Conduzida por Mariana Loureiro
Também incluída no FEPIANO 70, publicado em Outubro de 2026
A Dra. Helena Val possui licenciatura pré-Bolonha em Psicologia pela FPCEUP e Pós-Graduação em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade do Minho. Ao longo do seu percurso profissional, exerceu funções como psicóloga em contexto escolar, como formadora e em intervenção comunitária, na Associação Vida Norte, dedicada ao acompanhamento psicossocial e gestão de projetos de empregabilidade. Atualmente, exerce funções como psicóloga na FEP e na ID Clinics, onde desenvolve intervenção nas áreas da Psicologia Clínica e de Gestão de Carreira.
A Dra. Telma Castro possui o mestrado integrado em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Ao longo do seu percurso profissional, esteve ligada à Fundação AMI e ao Projeto Grupos de Vida Social e Apoiada, trabalhando com pessoas com deficiência ou incapacidade intelectual e adaptativa. Desenvolve também atividade na área clínica, com principal foco no diagnóstico de PHDA. Atualmente, exerce funções na FEP, no Serviço de Desenvolvimento e Carreira.
O que vos fez perceber que queriam seguir Psicologia?
Helena: Desde que me conheço, fui sempre uma pessoa muito conciliadora, moderadora e boa ouvinte, tanto no contexto familiar como entre amigos. Tive também uma referência muito próxima: o meu pai foi um dos primeiros licenciados em Psicologia em Portugal, pelo ISPA. Cresci rodeada de livros de Psicologia, que me fascinavam, embora também tivesse presente a ideia de que era uma área profissional difícil. Isso levou o meu pai a mudar de percurso e a dedicar-se à gestão.
No 9.º ano, o processo de orientação vocacional indicou-me a Psicologia, mas não me sentia direcionada para essa saída profissional. Foi no 12.º ano, quando tive contacto com o programa da disciplina, que fiquei completamente rendida. Percebi que era uma área que me permitiria trabalhar com pessoas, compreender as suas dificuldades e acompanhá-las ao longo das diferentes fases da vida.
Telma: Do meu lado, fui sempre alguém que gostava de muitas coisas ao mesmo tempo, por isso a decisão foi-se construindo com o tempo. Candidatei-me ao ensino superior no último dia, nas últimas horas! Tinha interesses sobretudo ligados à ciência e à saúde e não sabia se seguiria Psicologia ou Medicina.
O que me fez escolher Psicologia foi perceber aquilo que mais valorizava no meu tempo: as pessoas. O compreender, a presença e, acima de tudo, o gosto por fazer com que alguém se sinta visto e compreendido. Entre tantas áreas da saúde que me poderiam interessar, senti que era na Psicologia que conseguia dedicar esse tempo às pessoas. Foi uma escolha que, até hoje, sinto ter sido acertada.
Ambas fazem parte da equipa do Serviço de Desenvolvimento e Carreira da FEP. O que vos motivou a fazer parte de uma equipa tão ligada a ajudar os estudantes ao longo dos seus estudos?
Telma: Antes de chegar à faculdade, uma das experiências profissionais mais marcantes foi na AMI, uma organização que trabalha com populações vulneráveis e em diferentes fases da vida. Acompanhei pessoas dos 3 aos 80 anos, sobretudo adultos mais velhos. Muitas vezes encontrava pessoas com vontade de mudar, mas pensava que, se tivessem tido acesso mais cedo a um acompanhamento psicológico, talvez as suas vidas pudessem ter sido diferentes.
É isso que me cativa na intervenção no Ensino Superior: podermos acompanhar uma fase muito importante do desenvolvimento humano, entre o final da adolescência e o início da vida adulta, marcada por tantas mudanças. Permite-nos fazer uma intervenção não apenas remediativa, mas também preventiva.
Não podemos mudar a vida de alguém, mas podemos criar condições para que essa pessoa se conheça desde cedo. A entrada na faculdade traz responsabilidade, medos e dúvidas e é uma altura em que começamos a ganhar maior consciência de nós próprios. Gosto de pensar que podemos ser uma espécie de rede de segurança: permitir que o estudante salte, experimente e cresça, sabendo que existe uma rede que o ampara.
Há também algo agridoce neste trabalho. Podemos acompanhar uma pessoa durante os anos em que está na faculdade, mas chega o momento em que esse acompanhamento termina. Fica a vontade de continuar a acompanhar aquela história. Ao mesmo tempo, o objetivo é precisamente esse: que, durante esse período, a pessoa desenvolva competências suficientes para seguir o seu caminho, reconhecer os seus valores e viver a vida que vem depois da universidade.
