Opinião de Isabel Valério
Também incluído no FEPIANO 64, publicado em Fevereiro de 2026
Alguém sonhava que haveria de acordar no dia seguinte e conseguir encontrar a vacina da imortalidade, respirar debaixo de água, ou ainda ver dinossauros descomunais revividos por laboratórios ao longe, a pisar montanhas como tambores, como melodias da natureza difíceis de encontrar. Nesta visão, alguns pensavam ser o aspeto do nosso futuro, bem como, urbanizações eletrizadas e robotizadas, cheias de arranha-céus azuis e prateados, e os carros substituídos por naves que flutuam a velocidades ultrassónicas. Talvez em 2050, o que acham?
Mas em tempos avariados e imprevisíveis, infestados de poluição das fábricas e com oceanos dobrados por metais pesados, aqueles que habitam o planeta do qual vão desaparecendo as estações do ano, são os soldadinhos de plástico, os animais envenenados, o lixo e as florestas a morrer.
Segundo o Jornal Económico deste mês, 91% dos portugueses estão preocupados com o agravamento das catástrofes naturais como resultado das alterações climáticas.
“Com 2026 a começar marcado por tempestades consecutivas e o verão passado por enxames de incêndios, este tema volta a vir à tona.”
A natureza fala e escolhe quem a habita. Tomemos o clássico exemplo das girafas, as duas explicações: será que, no início, só existiam girafas de pescoço curto e, com a necessidade de apanhar os alimentos no alto das árvores, estas fizeram um esforço evolutivo, usando mais esse órgão, o que lhes terá permitido desenvolver um pescoço comprido? E terá essa girafa passado os caracteres adquiridos, o pescoço comprido, à descendência e, por isso, que hoje só existem girafas de pescoço comprido? Ou será que, no início, havia diversidade, isto é, existiam girafas de pescoço curto e de pescoço comprido? E terá sido o meio a fazer uma seleção natural, na qual as mais aptas, as que conseguiam obter alimento, sobreviveram e as outras não? A verdade é que se coloca em causa se o ser humano não estará a acelerar o seu próprio processo de seleção natural ao alterar o meio e a caminhar para uma extinção em massa. Se sim, estará esta predestinada independentemente das nossas ações ou ainda a podemos reverter e consertar os pedaços?
Há quem negue que as temperaturas estão a subir, como Donald Trump que, segundo o jornal The Guardian disse: “Está gelado em Nova Iorque, onde raios está o aquecimento global?”, demonstrando o seu desentendimento sobre o assunto. Este é o tipo de coisa que se pesquisa, antes de se fazer comentários públicos. Um evento de frio extremo não invalida a tendência de décadas, para além de existir uma correlação entre temperaturas extremas e cito uma frase de um artigo da National Geographic que explica isto em parte: “O aquecimento do Ártico […] enfraquece este jato polar, permitindo que o frio se desloque até latitudes mais baixas”; traduzindo, provoca frio extremo nas regiões num contexto de aumento da temperatura média global. Definitivamente: fácil é criticá-lo, difícil é elogiá-lo. Se me pedissem para descrever o discurso de Trump, comparava-o com a evolução do capital com taxa de juro negativa e, se fosse um fenómeno económico, seria a deflação.
O meu problema com negacionistas é ser-lhes indiferente existir um consenso científico. A ciência já provou que, embora não esteja livre de errar, é o mais perto que temos de acertar, e deu-nos já diversas conquistas. O que defende um negacionista que não acredita nas instituições? O que concretizam acaba sempre num ceticismo que nada defende por medo de estarem errados. Isto nada mais é, do que estar sempre na inação e preso nas decisões dos outros por um fio quebradiço.
A preocupação com o planeta é mencionada como “ansiedade climática” na televisão.
“O termo confunde-me por remeter este problema a um subproduto de uma condição do foro psicológico”
humano e, por isso, soa-me redutor. Muita gente já ouviu falar das “vsco girls” uma tendência de 2019 criada no Tiktok, que sucedeu às “Tumblr girls” para reproduzir um estilo de vida de algumas adolescentes na América que vestiam t-shirts largas com temas de praia, scrunchies e colares da amizade de conchas. Este perfil era facilmente identificável por levarem para todo o lado garrafas reutilizáveis e palhinhas de metal para beber café gelado com leite do Starbucks e fazerem circular a frase “and i oop! save the turtles”. Num tom divertido, ganhou enormes dimensões digitais, e demonstra, à maneira original e invulgar da geração Z, uma certa sensibilidade e ativismo pela causa de salvar as tartarugas, bem como, da proteção dos recifes de coral e da biodiversidade marinha. Em 2025, as tartarugas-verdes deixaram de ser classificadas como espécies em perigo de extinção. Se foi devido às “vsco girls” não sei, mas aumentou o volume da mensagem.
Desconcerta-me quem associa a luta pela sustentabilidade a um grupo que vandaliza quadros históricos, como os de Picasso, e atiram tinta verde para a cara de políticos, como aconteceu a Luís Montenegro e a Rui Rocha. Independentemente de opiniões sobre estes políticos e sobre o artista, é contraditório defender um mundo verde a desperdiçar recursos, sendo estes ainda, poluentes. Mancham o nome de uma causa, dando força a quem diz que o efeito de estufa é um monstro rendilhado pela cabeça de fatalistas.
Mas se a Europa tem feito um esforço para descarbonizar, de que nos adianta se as grandes potências continuam a poluir? São esforços que lembram estar no meio do oceano a nadar por semanas à procura da costa, mas ainda assim é melhor do que nada e é importante reforçar o diálogo a favor do esforço global. Discordo que a única solução para diminuir a pegada carbónica seja deixar de produzir, isso seria pior. A sustentabilidade viável passa por apostar na inovação verde e incentivos estruturantes. Políticos podem marginalizar isto, mas o problema voltará amanhã de manhã e mais caro. Nem os direitos humanos, nem a sustentabilidade são exclusivos de defesa por determinados espectros políticos, mas sim por todos. Não vejo produtividade em apoiar visões que acreditam que o apocalipse vem em 12 dias e que nada podemos fazer, porque simplesmente não nos ajudam. Portugal pode não estar muito mal neste aspeto e a população está na sua maioria consciencializada, mas para ser melhor há sempre espaço.
Por fim, acho que devemos apreciar todos os sonhadores, que já contribuíram para encontrar soluções com ideias sustentáveis, aquelas que antes eram uma miragem no deserto e pouco realistas, porque ser “realista” inclui ter sonhos, irrealista é não os ter.


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