Natércia Maia foi professora, tendo exercido durante décadas, nomeadamente em Santarém. Casada com Fernando Salgueiro Maia desde 1970, acompanhou o percurso do capitão ao longo de todo o processo da Revolução dos Cravos e nos anos subsequentes de funções militares.

A sua experiência como docente influenciou a forma como encara a cidadania e a memória histórica?

Como professora, que é uma profissão que eu considero de muita responsabilidade, ser professor vai muito para além da lecionação da sua disciplina. Eu acho que os professores contribuem muito para a formação dos alunos, ao incutir-lhes o conceito de responsabilidade, de respeito pelos outros e de ser cidadão lutando pelos direitos, mas também pelo rigoroso cumprimento dos deveres. Portanto, ser cidadão, no verdadeiro sentido da palavra, não só pelos direitos, mas também ser cumpridor no que diz respeito aos deveres. Por outro lado, também diria que é importante conhecer o passado, conhecer a ditadura, e para dar valor realmente ao 25 de abril, às suas conquistas e à democracia em que vivemos.

Tem mantido uma postura de grande discrição e isenção política ao longo dos anos. Esta foi uma escolha consciente para proteger a integridade histórica do legado que gere?

A discrição tem mais a ver com a minha maneira de ser, com a minha forma de estar, porque eu até gostaria de ter sido mais participativa, mas realmente não me fui formando nesse sentido. Mas de qualquer maneira, em relação à integridade do legado histórico, eu acho que não é o facto de ficar calada ou de ficar discreta que contribui para isso. Penso que as memórias têm que ser vivas e tentá-las transmitir com verdade e com rigor, e é isso que eu procuro fazer na medida do possível.

Como conheceu Salgueiro Maia?

Em 1969, eu concorri ao liceu nacional de Santarém. Vim dar aulas de matemática, e o meu marido tinha regressado de uma comissão, do estágio, mais propriamente, em Moçambique: porque o curso que ele fez foi um curso intensivo, ele e os outros. Como havia falta de oficiais, o curso foi intensivo e era concluído com um estágio, então ele escolheu Moçambique numa companhia de comandos. Quando vim para Santarém, hospedei-me numa casa onde viviam outros professores e integrei-me num grupo de que também faziam parte alguns militares, alguns que estavam a cumprir serviço militar e também davam aulas no liceu. E foi aí que conheci Salgueiro Maia,  foi em outubro de 69 e casámos em agosto de 1970. Foi rápido.

Quando percebeu que o seu marido estava envolvido num momento decisivo para Portugal?

Quando ele regressou da Guiné, em outubro de 1973. Aliás, devia ter regressado mais cedo, mas a situação na Guiné era muito difícil e posso acrescentar que a companhia já tinha entregado as armas e o Sr. General Spínola entendeu que tinha que mandar a companhia para o Norte da Guiné, para Guidaje, na fronteira com o Senegal, porque a situação ali era muito complicada: todas as colunas eram atacadas, havia feridos e mortos. E, portanto, foi o “prémio” pela comissão que eles tinham feito. Mas como um ex-alferes me dizia no ano passado num almoço, eles nem pestanejaram, obedeceram e foram para o Norte quando já estavam para regressar a casa. E por isso o meu marido só chegou em outubro de 73. E aí eu comecei a saber o que se estava a passar. Tinha saído uma legislação, que ia facilitar que militares fossem formados em capitão, porque havia muita falta de comandantes de companhia que eram capitães. Os militares formados na academia não gostaram muito desse documento, sentiam-se lesados, e julgo que foi isso que motivou a primeira reunião, que eu sei que houve uma reunião ainda na Guiné.

O que sente ao ver o nome Salgueiro Maia associado à liberdade em Portugal?

Sinto gratidão a ele e a todos os outros que colaboraram, e muito orgulho. Ele sonhava com um Portugal mais justo, um Portugal livre, e eu recordo que soube disto quando um jornalista, o António Duarte, escreveu a biografia. Ele conversou com um senhor, por acaso, professor, que foi alferes em Moçambique e que, numa conversa sobre a situação no país, o meu marido disse-lhe que “era bonito eu descer a avenida da Liberdade com os carros de combate”. Portanto, já naquela altura, em ‘68 ou ‘69, ele já sonhava fazer alguma coisa para que o nosso país fosse um país melhor, um país livre. Ele teve a oportunidade, ele e outros jovens, de contribuir para o fim do regime ditatorial e que fossem criadas condições para uma democracia, para tornar Portugal um país democrático. Portanto, digo que devemos estar todos gratos a todos eles, porque foi realmente um ato de muita coragem, porque, se tivesse corrido mal, as consequências não sei bem até onde é que iriam. E é bom não esquecer. Foram realmente jovens muito corajosos, a sair dos quartéis e a avançar até Lisboa.