Helena: No meu caso, esta ligação à FEP começou em 2005/2006, durante o quinto ano da licenciatura, quando tive a oportunidade de fazer aqui o meu estágio curricular, na altura no SIAP – Secção de Integração Académica e Profissional. Era uma área que eu não conhecia, mas que me mostrou uma intervenção muito diversificada e extremamente promotora do desenvolvimento de competências profissionais. Em 2013, tive oportunidade de regressar para uma colaboração temporária, na área do aconselhamento de carreira. A FEP acabou por acompanhar o meu percurso profissional desde o estágio curricular até 2023, quando surgiu a oportunidade de regressar e de integrar a equipa do Serviço de Desenvolvimento e Carreira.
Para além da diversidade da intervenção, há algo que me atrai particularmente: acompanhamos pessoas em fases muito diferentes: licenciatura, mestrado, doutoramento, transições profissionais e pessoais. Aprendemos imenso com quem nos procura, levando-nos a constante atualização de conhecimentos e a novas formas de intervenção.
Sinto ainda um enorme privilégio por trabalhar numa equipa com um ambiente de entreajuda, criatividade e espaço para propor projetos. É um contexto que nos permite crescer enquanto profissionais contribuindo, em simultâneo, para o crescimento dos estudantes.
Podem revelar-nos um caso que vos tenha ficado particularmente na memória ou que vos tenha impactado e desafiado, sem revelar qualquer informação sobre a pessoa?
Helena: Vou recordar um dos primeiros casos que acompanhei na FEP. Era uma estudante já com cerca de 30 anos, numa licenciatura com muitas matrículas, que tinha interrompido o curso para trabalhar. Queria regressar e terminar, mas estava muito desmotivada. Já tinha perdido a referência dos colegas que tinham entrado consigo e a autoestima estava bastante fragilizada, apesar de ser uma pessoa com muitas capacidades.
Havia uma contradição difícil de integrar: “Como é que sou tão capaz em determinadas áreas e, neste momento, não estou a conseguir terminar?”. Foi muito gratificante trabalhar a motivação e ajudá-la a recuperar a confiança.
Depois desse acompanhamento, conseguiu terminar o curso, prosseguiu os estudos e integrou profissionalmente uma área relacionada com a sua formação. Marcaram-me as palavras no final do processo, ao referir que o acompanhamento tinha sido importante porque lhe tinha permitido “receber asas para poder voar”.
É precisamente aí que sinto a importância do nosso trabalho. Às vezes, a diferença pode estar entre desistir e ficar com a marca de “eu não consegui” ou encontrar apoio para dar a volta e descobrir que somos capazes de nos superar. E estamos sempre a tempo.
Telma: Eu prefiro não escolher um caso, porque sinto que todas as pessoas que tive o privilégio de acompanhar deixam algo. O que fica é sobretudo carinho e orgulho. A pessoa que entra naquele gabinete ou numa consulta online não é exatamente a mesma que sai.
Muitas vezes, a própria pessoa não se apercebe imediatamente da mudança que aconteceu. E há algo muito bonito nessa transformação. Muitas chegam com a ideia de que são as únicas a passar por aquilo, ou com perguntas como “não sei o que vou fazer com a minha vida” ou “não sei o que quero”.
Existe uma procura muito grande por respostas. Mas, na Psicologia, a mudança acontece quando conseguimos deixar de olhar apenas para o resultado e começamos a olhar para o processo. Não saímos de uma consulta com a “vida resolvida”. Vamos encontrando camadas: medo de falhar, pressão para tomar a decisão certa, necessidade de corresponder, medo de ficar para trás.
Não conseguimos saber, no momento em que fazemos uma escolha, se ela será certa ou errada. É o processo que vai dar sentido a essa escolha. E isso exige mergulharmos dentro de nós para percebermos quem somos, de que ferramentas dispomos e o que realmente queremos.
Muitos estudantes chegam à faculdade com uma pressão enorme para terem boas médias, construírem um currículo e aproveitarem todas as oportunidades. Mas somos muito mais do que aquilo que nos trouxe até aqui.
E há ainda uma dimensão que não podemos ignorar: chegam-nos estudantes muito jovens já com sofrimento psicológico significativo, por vezes com ideação suicida. É importante dizer claramente: não estão sozinhos. A ajuda pode começar simplesmente por falar, por encaminhar alguém ou por permitir-nos a nós próprios procurar apoio.
Às vezes, mesmo quando não sabemos o que dizer, podemos fazer a diferença ao reencaminhar alguém para quem sabe. É uma das partes mais fascinantes da profissão: alguém confiar em nós o suficiente para nos deixar entrar no seu mundo.
Enquanto psicólogas que trabalham num ambiente académico, quais consideram ser os pontos mais positivos e os mais negativos da faculdade para a saúde mental dos estudantes? E como podemos combater os negativos e potenciar os positivos?
