Matilde Topa
Também incluído no Online exclusive, publicado em Agosto de 2026
Cada vez mais somos deparados com desinformação, opiniões e críticas mal fundadas ditas com toda a segurança do mundo, brain rot e uma incapacidade geral de interpretar materiais cuja mensagem não seja dada de mão beijada ao público. A tal media literacy está, de facto, a morrer, ou seja, a capacidade de compreender, interpretar e usar o pensamento crítico para ir além do óbvio está a desaparecer, principalmente nos jovens.
“A tal media literacy está, de facto, a morrer”
Desde o início da humanidade, a tendência tem sido evoluir de geração em geração, mas, pela primeira vez, a geração Z fica atrás da geração anterior em termos cognitivos segundo estudos recentes. Muitos defendem que os testes cognitivos tradicionais não consideram certas competências essenciais à vida digital que favoreceriam a geração mais jovem mas, mesmo assim, os resultados são alarmantes.
Primeiramente, como todos sabemos, o primeiro culpado é sempre o mesmo: o conteúdo de formato curto. Hoje em dia, é raríssimo conhecer um adolescente que não tenha redes sociais e, cada vez mais, o conteúdo curto já não é exclusivo ao TikTok e está presente em quase todas as plataformas digitais. Enquanto que conteúdo de formato curto, por si só, não é prejudicial, quando este é acompanhado por uma timeline infinita e por um algoritmo desenhado para manter uma pessoa a consumir o máximo de tempo possível torna-se altamente viciante e nocivo para o nosso cérebro. Além do dano à capacidade de concentração, que já afeta a aptidão escolar e, por isso, o futuro dos jovens, este vício pode chegar a reprogramar os nossos cérebros e a mudar completamente a forma como processamos informação, levando a um pensamento mais lento e grandes dificuldades de interpretação.
Para além disso, o crescimento do anti-intelectualismo também pode ser apresentado como causa, substituindo o pensamento crítico e a validação de factos por respostas e soluções fáceis. Como quem justifica um argumento com: “vi um Tiktok sobre isso” ou confia cegamente nas respostas da inteligência artificial, que também se está a tornar numa dependência para os jovens, sem nunca verificar outras fontes.
Por outro lado, este crescimento também se manifesta na rejeição de consumir mídia para além de conteúdos curtos. O cinema, as séries, a música e a literatura estão todas a sofrer com isto. Cada vez mais os estúdios e empresas de produção pressionam artistas para criarem cenas e temporadas mais curtas, planos que sejam fáceis de adaptar para planos verticais, músicas que viralizem rápido, bem como temas e histórias que sejam mais fáceis para o público digerir, para que o conteúdo não seja rejeitado. Por exemplo, a buzzword “performativo”, que começou a ser usada para criticar aqueles que usam o conteúdo que consomem para impressionar os outros, e não por interesse genuíno, transformou-se num rótulo mal empregado para qualquer pessoa que mostre interesse em mídia além do contéudo curto, quer seja mostrar interesse por um filme de três horas ou caminhar com um livro debaixo do braço.
Em Portugal, esta crise é manifestada pelas notas dos alunos nos exames nacionais de português, uma disciplina cujo objetivo é precisamente desenvolver e trabalhar competências como o pensamento crítico e a interpretação dos alunos. Este ano, a média do exame obrigatório da primeira fase foi de 11,4 valores, o que mostra que esta crise na capacidade de interpretação dos jovens é amplificada pela clara dificuldade que o atual plano de estudo de português mostra em envolver e cativar os alunos.
Por fim, é essencial entendermos a importância da media literacy, não só a nível pessoal, mas para a sociedade. A falta dela afeta as artes, a cultura e a educação, criando um efeito bola de neve que parece cada vez mais impossível de parar, afeta a nossa capacidade de nos compreendermos uns aos outros, danificando a nossa empatia, e deixa a nossa sociedade vulnerável a desinformação e manipulação.
Sofia
4 de Setembro
Um artigo muito bem escrito e argumentado! 11,4 valores é um número assustador e talvez piore com a geração Alpha.