Como estava a dizer, eles ajudaram a derrubar a ditadura e a criar condições para que Portugal fosse democrático, e  cabe a cada um de nós uma quota parte de responsabilidade nessa construção de democracia, porque nós às vezes temos muito o hábito de culpar os outros. Os outros é que têm que fazer, os outros é que são responsáveis. Mas eu já, a mal ou a bem, dizia aos meus alunos: há pessoas que se expõem mais publicamente, porque é uma questão de feitio e no meu caso não gosto muito de me expôr por feitio e porque não tenho conhecimentos para isso, não tenho formação para isso, mas se cada um no seu local de trabalho der o seu melhor,  se na sua comunidade se for participativo, respeitar os outros, se for solidário já dá um grande contributo para que o nosso país seja um país como deve ser. 

É relativamente simples, um aluno tem de estudar, de ser bom aluno, de ajudar os outros, de ter disciplina. Os professores também têm de se preocupar com todos, porque todos têm o direito de aprender. Esta coisa de recorrer só a explicações… não tem nada a ver comigo, há alunos que realmente precisam de uma explicação extra, mas acho que a escola também falha um bocadinho. Eu costumo dizer assim, numa linguagem muito simples: há os pais que têm dinheiro e põem os meninos na explicação, há os renunciados que fazem muito esforço e há aqueles que não podem e os filhos ficam para trás. E acho que é uma grande injustiça.

Como surgiu o seu envolvimento direto na gestão do espólio de Salgueiro Maia?

Quando ele soube que tinha um cancro, primeiro disse a todos os amigos o que tinha e a todos disse “não digam à Natércia!”. Eu acho que se ele estivesse cá, ralhava com ele. Só mais tarde é que soube da gravidade da doença. Então ele fez uma declaração que entregou ao segundo-comandante da escola e nessa declaração, além de dizer como gostaria que fosse o seu funeral, disse que gostava que o seu espólio em armamento e outros objetos correlativos, outros bens, outros objetos que eu e os meus filhos não quiséssemos manter, fossem doados a Castelo de Vide. Portanto, foi este desejo que ele deixou expresso nessa declaração de que eu só tive conhecimento quando ele faleceu.  E foi isso que aconteceu. Nós doamos tudo o que nos parecia que tinha interesse. Houve também ajuda da Câmara de Castelo de Vide. Primeiramente, aquilo foi um bocadinho complicado, porque o meu marido gostava de colecionar muitas coisas, inclusive armas.  Tinha muitas armas, armas antigas e pistolas. E, com a morte dele, os civis não podem ter posse de armas. Portanto, as armas tiveram todas de ser encaixotadas. Veio o tribunal verificar as armas que tínhamos e foram guardadas na Escola Prática de Cavalaria.  Entretanto, alguns oficiais que eu conhecia da escola começaram a sair e eu pensei: “eles saem, um dia vou à escola e ninguém sabe dos caixotes”. Comecei a ter essa preocupação. E aí, em conversa com, na altura, o vice-presidente do Castelo de Vide, que depois foi presidente em dois mandatos, ele disponibilizou-se a guardar tudo na Casa Forte da Misericórdia do Castelo de Vide. E daí nasceu a ideia da Casa da Cidadania. A Câmara realmente tem sido incansável. Um dia, em conversa com o ex-presidente, ele próprio me disse que está muito grato à vida por ter tido esta oportunidade de fazer a Casa da Cidadania, e muitas outras coisas que ele fez em relação à memória do Salgueiro Maia. 

E que tipo de experiências é que se procura proporcionar aos visitantes? 