Telma: A faculdade é um terreno fértil para muitas experiências, positivas e desafiantes. Pode ajudar-nos a construir um sentido de pertença, a perceber quem somos e com que pessoas nos identificamos. É também uma altura em que começamos a experimentar diferentes versões de nós próprios. Deixamos de ser apenas “filho”, “amigo” ou “aluno” e começamos a assumir diferentes papéis.
É uma fase muito rica para a descoberta da identidade, mas também nos torna mais conscientes das nossas vulnerabilidades. Entramos num contexto de comparação, pressão por resultados, construção de currículo e muitas oportunidades. E surge uma pergunta constante: “O que é que eu quero fazer?”.
Existe ainda a ideia de que temos de terminar a licenciatura em três anos e, nesse momento, já saber exatamente o que queremos para a nossa vida. Como se aquele fosse o último momento em que podemos decidir. Mas o último dia da faculdade deve ser apenas o primeiro dia de muitos outros capítulos. A faculdade pode ensinar-nos a recomeçar.
Precisamos de criar ambientes onde pedir ajuda não seja sinónimo de falhar. Precisamos de espaços de pausa, de cultura e de reflexão, onde seja possível dizer “não estou bem” sem vergonha. Não se trata de retirar exigência à experiência académica, mas de não confundir exigência com a obrigação de estarmos bem o tempo todo.
A faculdade deve ser um espaço onde possamos viver desafios e emoções e, ainda assim, sentir que pertencemos. É importante estarmos atentos aos silêncios e às vozes que podem ficar pelo caminho.
Helena: Acrescentaria que existe aqui um contexto muito particular. Há uma enorme oferta de atividades e oportunidades, o que é fantástico, mas também pode gerar desorientação e pressão. Nem toda a gente se integra rapidamente ou consegue permanecer em todas as atividades a que se propõe, o que não significa que tenha falhado.
A transição para o Ensino Superior exige uma adaptação muito específica. No Ensino Secundário existe mais acompanhamento e previsibilidade, há uma liberdade de escolha muito maior. Ter 18 anos não significa estar automaticamente preparado para tomar todas as decisões.
Também precisamos de sair da nossa perspetiva individual e olhar para o colega que está ao nosso lado. Temos tido situações em que colegas encaminham outros estudantes para o Serviço, mesmo quando existe resistência inicial. Às vezes, basta alguém importar-se para fazer a diferença.
Há ainda um aspeto muito positivo na FEP: o forte sentido de pertença dos antigos alunos. A ligação entre gerações, através dos Alumni e dos Fepianos pelo Mundo, cria oportunidades de aprendizagem e orientação que podem ser muito ricas.
Gosto de recordar uma frase que ouvi de um dos professores fundadores da minha licenciatura: o término da licenciatura é apenas uma licença para aprender. Não temos de sair daqui a saber fazer tudo. O nosso percurso pode ser em “ziguezague”, temos múltiplas vocações ao longo da vida e precisamos de nos expor às experiências para as descobrir.
Vivemos numa era caracterizada pelo excesso de informação e pela pressão para a acompanhar. Que impacto pode esta exposição constante ter no nosso bem-estar psicológico?
Telma: O grande desafio não é apenas a quantidade de informação. É a ideia de que temos de estar permanentemente disponíveis para a receber, responder e produzir.
Tomamos decisões constantemente, desde escolhas profissionais até às coisas mais pequenas do quotidiano. Estamos sempre a ser estimulados para dar uma resposta e isso cria um ruído mental permanente.
A comparação acrescenta outra camada. Sempre existiu, mas hoje temos acesso contínuo a versões selecionadas da vida dos outros. Precisamos de perguntar: esta pressão que estou a colocar em mim é realista ou está a ser construída a partir daquilo que vejo nos outros?
Não conseguimos controlar toda a informação que chega até nós, mas podemos escolher aquilo a que damos espaço. Precisamos de criar filtros: esta informação inspira-me ou alimenta as minhas inseguranças? Faz-me sentir maior ou faz-me duvidar de quem sou?
Fazer pausas é essencial. É no descanso que conseguimos recuperar lucidez e voltar a olhar para aquilo que nos está a acontecer com alguma distância.
Helena: A comparação é, de facto, um dos riscos que encontramos frequentemente no acompanhamento individual. Precisamos de estar atentos para que determinadas crenças não se tornem demasiado enraizadas.
Há também efeitos concretos do excesso de digitalização, nomeadamente no sono. Muitas pessoas adormecem e acordam com o telemóvel ao lado. Se estamos constantemente ligados, o cérebro tem dificuldade em desligar.
