Em criança, entretínhamo-nos sobretudo a desenhar e a brincar. Quando não podíamos fazer isso, recorríamos a dispositivos, como a televisão ou o telemóvel, para nos entreter. Hoje, a minha geração procura incessantemente o contrário: formas de se distrair do telemóvel. Pegamos nele para relaxar e acabamos ainda mais cansados, depois de dar scroll a piadas, dicas e factos que vimos durante uns segundos e dos quais provavelmente nunca mais nos vamos lembrar.
E isto não é um artigo sobre como estamos viciados no telemóvel e como a nossa capacidade de atenção está cada vez mais reduzida. Mas sim sobre outra coisa que podemos estar a perder pelo caminho: a capacidade de estar aborrecidos e, com ela, o espaço para criar.
Voltando ao ponto inicial, muitos de nós, quando éramos mais novos, conseguíamos estar facilmente ocupados com coisas criativas. Até uma tarde de chuva nos obrigava a imaginar todo um universo na sala de estar.  E talvez o ponto esteja precisamente aqui: é no aborrecimento que a criatividade encontra espaço para nascer. É numa mente “vazia”, sem estímulo constante, que cresce espaço para criar e refletir. Por isso, a vontade de o fazer surgia naturalmente. Agora, com a mente enfartada pelos vídeos que vemos mexendo apenas a ponta do polegar, não sobra iniciativa para fazer algo que, à partida, não nos fornece a mesma dopamina imediata. 

Acabamos sempre a preencher cada segundo de espera. Estamos na fila? Telemóvel. Semáforo vermelho? Telemóvel. Temos horror ao aborrecimento, e com isso levamos a criatividade de arrasto. E podemos pensar nesta como um músculo: sem ser utilizada, torna-se cada vez mais difícil usá-la. Quando chegamos ao ponto de nos apercebermos do quão triste é esta situação, começamos a procurar alternativas. E é isso que se tem verificado ao viralizarem hobbies como pintar Bobbie Goods, resolver Murdoku, fazer crochet, etc. O que é ótimo. Mas o quão irónico é procurarmos online o nosso passatempo offline? 

“Mas o quão irónico é procurarmos online o nosso passatempo offline?”

Há ainda outro problema. Enquanto jovens, especialmente num ambiente académico, existe uma certa pressão para rentabilizar tudo. Se gostas de fotografar, dizem-te para abrir uma página profissional. Se gostas de pintar, sugerem que vendas. Esta mentalidade de transformar qualquer passatempo num side-hustle ou em conteúdo para as redes sociais pode, a longo prazo, contribuir para retirar aquilo que tornava a atividade prazerosa: o facto de “não servir para nada”.
Nem tudo precisa de ser produtivo ou resultar numa competência que possamos acrescentar ao currículo. Existe também valor em permitirmo-nos ser principiantes, sermos “maus” a fazer alguma coisa. Pintar um desenho que fica torto. Tocar uma música mal. Criar qualquer coisa sem a preocupação de que alguém a veja. Existir a liberdade em fazer algo simplesmente pelo prazer do processo, e não pelo resultado.
A criatividade precisa, mais do que de inspiração, de espaço para existir. E quando preenchemos todos os segundos de espera, o cérebro não tem tempo para ter ideias próprias. Agendar momentos para “brincar” aos 20 e poucos anos parece absurdo, mas talvez seja a solução. Pois não fazer nada pode parecer perda de tempo, mas talvez seja nesse tempo que alguma coisa começa a acontecer.