Eu diria que, além do material das armas e outros objetos, há também outros que, no fim, contam a vida e o percurso de Salgueiro Maia. E, portanto, um dos objetivos será dar a conhecer a biografia de Salgueiro Maia, motivar as pessoas a conhecê-lo melhor, e que isso sirva de incentivo para que as pessoas tenham atitudes mais positivas e que contribua de alguma forma para serem melhores como pessoas. Eu sei que a Casa tem tido muitas visitas, e também muitos espanhóis fazem a visita à Casa da Cidadania. Já tenho tido alguns comentários de pessoas que vão lá e que ficam emocionadas. Claro que também dão ali um peso um bocadinho maior à participação dele no 25 de Abril, com algumas frases que ele disse. Aliás, eu quando vou às escolas, o meu desejo é que os jovens com quem eu falo sintam interesse em conhecê-lo melhor e que isso modifique as pessoas, que faça deles melhores cidadãos, porque acho que ele, com qualidades e defeitos como toda a gente tem, era muito especial, independentemente da sua participação do 25 de Abril. Como comandante dos militares que tiveram na Guiné, todos os anos há um almoço de confraternização. Ainda no ano passado, ao fim de tantos anos aconteceu de um senhor vir ter comigo e pediu “posso-lhe dar um beijinho? Eu a ele devo-lhe a vida.” Ao fim destes anos todos, o senhor ainda veio com este agradecimento. E outro trouxe a filha, trouxe a neta, ofereceu-me um ramo de flores, ofereceu-me um cravo para eu pôr na camisola e disse, “ele foi mais que meu pai”. Mas independentemente disto, eu tenho ido sempre aos almoços, eu percebo, que haja da parte deles, um sentimento de gratidão e de muito afeto pelo capitão. Aliás, conheço um senhor, que agora até é general, que já me tem dito, “nós saímos no 25 de Abril e no 25 de Novembro, porque era o Maia o comandante”. Portanto, como estava a dizer, mesmo antes do 25 de Abril, nós tínhamos um grupo de amigos e ele gostava muito de conviver, de juntar os amigos, de organizar festas, passagem de ano, carnaval. Ele aí era realmente o líder, ele organizava tudo ao pormenor, com um casal meu amigo, todos os anos fazíamos viagens ao estrangeiro e era ele que tomava a iniciativa. Ele era realmente uma pessoa com um grande espírito de decisão, uma pessoa muito prática de ação, sem grandes devaneios teóricos. É para fazer, faz-se. E, portanto, ele tinha a admiração realmente dos nossos amigos, tinham um grande carinho por ele e era respeitado por todos.

Houve algum critério específico para o que deveria ser tornado público?

Não, a ideia foi doar aquele material, o armamento e todos os outros, como fotografias, objetos mais pessoais, o megafone, as condecorações. Até dizer que está lá exposta a tal declaração que ele escreveu, que por acaso até está num sítio, numa vitrina, assim, um pouco ao canto, e eu tenho-me manifestado contra isso, porque acho que ler aquele documento é ficar com uma ideia muito precisa de quem era o Salgueiro Maia . Porque, como eu disse há bocado, também se refere ao funeral, e diz que quer o caixão mais barato do mercado e que no seu funeral só quer os amigos, que cantem a Grândola Vila Morena e que o funeral podia ser feito num carro militar. Eu acho que é um documento que diz tudo sobre ele.

Que papel podem ter espaços como a Casa da Cidadania na formação cívica?

Eu penso que as Casas da Cidadania podem organizar atividades, workshops, para ajudar a formar as pessoas, a despertar nelas o exercício da cidadania, e é nesse aspeto que eu acho que é importante envolver os cidadãos, os jovens em especial. Só tendo é que as pessoas podem dar, não é?  Eu também, já agora, tinha o hábito de dizer aos meus alunos que eu andei num colégio em regime de internato, porque antes só  havia liceus nas capitais de distrito.  E, então, havia muitos colégios com regime de internato, e eu andei num colégio em Torres Novas, mas ali fomos, do primeiro ao sétimo ano, com palas, era estudo, eram as regras do colégio e estávamos completamente alheias ao que se passava  no mundo. Já nem digo no mundo, mas em Portugal, em Torres Novas.

