Alícia Andrade
Também incluído no FEPIANO 70, publicado em Outubro de 2026
O nosso quotidiano é marcado pela exposição a quantidades exorbitantes de informação. Ao acordar, o primeiro passo é verificar notificações; durante o dia, há uma espera incessante pelo tilintar de uma mensagem; e é imperdoável ir dormir sem abrir o telemóvel e confirmar se tudo ficou em dia.
Há uma pressão constante para “saber”, para estar informado, estar a par de tudo o que se passa, de todas as notícias; uma pressão para ser produtivo: nas vinte e quatro horas diárias cada minuto conta, cada segundo é precioso, não há distinção entre o trabalho e o lazer, mesmo os hobbies são meticulosamente definidos para atender uma certa expectativa de utilidade, não são apenas uma forma de relaxar, necessitam de ser proveitosos, têm o tempo contado para cumprir o seu objetivo. Até o sono já faz parte deste ciclo de produtividade.
Tudo isto culmina numa sobrecarga de informação, excessiva para a nossa capacidade mental e, como forma de “escapar” a este cansaço mental, acabamos por escolher o caminho mais fácil, a solução mais próxima: vídeos curtos. Nesta “Era da Informação”, aplicações como o Instagram e o TikTok são frequentemente utilizadas como “refúgio”, como forma de “descanso”. Ora, estes vídeos, que saltam de tema para tema num tempo curtíssimo, são apenas mais uma forma de prolongar o estado de estímulo do qual procurávamos escapar. O nosso cérebro está permanentemente a processar alguma coisa, sem um minuto de descanso.
Se o problema central é o excesso de estímulos, será que precisamos de mais uma atividade para ocupar esse tempo, recurso tão escasso nos dias atuais? Diria que o que verdadeiramente importa é a forma como percecionamos essas atividades, a nossa atitude perante esta pressão em prol de um maior bem-estar.
Deixar-nos levar por esta maré de informação e ser “consumidos” no processo com certeza não é a solução. Depois de perceber o problema, falta então colocar um travão. Primeiramente, é necessário fazer uma distinção entre o trabalho, a produtividade e o tempo que serve realmente para relaxar, sem os confundir. Não é contando os minutos a que temos direito para descansar, é saber permitir-se aproveitá-lo; é preciso que nos deixemos levar por aquilo que gostamos de fazer, e não fazê-lo como mais uma obrigação.
Realizado então este primeiro passo, mudando a perceção e a atitude perante estas atividades, falta então escolhê-la. Vou mencionar aquela que mais me apraz e que é, no meu entendimento, a mais eficaz: a leitura. A minha escolha é simples: é, como mencionei, a atividade que mais aprecio, e os motivos de assim o ser são também os motivos pelos quais esta é a resposta ao nosso problema inicial.
“O livro obriga-nos a permanecer.”
Não há um algoritmo a decidir qual será o próximo estímulo, não há necessidade de resposta imediata. Sem notificações, sem pressas, apenas o usufruir daquele momento. Este momento não se resume apenas à leitura, passa também por parar e refletir, por sentir aquela frase, por entender o significado por detrás de uma palavra, pelo comprometimento com o esforço para entender, para apreciar e, ao mesmo tempo, sem comprometimento nenhum. Porque a importância está precisamente na ausência de importância, na ausência de comprometimento, de obrigação. Somos nós que decidimos, desde que nos deixemos levar, desde que usemos aquele tempo para descomprimir, ou para nos deixar mais inquietos, se assim nos aprouver.
É preciso ter em vista que a leitura não surge aqui como mais uma forma de nos pressionar a ser produtivos, ou de fazer com que o nosso tempo seja algo rentável. O objetivo não é transformar a leitura em mais uma tarefa, nem criar metas como “tenho que ler clássicos” ou “tenho que ler 12 livros por ano”. A leitura só funcionará como refúgio desta “Era da Pressa” se não for contaminada pela lógica da produtividade.
Para aqueles que argumentam que a leitura é chata, responderia apenas que o que não falta são livros, das mais diferentes categorias, e tenho a certeza de que, depois de encontrar o livro certo, também encontrarão na leitura uma atividade que possam apreciar. Além disso, o gosto literário é algo que se desenvolve. Mesmo que o livro seja “chato”, talvez aí esteja também uma solução para o nosso problema: não há nada como o aborrecimento para desestimular a mente. Na verdade, é precisamente a falta de aborrecimento, a sucessiva procura por algo que nos possa entreter, de forma rápida, que nos fez chegar ao estado em que nos encontramos.
Isto é visível em vários momentos do nosso dia-a-dia: quem nunca esteve numa viagem longa de autocarro e, em vez de se deixar ficar a pensar, refletir ou apenas apreciar a paisagem, pegou no telemóvel porque era o caminho mais fácil para a distração? Ou então, enquanto comemos sozinhos, ligamos a televisão para ver uma série; até mesmo na caminhada habitual para o trabalho ou para a faculdade, decidimos ouvir música ou até mesmo aproveitar esse tempo livre para ouvir um podcast e nos mantermos atualizados.
“ Já não existem momentos de silêncio, já não se sente o vazio. “
É necessário reconhecer que a tecnologia, e, em específico, a difusão da informação e os meios que a tornam possível, como as redes sociais, são, tal como o foram outras revoluções científicas, mais uma forma de evolução. Mas acredito que temos o poder de escolher o que fazer com esta evolução: aproveitá-la para melhorar as nossas vidas, ou deixar que se torne destrutiva. Não defendo que a devemos abandonar, mas acredito que é importante recuperar a capacidade de escolher. A tecnologia surgiu como forma de nos ajudar, não para nos tornarmos seus subordinados.
Para aqueles que querem refletir mais sobre este assunto, sugiro um livro: “O Silêncio na Era do Ruído” de Erling Kagge. Mas, por favor, não o adicionem à vossa to-do list nem façam desta leitura uma tarefa. Em vez disso, num pequeno momento de pausa, quando surgir a ânsia de pegar outra vez no telemóvel, ou realizar qualquer outra atividade com o único propósito de não pensar, de não ficar aborrecido, leiam um capítulo. É um livro pequeno, de capítulos curtos, mas cheio de pequenas (ou grandes) reflexões sobre a importância do silêncio num mundo que nos sufoca com estímulos constantes. Numa viagem pessoal, o autor reflete sobre os locais e os momentos onde este silêncio pode ser encontrado. E não o leiam de uma vez. Não este livro. Façam pausas e reflitam. Tenho a certeza de que se vão encontrar nas suas palavras.

Fonte: Anton Ryazanov | Unsplash
Sê o primeiro a comentar