Precisamos de uma utilização mais intencional da tecnologia. Podemos até ser “influencers” de nós próprios e das pessoas à nossa volta: experimentar mudanças pequenas e perceber os seus efeitos: “Deixei o telemóvel longe da cama e acordei mais descansada.” São pequenas experiências que nos ajudam a perceber o impacto real dos nossos hábitos.
Os telemóveis fazem parte da nossa vida e são extremamente úteis. A questão é perceber o que a sua utilização está a fazer ao nosso bem-estar e se estamos nós a escolher a forma como os usamos ou se estamos simplesmente a reagir aos seus estímulos.
Que mensagem gostariam de deixar aos nossos leitores e, principalmente, aos estudantes da FEP?
Telma: Não precisam de ter a vida toda resolvida na faculdade. E não transformem esta fase, tão bonita e cheia de possibilidades, numa prova permanente para medir o vosso valor.
Podem mudar de ideias. Podem escolher outra vez. Não têm de viver uma vida que outras pessoas escolheram por vocês. É válido seguir determinado caminho porque, naquele momento, parece fazer sentido, mas também é importante estar disponível para os caminhos que ainda não conhecemos.
Quando nos sentimos perdidos, podemos procurar ajuda para encontrar uma direção. Porque, mais importante do que não nos perdermos no caminho, é não nos perdermos de nós próprios.
A faculdade faz parte da nossa história, mas não precisa de ser a medida da nossa história. Não tem de ser necessariamente “os melhores anos da nossa vida”. Espero que sejam anos muito bons, mas espero sobretudo que a vida seja muito maior do que aquilo que acontece aqui.
Estejam disponíveis para sonhar. Sobretudo para sonhar sonhos que ainda nem sabem que têm.
Helena: Reforçaria a importância das expectativas. Ao longo de três, cinco ou mais anos, a pessoa que entra na faculdade não é a mesma que termina. Há experiências, relações, aprendizagens e mudanças pelo caminho.
Nem tudo é definitivo. Há sempre possibilidade de reparar, reconstruir e comunicar de outra forma. Saber comunicar não é apenas saber fazer um “pitch” para uma empresa ou uma apresentação. É saber comunicar connosco próprios, reconhecer o nosso estado emocional e perceber também o estado emocional de quem está do outro lado.
Quando não estamos a conseguir fazer sozinhos, podemos pedir ajuda. Pode ser ao SDC, a um colega, a um professor ou a alguém da família. O importante é não deixar de sinalizar aquilo que está a acontecer e não viver sozinho as vulnerabilidades que podem surgir nesta fase.
Numa vertente mais cultural, que filme e que livro recomendariam aos estudantes da FEP?
Telma: Em termos de filme, sugeriria Soul. Nesta fase da vida estamos muitas vezes à procura da “grande coisa”: o nosso propósito, a carreira certa, a melhor oportunidade, mas passamos por inúmeras pequenas grandes decisões todos os dias.
O filme ajuda-nos a olhar para a beleza do quotidiano. Numa fase de tanta mudança, precisamos de nos agarrar também às coisas que estão ao nosso alcance e reparar naquilo que, por vezes, parece pequeno, mas é enorme.
Como livro, escolheria A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown. Acho que, nesta fase da vida, é importante termos coragem para olhar de frente para quem somos e lutar contra a ideia de perfeição. Somos humanos e permitirmo-nos ser imperfeitos é também um ato de coragem.
Helena: Também pensei imediatamente em A Coragem de Ser Imperfeito, até porque está muito alinhado com o tema do Mês da Saúde e do Bem-Estar e com a ideia de olhar para aquilo que está para além do visível.
No que se refere ao filme, escolheria O Bom Rebelde(Good Will Hunting). É um filme que nos permite refletir sobre a diversidade das histórias de vida e sobre os diferentes pontos de partida com que cada estudante chega à universidade.
As condições de partida podem facilitar ou dificultar o percurso, mas não têm necessariamente de determinar aquilo que vem depois. Podemos fazer as pazes com histórias de vida mais difíceis e, com ajuda, reparar algumas dessas experiências.
É também um filme que traz a figura do psicólogo e mostra a importância da relação terapêutica. Acaba por ser um bom mote para pensar na criatividade, nas oportunidades e na possibilidade de transformar aquilo que recebemos em algo novo.
Talvez seja essa a melhor forma de terminar: a universidade não precisa de ser um lugar onde temos de chegar já sabendo quem somos, pode ser precisamente o lugar onde começamos a descobrir quem podemos ser.
Telma: E talvez seja isso que temos de levar connosco: não precisamos de ter todas as respostas para começar. Precisamos apenas de continuar disponíveis para nos conhecermos, para pedir ajuda quando for necessário e para reconhecer que ainda há muito por descobrir.