Desta forma, íamos passear até ao campo, não havia contactos, as alunas em regime de internato, não podiam falar com as alunas internas. Eu lembro-me de uma vez no Carnaval em que não podíamos ir a casa, porque só se podia ir a casa uma vez por mês. No Carnaval também não podia ser, porque era um período de pecado, então era passado no colégio. Portanto, algo que eu dizia muitas vezes, aos meus alunos,era que tinham que se focar no estudo, evidentemente, que era o dever deles, mas que se fossem bem orientados, ainda tinham tempo para se divertirem também, e também para outro tipo de atividades, como  a leitura e outras coisas, para se enriquecerem, porque depois a vida, depois do estudo, vem o trabalho, vem a família, e nem sempre há tempo. Portanto, acho que enquanto a pessoa está na escola, no liceu, agora não se diz liceu, diz-se escola secundária, mas, na medida do possível, não deve ficar só limitada ao programa das disciplinas, algumas já dão muita cultura geral, mas deve tentar enriquecer-se, valorizar-se para um dia mais tarde ser útil à sociedade.

Que valores do 25 de Abril considera mais urgentes preservar atualmente?

A liberdade, a justiça social, porque acho que a igualdade de oportunidades está muito longe de ser alcançada, a começar pela escola, pela educação. A  solidariedade, porque as pessoas, cada vez mais, são individualistas, há muita falta de empatia, de respeito. São estes valores e toda esta desinformação que existe, que tornam fundamental que também tenhamos espírito crítico, não é? Para salvar os valores que o 25 de Abril nos proporcionou. E ainda há outro problema, o da intolerância, que realmente também me preocupa muito. Só gera ódio, na minha perspetiva, e o ódio gera mais ódio. Acho que é fundamental o amor entre as pessoas, e com amor e com intolerância os problemas resolvem-se. Mas infelizmente, hoje em dia, sobretudo a desinformação, é muito grave, não é?  E eu não tenho praticamente redes sociais, mas pelo que sei, podem ser muito prejudiciais se as pessoas não estiverem atentas.

E pode haver consequências graves para todos nós, portanto há que estar atento.

Considera que os ideais da revolução foram plenamente cumpridos ou ainda estão longe de ser alcançados?

Eu diria que muitas pessoas também acham o mesmo que eu, outras não. Acho que houve muitas conquistas, houve muito progresso em muitos aspetos. Basta pensar no que disse sobre quando estive no colégio, em termos de mentalidade, de liberdade, do relacionamento entre as pessoas. Antes do 25 de abril, houve a reforma do Veiga Simão e realmente já vinha mais gente para as escolas, mais jovens. Porque no meu tempo, quando eu fiz a quarta classe, éramos só quatro meninas. Aliás, como sabem, havia a escola dos meninos e a escola das meninas. Na minha quarta classe eram só quatro meninas. Uma delas era filha do professor primário e, portanto, ia estudar para Lisboa. Eu fui estudar porque era boa aluna e a senhora professora falou com os meus pais, que eram operários. Portanto, ir para um colégio interno não era muito fácil. Mas, felizmente, as coisas melhoraram e eu, depois do colégio, consegui ir também para a universidade em Lisboa. A situação económica dos meus pais também melhorou porque os meus avós tinham um estabelecimento, que foi herdado pela minha mãe. Isso ajudou a que eu pudesse tirar também um curso superior. Senão, à partida, eu tinha pensado em ser professora do primeiro ciclo. Com a reforma do Veiga Simão, já vinham mais crianças estudar. Mas lembro-me, quando estava para tomar posse no liceu de Santarém, junto à secretaria, de vir uma senhora, com quem depois trabalhei, que vinha toda irritada e toda enervada. Havia qualquer coisa que não estava a correr bem, e ela disse “Agora toda a gente vem estudar. É o filho do carpinteiro, do pedreiro, não sei quem.” Porque até ali era uma elite, praticamente, com algumas exceções. Mas era uma elite, e em especial aqui em Santarém, era um ambiente muito especial. Como diria o meu marido, um ambiente marquesal. Quando comecei a dar aulas, tive a oportunidade de ver que as turmas, na altura, eram feitas de acordo com o estrato social. Eu era a única lá que tinha o curso de matemática, portanto, acompanhava sempre a diretora nas suas turmas, e eram sempre turmas especiais. Depois havia a turma dos outros meninos que vinham dessas aldeias espalhadas pelo distrito de Santarém. Também eram muito simpáticos e com quem eu gostei muito também de trabalhar. Mas era o espírito da altura. Felizmente, por exemplo, agora isso não acontece. Mas, por exemplo, houve muito retrocesso do Serviço Nacional de Saúde, na educação, o problema da habitação, que é um direito que todos têm e hoje está impossível, tendo em conta também os ordenados baixos que muitas pessoas têm. 

