulação emocional, este procurar por um pouco de paz interna. Quando o nosso sistema de ensino valoriza os nossos jovens  decorarem matéria sem a perceberem por completo e aplicarem quase a totalidade do seu tempo aos seus estudos, ignorando muitas vezes que estes aspiram ser algo mais que umas notas no fim do ano, e pressioná-los para terem sempre as melhores notas, os vintes e excelentes, para que possam ter mais chances no futuro, o que é que lhes estamos a ensinar? Estamos a passar a ideia de uma vida equilibrada entre trabalho e lazer? Estamos a dar-lhes gosto por aprender mais? Estamos a ensiná-los a serem mais criativos? Quando no mercado de trabalho alguns trabalhadores comparam, como se de medalhas de honra se falasse, as horas fora do seu horário definido que dedicaram à empresa, perdendo muitas vezes horas de sono, que respeito tem o nosso empregador e, acima de tudo, que respeito temos por nós próprios?

Não há réu neste caso, não há alguém a quem se possa apontar um dedo acusador. Foi o sistema que se desenvolveu, que evoluiu neste sentido e nos trouxe aqui, a uma entrega tão excessiva ao trabalho e aos estudos que o cérebro acaba por escolher ter uma atitude meramente passiva, automatizando as tarefas do dia-a-dia, levando a que o ser passe a ser uma existência sem vida. Mas há esperança, essa sim. Esperança de mudarmos o paradigma, caro leitor. Procure fazer tempo para acender as suas candeias, leia os seus livros e veja as suas séries, e lembre aqueles que ama de as acender também.

“O maior ato de revolta contra um sistema que se enraizou é contrariá-lo de sorriso na boca, ser feliz no meio da adversidade será sempre a mais bela rebelião.”