A sustentabilidade deixou de ser uma nota de rodapé nos relatórios anuais para se tornar o motor central da política macroeconómica europeia. Contudo, como é amplamente reconhecido pela teoria económica, não existem soluções sem custos.

Enquanto as economias globais tentam descarbonizar as suas indústrias e cumprir as ambiciosas metas de 2030, deparamo-nos com um fenómeno desconfortável e persistente que ameaça o equilíbrio das contas públicas e o bolso dos consumidores: a greenflation. Este conceito funde a agenda verde com a pressão inflacionista. Além disso, revela que a transição energética não é apenas um desafio tecnológico, mas também um choque estrutural de oferta com consequências profundas nos mercados.

O primeiro grande motor deste fenómeno reside na questão dos materiais. Para eletrificar a mobilidade e a indústria, dependemos de grandes quantidades de minerais como o cobre, o lítio e o cobalto. A IEA (Internacional Energy Agency) estima que, em termos de inputs minerais, um carro elétrico requer aproximadamente seis vezes mais minerais do que um carro a gasolina ou diesel. Este aumento exponencial da procura choca de frente com uma oferta rígida, uma vez que a abertura de novas explorações de minerais pode demorar mais de uma década, entre processos de licenciamento e construção. O resultado é um fenómeno que faz disparar os preços das matérias-primas, encarecendo a tecnologia que deveria salvar o planeta.

Somando-se à escassez física, temos ainda a “mão invisível” do regulador. Através do ETS (Emissions Trading System) da União Europeia,

“poluir tornou-se um passivo financeiro bastante pesado para as empresas.”

Ao mesmo tempo que o capital é retirado das infraestruturas de combustíveis fósseis, as energias renováveis ainda não atingiram a escala e a maturidade necessárias para suprir a procura total. Este desequilíbrio faz com que os preços da eletricidade continuem elevados, já que a produção tradicional tende a diminuir antes que surjam alternativas capazes de controlar o setor.

Já para os bancos centrais, nomeadamente o BCE, a greenflation apresenta um dilema técnico, quase como um “beco sem saída”. A resposta macroeconómica clássica à inflação passa pela subida das taxas de juro para arrefecer a economia, mas esta estratégia pode ser prejudicial num cenário de transição verde. Os projetos de energias renováveis são intensivos em capital e dependem criticamente de financiamento barato. Assim, as taxas de juro mais altas podem, ironicamente, atrasar os investimentos necessários para tornar a energia mais barata e verde no futuro. Estamos, portanto, perante um equilíbrio precário entre a estabilidade de preços no curto prazo e a sobrevivência climática no longo prazo.

A sustentabilidade não vai apenas alterar o modo como consumimos, mas também a forma como calculamos o preço de tudo o que nos rodeia. A greenflation é o preço que pagamos hoje por décadas de externalidades negativas ignoradas. Resta agora perceber se a sociedade está disposta a aceitar uma fatura mais alta em nome de um futuro mais limpo, ou se o choque no custo de vida acabará por ditar o ritmo (ou o travão) da ambição ambiental global.