Portanto, há muito problema para resolver e há a tendência das pessoas culparem o 25 de Abril por todas estas coisas que correm mal. Mas é a tal história de que todos nós temos que nos empenhar, de modo a que, ou pela palavra ou pela ação, as coisas corram melhor, para termos uma melhor saúde, uma melhor escola, direito à habitação, e começa logo pela participação nas eleições, ser maior, ser mais consciente, não haver tanta abstenção.

Os problemas não são só nossos, a nível global, há outros problemas. Isso também tem a ver connosco. Tem consequências para nós.

Que mensagem gostaria de deixar aos jovens que não viveram a revolução?

No fundo, vou voltar um bocadinho àquilo que já disse anteriormente. Penso que é importante estarem bem informados. Terem informação, mas para isso cada vez mais deve-se ter um espírito crítico, uma vez que há muita desinformação. Ter também essa preocupação de se valorizarem.

Por outro lado, sonharem com um país melhor e para isso têm que se envolver numa cidadania mais participativa. Continuarem a sonhar, querer um país melhor. Não pensarmos só na nossa vidinha. Eu sou muito partidária do sonho, ontem ouvi, houve um concerto cá em Santarém, onde cantaram “O sonho comanda a vida” (da música “Pedra Filosofal” de Manuel Freire). Acho que é preciso ter sonhos. Alguns de nós podemos não conseguir concretizá-los, mas pelo menos há um caminho, há um esforço. Devemos sonhar com um Portugal melhor. E o nosso contributo parte do princípio de que temos que ser pessoas bem informadas para encontrar a melhor forma de contribuirmos para uma cidadania mais participativa.

Tendo vivido de perto a Revolução dos Cravos, sente que hoje valorizamos verdadeiramente os direitos e liberdades conquistados nessa altura, ou há um certo esquecimento coletivo?

Muitas pessoas já nasceram num Portugal livre, é um dado adquirido. Portanto, é fundamental conhecer o passado, saber o que era viver em ditadura, saber o que era a falta de liberdade e conhecer os objetivos e ideais do 25 de abril. Não percebo como é que há gente que não gosta do 25 de abril! As coisas, realmente, às vezes correm mal, não é como nós gostaríamos no nosso país. Mas os ideais de todos aqueles que fizeram o 25 de abril não são para esquecer. Gosto muito de lembrar, daqueles que antes do 25 de abril nos deram a sua vida, outros tiveram uma vida difícil, estiveram presos, estiveram no Tarrafal – julgo que li no outro dia que havia uma sala em que a temperatura chegava aos cinquenta graus, uma coisa horrível. Podiam ter tido uma vida simples, uma vida mais fácil, mais cómoda, e fizeram uma opção porque tinham ideais e essas opções saíram-lhes caras. E, portanto, acho que temos o dever para com essa gente e para com todos aqueles que fizeram o 25 de abril de dar o nosso melhor na forma de estar na vida, como profissionais, como pessoas, como elementos de uma comunidade. É relativamente fácil: se as pessoas forem bem formadas, as pessoas respeitam-se umas às outras, são boas profissionais, resolvem os problemas por diálogo. Acho eu… É que eu sou das matemáticas e dois e três são cinco, fica o problema resolvido. O que era bom era ter a consciência de que a liberdade e a democracia não são dados adquiridos, é preciso estar atento. Nós não nos podemos acomodar, em especial nos tempos que correm com estes extremismos e, volto a dizer, com a tal desinformação que há e oportunismos.

O que sente ao presenciar o crescente clima de intolerância e desrespeito na sociedade atual?

Sinto-me muito triste, muito preocupada, desiludida por as coisas estarem a correr assim em determinados aspetos. Há muita falta de empatia e acho que a empatia é fundamental. E, como disse, aquele discurso do ódio… ódio só leva a ódio, acho eu. Portanto, há que mudar a atitude, sermos mais tolerantes. Somos todos seres humanos, há uns “maus” e uns “bons”, mas temos que tentar tornar os “maus” melhores. Talvez seja possível.

Considera que o direito a um envelhecimento digno, com apoio e qualidade de vida, é uma luta pelos direitos humanos no Portugal de hoje?

