A época de saldos é sempre um momento feliz para as pessoas: é a oportunidade de comprar mais por menos. O problema é que grande parte dos consumidores não têm consciência do verdadeiro impacto das suas compras, principalmente quando falamos sobre fast fashion

A ideia de que fast fashion é nociva não é algo novo, então porque continuamos a comprar roupa por impulso? Para que precisamos de vinte pares de sapatos? Para nada: para decoração, para estarem num roupeiro cheio de “tralha” com baixa qualidade e pouca personalidade.

Esta indústria é claramente prejudicial, mas porquê? Devido à sua produção em massa e falta de compromisso pela responsabilidade social. Segundo o banco UBS, este subsetor emite mais dióxido de carbono do que a aviação e a navegação juntas, sendo responsável por 20% da poluição hídrica e pelo consumo anual de 79 mil milhões de metros cúbicos de água.

Adicionalmente, surge outra questão: qual é o destino destes bens? O aumento do mercado de roupa de segunda mão, tanto online como físico, apesar de ajudar a dar uma “nova vida” a estes produtos, não soluciona o problema a longo prazo, já que grande parte da roupa produzida é feita de poliéster: um derivado do plástico. A nível de comparação, uma t-shirt de poliéster pode demorar até 200 anos a decompor-se no meio ambiente. 

Tendo em conta a baixa qualidade dos materiais e das costuras destas peças, a probabilidade das mesmas se “estragarem” é alta. Esta baixa qualidade tem como objetivo tornar estes bens acessíveis. Contudo, tornaram-se tão “acessíveis” que é mais barato descartar este “lixo”, que permanecerá no ambiente durante séculos, e comprar uma nova peça com o mesmo destino, do que investir na sua reparação. Este ciclo de consumo não é apenas insustentável do ponto de vista ambiental, mas também um reflexo de incentivos económicos distorcidos, onde o verdadeiro custo, tanto de produção como ambiental, da camisola não está refletido no seu preço.

Num contexto marcado pelo capitalismo e pela desigualdade, onde, em Portugal, a população abaixo do limiar da pobreza cresce, o consumo de fast fashion vai continuar a aumentar. Não só pelas más decisões de compra, mas também pela incapacidade de comprar algo de melhor qualidade. Com a pobreza a intensificar-se, a sustentabilidade é, atualmente, um “bem de luxo” para muitos. 

“Com a pobreza a intensificar-se, a sustentabilidade é, atualmente, um “bem de luxo” para muitos.”

Assim, torna-se essencial questionar o papel do Estado e da União Europeia. Medidas como impostos ambientais ou incentivos à reparação destas peças e a negócios têxteis de menor dimensão podem contribuir para quebrar este ciclo. Sem mudanças estruturais, a promessa de sustentabilidade continuará a ser apenas greenwashing, permanecendo como mais uma etiqueta apelativa numa peça de roupa descartável.