Normalmente, quando pessoas mais eruditas do que eu vão a exaltar um livro, dizem coisas como “este eterno romance”, que penso que seja uma referência à permanência do seu carácter reflexivo, ou apenas à sua incontornável qualidade. No entanto, pode-se dizer quanto à obra de Orwell, que ela é eterna em mais do que um sentido. No sentido em que o eco da sua genialidade ainda se faz ouvir nos dias que correm, e que a realidade parece estar a convergir com as previsões que teceu.

Confesso que, até para mim, a comparação da realidade a Orwell começa a tornar-se bacoca. Qualquer sinal de opressão, ainda que só percepcionado, é análogo a “1984”. Qualquer censura de comportamento por parte da cor política oposta à nossa é digna de ser praticada pela polícia do pensamento. No entanto, para mim, um dos detalhes mais interessantes era um outro livro, que se podia ler dentro da obra original.

Por volta do terceiro ato, Winston dá por si a ler um manifesto político proibido pelo partido, como era qualquer evidência de dissidência política, ainda que só pensada. O livro é uma revelação para Winston, mas também para o leitor, a quem é retirada a venda dos olhos, percebemos que os países com nomes desconhecidos de que tínhamos ouvido falar durante a obra, eram na realidade expansões por proximidade das grandes potências mundiais, e que o globo do romance é idêntico ao nosso. Ainda para mais, este livro fictício é um sólido ensaio político.

Uma das traves-mestras do ensaio, é que o desejo da classe alta é permanecer no poder, o da classe média é passar a ser a classe alta, e o da baixa é o de terraplanar a sociedade, algo análogo ao crescimento no proletariado dos movimentos comunistas, e posteriormente dos movimentos fascizantes, que têm no seu cerne também essa destruição dos oligarcas (em particular os oligarcas judeus).

No entanto, neste futuro distópico, a classe alta sofisticou-se. Olhando para trás, perceberam que as oligarquias do passado falharam por ser nelas reconhecível o nepotismo, politicamente insustentável. Como tal, precisava de ser criada a ilusão de democracia. Para além disso, era fulcral à permanência no poder manter o povo na ignorância, e, nos dias que correm, só é ignorante quem não tem tempo, só é ignorante quem não tem meios. No entanto, e mesmo que com má vontade, a distribuição de rendimentos, por via dos avanços tecnológicos, vai sempre ser cada vez mais avultada, pelo que as economias se tornam mais produtivas. Só uma força de promover avanço tecnológico sem crescimento económico, o belicismo. A tecnologia bélica é feita para desaparecer, e com ela, todo o valor que foi nela colocado. Isto, somado aos impasses nas linhas da frente devido não só à relutância das potências em qualquer avanço militar que pudesse ser demasiadamente dispendioso, ou excessivamente ambicioso, leva a uma completa homeostase das linhas de combate, com valor a ser destruído constantemente, sem nenhum avanço territorial, de forma perpetuar a pobreza, e o poder da minoria.

Há vários pequenos episódios que nos podem fazer traçar semelhanças. O facto de que o ministério da paz se passa mesmo a chamar ministério da guerra é quase insosso de tão óbvio, se bem que, há em Pete Hegseth algo de mais Orwelliano do que o que os olhos dão a crer ao início. “If you want to imagine the future, imagine a boot stomping on a human face – forever”. Hegseth é a bota, que celebra a vitória de forma visceral, o rosto são por vezes os europeus, por vezes os imigrantes, mas sobretudo os iranianos.

As pessoas da minha geração estão excessivamente habituadas à planificação mundial do pós-segunda guerra, custa-nos a acreditar que mais anexações, mais invasões terrestres pudessem acontecer, num mundo já tão plural e próximo. Porém, o recente desinteresse de Trump por Taiwan, uma possível subserviência à China ou, ainda mais assustadoramente, uma moeda de troca por Cuba, pode indicar-nos que o mundo não só vai mudar drasticamente de face, como, nos moldes de Orwell, as grandes potências vão começar a anexar as pequenas forças vizinhas.

“Por que não o haveriam de fazer? Afinal, já lá vai o direito internacional. Pior, ele ainda existe, mas para ser contrariado.”

Um dia Israel há de tomar para si a faixa de Gaza, ou até mesmo o Líbano, mas, politicamente, isso pode ser desmentido como uma invasão, pois, perante as inertes Nações Unidas, estava em vigor um cessar-fogo, tal como a Oceânia nunca ter estado em guerra com a Eurásia.

No final, e pondo em perspetiva que neste momento, por decreto da administração Trump, nem o próprio nem nenhum familiar pode alguma vez ser julgado pelo fisco norte-americano, para sempre, a infeliz constatação a que chegamos é que as três maiores potências do mundo, Rússia, China, Estados Unidos, são todas elas ditaduras oligárquicas e belicistas, que acordam umas com as outras a troca de pequenas potências, pelo critério da proximidade, como a Ucrânia, Taiwan, e Cuba. Caso isto se mantenha assim, então Orwell escreveu, em detrimento da raça humana, o melhor romance histórico de sempre.