Na nossa idade, realmente, os idosos muitas vezes são esquecidos, alguns até abandonados, alguns, já tenho ouvido, estão no hospital e não há ninguém que vá tomar conta deles. Todos temos direito a uma vida digna, em particular na velhice. Eu também já sou idosa, vou fazer este mês 83 anos e felizmente sinto-me bem de saúde, mas há pessoas que precisam de ser ajudadas, que vivem sozinhas, com pensões baixas e medicamentos caros… e precisam muito de ser apoiadas e têm direito, porque já trabalharam, já deram a sua vida através da sua profissão e não só. Portanto, devem ter o apoio da sociedade. Acho que já há muita coisa feita, como por exemplo o apoio domiciliário. Diria que o apoio domiciliário é bastante bom, enquanto as pessoas podem estar em casa, acho que é uma coisa de manter e melhorar se possível. Também são necessários os lares, mas quando as pessoas não possam estar em casa de maneira nenhuma. Mas, enquanto pudessem, era bom que tivessem o tal apoio, como já acontece. Sei que, até a Misericórdia e não só, vão a casa das pessoas dar as refeições, dar o banho, limpar a casa,… É uma coisa que antes não acontecia. Também não havia os cuidados continuados, também não havia médico de família. Há alguma coisa diferente, mas há que melhorar tudo. Portanto, acho que a luta por melhores condições na velhice é justa e é urgente, Temos que estar atentos, em especial as pessoas responsáveis que não se podem esquecer das idosas, que já deram o seu melhor e merecem todo o carinho e respeito.

Acha que uma revolução pacífica como a do 25 de Abril seria possível hoje, ou o mundo mudou demasiado?

Eu considero que não, por tudo aquilo que se passa no mundo, porque por tudo e por nada recorre-se logo às armas e à guerra e não ao diálogo. No 25 de abril, as tropas da Escola Prática de Cavalaria enfrentaram muitos problemas, não só no Terreiro do Paço, não só do lado do Cais do Sodré, como do lado oposto, o chamado Campo das Cebolas, como no Rossio, e ainda no Carmo. Enfrentaram problemas difíceis e, felizmente, as tropas tiveram como comandante um capitão que, além de ser um grande ser humano, usou o diálogo para resolver todos os problemas que teve de enfrentar, com a polícia, com a PSP, com a GNR, com companhias que estavam do lado do regime, até no largo do Carmo onde acabou por falar com o então Presidente do Conselho de Ministros, o Professor Marcelo Caetano, tratando-o com dignidade. Alguém escreveu em relação a Salgueiro Maia que as conversações foram a arma de Salgueiro Maia. Se não fosse assim, o 25 de abril não teria sido. Acho que tivemos a sorte daquelas tropas que encontraram muitos problemas pela frente terem uma pessoa muito humana que se preocupou sempre em dialogar e em convencer as pessoas. Inclusivamente, ele era uma pessoa alegre e com muito humor. Também tiveram o apoio do povo que ajudou muito. Houve uma senhora que queria ir fazer limpezas ao Banco de Portugal e ele disse-lhe “Não se preocupe que este dia passa a ser feriado.” E ainda não estava a guerra ganha, mas ele já estava cheio de otimismo porque o Brigadeiro do lado do regime tinha mandado disparar um carro de combate e o alferes e um Cabo recusaram-se a fazê-lo. Se tivessem disparado o 25 de Abril não teria sido o mesmo. E o meu marido disse-me um dia que ou se escondia ou enfrentava o carro, porque ia ser preciso muita coragem para dispararem. Também só me contou depois que se as coisas corressem mal ele tinha uma granada no bolso que faria explodir, e havendo vítimas, a luta continuaria.

Que livro e filme gostaria de recomendar aos nossos leitores?

Um livro seria “Os Memoráveis” de Lídia Jorge, que tem a ver com o movimento do 25 de Abril. Em relação a filme, há um da Maria de Medeiros, “Capitães de Abril”, que é ficção, mas eu gostei. E também há muitos documentários e séries, não só sobre o 25 de Abril, mas sobretudo sobre o Estado Novo que são importantes em especial para os jovens conhecerem com maior rigor o que era o Estado Novo, a censura, a perseguição, a falta de liberdade, nem liberdade quase de pensar nem de sonhar, e conhecerem realmente aquilo que são os ideais do 25 de Abril e sentirem gratidão para com aqueles que nos proporcionaram a liberdade. Também diria uma música do Lopes Graça, “Acordai”, porque acho que precisamos de estar bem despertos e vigilantes em relação ao que se está a passar no mundo.