Opinião de Ana Vilaça
Artigo exclusivo do site, publicado em Maio de 2026
Um Reality Show é uma categoria de programa de televisão cada vez mais consumido, tanto a nível nacional como a nível internacional. O primeiro reality show, como hoje é definido, foi An American Family transmitido em 1973. Ou seja, um programa que documenta ocorrências do dia-a-dia, dependentes do ambiente em que estão inseridos. No entanto, este formato ganhou popularidade com a estreia de programas como o Survivor ou o Big Brother, desde o início deste século.
Os formatos mais comuns recorrentes podem ser divididos em 4 categorias, por si só flexíveis. A primeira é a da “sobrevivência”, como o Survivor. Uma equipa de produção seleciona um grupo de pessoas que são colocadas num lugar remoto com poucos ou até nenhuns recursos. O entretenimento consiste em ver as estratégias que os concorrentes arranjam para sobreviver e as relações criadas neste ambiente com as emoções ampliadas.
A segunda é a “vigilância sobre o isolamento”, como o Big Brother. Aqui, uma equipa de produção procura propositadamente duas dezenas de pessoas “frontais” e “pró-conflito” e trancam-nas numa casa, isolados do mundo exterior, com o objetivo de visualizar discussões e relações, amorosas e de amizade, a desenvolver-se.
A terceira categoria corresponde ao caso de “solteiros à procura de amor”, como The Bachelor ou Love Is Blind. Neste formato, uma panóplia de pessoas solteiras, com o objetivo de encontrar o amor, são colocadas num ambiente específico, dependendo do reality show visualizado.
Por último, “lifestyle/emprego”, como Keeping Up with the Kardashians e Sunset. Com estes programas, o entretenimento resume-se à exploração de estilos de vida diferentes da maioria da sociedade, explorando a curiosidade da população que vê este tipo de programas em saber como os “1%” vivem (uma vez que este tipo de series revolvem à volta de pessoas com elevados networths).
Como espectadora de alguns reality shows, principalmente do “Vigilância sobre o Isolamento”, tenho por hábito comentar com as pessoas à minha volta o que ocorre dentro das Casas. Os grandes temas que acabam por ser discutidos, até por pessoas que não consomem este tipo de conteúdo, são fenómenos observados na sociedade, independentemente de classe social, raça, sexualidade, entre outros fatores. Por exemplo, no “Secret Story 10” ocorreu um grande escândalo, que atingiu notícias internacionais. Resumidamente, um casal, Eva e Diogo, entraram na casa com segredos separados sobre serem um casal. Antes da sua estada lá, combinaram uma estratégia para despistar quaisquer suspeitas. O Diogo iria fingir interesse noutra rapariga, a Ariana. No entanto, a “estratégia” foi levada longe demais e a Eva acabou por ser traída em televisão nacional. Este tema foi publicitado nas redes sociais, nas notícias, nos jornais, em todo o lado. Para além de se falar sobre a situação específica, amplificou a conversa sobre o tópico das traições em relacionamentos amorosos. Este é um dos exemplos que relata um acontecimento que quebra a bolha dos espectadores do reality. Para além disto, há outro aspeto sobre as audiências deste programa sobre o qual gostava de me debruçar.
Não me considero uma “espectadora exemplar”: não vejo todos os Diários, quase nunca vejo as Galas, muito menos os Extras. No entanto, sei mais ou menos o que se passa nos programas. O que mais gosto sobre eles é a parte de comentar “no café” o que acontece lá dentro com a minha melhor amiga. É muito interessante. Entretém e acaba por ser engraçado. Contudo, como é um reality show, tem inúmeras discussões, emoções exacerbadas e argumentos falaciosos. Tendo em conta que o que é “interessante” são as “guerra de berros”, isto é o tipo de conteúdo que mais é distribuído. É muito fácil encontrar pessoas a atacar as famílias dos “inimigos”, insultos pela orientação sexual, comentários desnecessários sobre os corpos alheios e, principalmente, discussões sem nexo qualquer em que os argumentos parecem sempre ser retirados da cartola de um mágico que viu apenas um tutorial de 15 segundos no TikTok.
Acredito que o tipo de conteúdo que uma pessoa consome e a sua atitude sobre ele diz bastante, especificamente quando observamos a sua reação. Para quem consome este tipo de conteúdo acho que há dois tipos de resposta: as pessoas que se deixam levar e acreditam que o programa é uma amostra real da sociedade; e as pessoas que entendem que os participantes são escolhidos a dedo para que o enredo seja semelhante, edição a edição.
Eu já respondi das duas formas.
Quando acreditava que o programa realmente demonstrava a sociedade ficava triste por “saber” que o futuro estava nas mãos de pessoas que se autocaracterizam como “frontais”, com o “coração na boca”, sem medo de dizer o que pensam, porque, na minha opinião, são apenas pessoas mal-educadas. Acreditando que é uma proporção real da comunidade e que, generalizando, em 20 pessoas, apenas uma ou duas não demonstram ser a descrição anterior, acabamos por nos mentalizar de que não há esperança para um aumento de bem-estar social. Assim, o meu intuito ao ver o programa não é bem sucedido.
O meu objetivo, ao assistir a reality shows, é não pensar nos problemas da vida mundana e ver algo que considero como um “guilty pleasure” (conteúdo que, por ser de “baixa qualidade”, é visto como um hábito questionável). Quando mudei a minha resposta ao conteúdo consumido, o objetivo foi alcançado. Ganhei a noção de que há milhares de pessoas que se inscrevem em realitys e os 20 são escolhidos a dedo para dar confusão, porque é isso que vende. Percebi que não é uma demonstração da sociedade como um todo, mas sim um grupo meticulosamente escolhido para gerar conflito e “um bom barraco”. Contudo, não são tudo confusões. Há vários momentos muito cómicos e desenvolvem-se bonitas relações de amor e amizade.
Todos estes programas têm uma coisa em comum, as características das pessoas escolhidas.
Com estes programas, tanto os momentos bons como os maus são intensificados, porque, independentemente do tipo de personalidade, não deixam de ser 20 pessoas que não se conhecem e começam a viver juntos, com hábitos e estilos de vida completamente diferentes. São, supostamente, completamente isolados do resto da sociedade. Não sabem o que se passa no mundo, não sabem notícias da família e dos amigos, não têm privacidade, não podem ler um livro, apenas podem ver um filme por semana. Basicamente, ao entrar na casa, perdem o acesso aos “escapes” a que estamos tão habituados cá fora.
A realidade é que, embora odeie esta expressão, ninguém sabe como é realmente estar dentro da Casa. Felizmente, normalmente não é uma experiência canónica. O mais perto vivido foi a pandemia recente, de 2020 a 2022. No entanto, continuamos a ter acesso, através da tecnologia, ao que eles não têm. Isto explica o agravamento das emoções, mas não justifica o desrespeito e ignorância observados.
Com tudo isto, quero dizer que, tanto dentro como fora da casa, nem tudo deve ser levado com tanta seriedade. Para os espectadores deste tipo de programas, não se deixem levar pelas narrativas fúteis, falem respeitosamente sobre os assuntos relevantes e, acima de tudo, divirtam-se.
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