Opinião de Ana Sofia Nogueira
Artigo exclusivo do site, publicado em Agosto de 2026
Debate-se bastante, e bem, a falta de mulheres nos cargos de topo, mas raramente paramos para olhar para a base e questionar a ausência masculina no voluntariado, no cuidado e na interajuda.
Da última vez que me inscrevi num projeto com vista a ajudar a comunidade, deparei-me com apenas 3 homens no meio de um grupo de cerca de 20 pessoas, e questionei-me do porquê daquilo. Porque é que as mulheres parecem estar mais dispostas a ajudar? E não apenas quando solicitado, mas sim a inerente vontade de o fazer.
Em tempos, achei que isto fosse simplesmente da nossa natureza. Mas na realidade, a resposta está num processo que começa muito cedo na nossa vida, e que resulta da combinação de vários agentes que moldam a nossa identidade de género. Por exemplo, enquanto os rapazes recebem brinquedos como kits de construção e super-heróis, coisas que remetem para a resolução de problemas e para o individualismo, nós somos mais frequentemente expostas a coisas que simulam o cuidado, como bonecas, cozinhas ou kits médicos.
Somos ensinadas, desde cedo a cuidar e a servir outros, algo que se reflete no nosso dia a dia, na faculdade e, mais tarde, no trabalho. De forma quase invisível, acabamos sempre a assumir o trabalho emocional. Num trabalho de grupo, somos responsáveis pela organização e por apaziguar conflitos. Ou até nas coisas mais simples, como planear a prenda de amigos. De certa forma, a sociedade exige-nos essa empatia. Tal como se verifica no double standard, em que, se um homem focar toda a sua energia apenas nos seus estudos ou trabalho, a sua dedicação é elogiada. Se uma mulher ousar fazer exatamente o mesmo, é rapidamente rotulada de egoísta e questionada por abandonar o caminho expectável.
E aqui reside o paradoxo. A mesma empatia que nos é incutida desde cedo, passa a ser usada contra nós, noutros contextos, como para questionar a capacidade política das mulheres. Com base no argumento de sermos “mais empáticas”, surgem nos Estados Unidos campanhas que sugerem a revogação do direito das mulheres ao voto. O que parece racionalmente contraproducente, pois não seria exatamente esse o perfil a procurar? O risco de tratar a solidariedade como uma falha é real, e este argumento poderá não tardar a chegar a Portugal, podendo até transformar-se em algo universal.
No fundo, o problema não está no facto das mulheres serem a maioria em causas sociais, pois a capacidade de cuidar e ajudar é uma força, não um defeito. O erro está em continuarmos a aceitar uma estrutura social que nos obriga a carregar esse fardo emocional sozinhas para depois o desvalorizar, em vez de encararmos o cuidado como uma responsabilidade de todos.
Sofia
4 de Setembro
É realmente muito esquisito querer ajudar as pessoas e saber que de certa forma fui “programada” para tal! O homem “dedicado” e a mulher “egoísta” é infelizmente uma coisa que se encontra muito (especialmente no discourse sobre celebridades)