Opinião de Francisco Queiroga
Também incluído no Online exclusive, publicado em Setembro de 2025
Ora para quem já estudou alguns aspectos da teoria económica certamente terá presente o conceito da Eficiência de Pareto, mas ao leitor que nunca se deparou com este conceito ou não lhe está presente de momento, recordemos que os “movimentos de Pareto” são a realocação de recursos para melhorar o bem-estar de um agente sem diminuir o mesmo de qualquer outro agente. Podemos, então, nós pressupor, que nem políticos, nem ministros, nem governos, somos, que quando uma figura alega extinguir o Plano Nacional de Leitura (PNL) em prol da “eficiência” saberá certamente de grandiosos benefícios para o bem-estar de todas as crianças portuguesas! Nem armadura usam estes altivos cavaleiros que destroem o monstro mau e assustador da leitura! Olhem ao longe como cavalgam num cavalo pintado de branco (negro foi, antes da fachada) para vir livrar-nos destes monstrengos que só fazem mal ao nosso bem-estar.
Embora o ministério da educação já tenha garantido a continuidade tanto do Plano Nacional de Leitura como da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), ainda não clarificou como é que o irá fazer. Será sempre fascinante o infeliz timing mediático do atual governo, que tantas vezes já segura a solução para aquilo que revolta o povo mas não o anunciam na altura certa, como se estas respostas fossem para meramente tranquilizar marés que agitaram com as próprias mãos, mas é tudo isto meramente especulativo, caro leitor. Certamente estes nossos cavaleiros não erguiam estandarte de vitória sobre o corpo morto de todos os seus soldados fascinando aqueles que ficaram dizendo: “Ah mas como estes cavaleiros sabem o que é bom para nós! Tudo é mais eficaz com eles por cá!”.
Não acredito, caro leitor, que chegámos à utópica realidade Orwelliana em que o governo nos esconde a benece da leitura atrás de um grande portão de ferro negro. Acredito até que tanto o nosso ministro da educação como o nosso caríssimo primeiro-ministro desfrutarão de momentos de leitura nos momentos vagos, entre o vestir e o despir da armadura de cavaleiros, mas terei que dizer que o volume de “Casinos para Totós: Como apostar como um profissional”, Senhor Primeiro Ministro, deve ser brevemente entregue à biblioteca da Solverde, tendo em conta que já passa do prazo.
“Pensemos naquelas mentes que fervem com a imaginação sinónima à infância”
Mas não nos preocuparemos mais com os hábitos de leitura de quem já é crescido e sabe bem o que gosta de ler, pensemos naqueles que ainda não tiveram esse primeiro contacto. Pensemos naquelas mentes que fervem com a imaginação sinónima à infância e que procuram tanto a aventura e o fantástico que brincam com estes aspetos como se lhes dessem vida. Devemos deixar de alimentar estes monstrinhos de curiosidade só porque, hoje em dia, tanta coisa há que lhes rouba a atenção com mais facilidade? Devemos mesmo nem sequer tentar abrir esta janela para tantos outros mundos e ideias só porque para alguns esta não parece tão fascinante de início? Volto a reiterar que não acredito que seja o desejo deste governo começar a censurar obras e afastar as crianças do conhecimento (embora o facto de poder ser interpretado como tal diga muita coisa), mas decidir demolir dois projetos que tentavam ao máximo educar e formar as próximas gerações com a maior variedade de títulos possível com promessas apressadas de os reestruturar numa data futura assusta-me e entristece-me, caro leitor.
Tive a sorte de ter uma figura que sempre me incitou à leitura, uma avó que ainda hoje lê o que escrevo e questiona o que leio, que desde pequeno me levou quase diariamente à minha biblioteca municipal. Sempre os dois perdidos nos mares de livros que se encontravam à distância de um mero toque, mundos e ideias à minha disposição, mesmo quando ainda não sabia juntar todas as letras ouvia as histórias de monstros e cavaleiros. Monstros e cavaleiros que, caro leitor, não se devem confundir com aqueles que falámos anteriormente, estes eram mais puros, os monstros eram claramente maus e os cavaleiros cavalgavam em cavalos verdadeiramente brancos como a neve. Maria Tibéria, que muitas histórias me contou e tantas outras já ouviu contar quando conquistei esse grandioso marco de saber juntar grande parte das letras, (certamente lerá este artigo com os óculos bem encostados aos olhos na sua folha A4, impressa especialmente para si) vou perguntar aos senhores e senhoras que querem tirar a jovens que não tiveram a sorte de ter uma rainha das bibliotecas, como eu, a oportunidade de chegar a estes cantos do mundo escondidos em páginas se querem que, se assim for oportuno, se faça uma cadeira ao lado de todos os outros ministros para enviarmos Maria Tibéria, natural de Cuba do Alentejo, para incitar esses senhores e senhoras a não se esquecerem de que as crianças, todas elas, merecem este mundo.
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