Opinião de Andreia Aguiar
Também incluído no FEPIANO 65, publicado em Março de 2026
No século XXI, vive-se uma era tecnológica caracterizada por inovação em rápido desenvolvimento, bem como por uma das gerações de jovens adultos mais vulneráveis ao desemprego qualificado e a problemas de saúde mental, entre os quais isolamento e esgotamento. Neste contexto, a diversidade e a inclusão cimentam a sua posição não só como desafios centrais da era do digital e da globalização, mas também pelas suas implicações para a economia.
Perante as peripécias do mundo moderno, a Geração Z mostra uma tendência a procurar no passado um porto seguro, manifestando-se desde o retorno da popularidade de tecnologias como vinis e câmaras polaroid, até à popularização de movimentos conservadores. Estas tendências juntam-se para criar uma estética nostálgica que se torna símbolo da busca da estabilidade num mundo volátil.
A popularidade e influência da nostalgia alcançam um volume de tal modo que se torna impossível ignorar o seu potencial como ferramenta para o marketing. Ao tomar esta dimensão, a nostalgia adota uma dimensão fabricada de acordo com as expectativas da Geração Z.
Dito isto, outra dimensão muito significativa que a nostalgia toma, entre esta geração, é quando se dirige a uma época que não foi vivida por ela. A série “Bridgerton” (2020) aproveita este conceito ao máximo, com vestidos brilhantes e bailes à luz das velas, que dão uma sensação visual de elegância e suavidade, criando uma verdadeira fantasia social. “Bridgerton” difere de outros programas que procuram monetizar a nostalgia histórica na medida em que faz questão de contratar atores negros ou com deficiências visíveis e de integrar perspetivas modernas sobre consentimento e agência feminina, inovando ao incluir na “fantasia” pessoas que, no passado real, não se teriam revisto nesses cenários. Apesar destes louvores, “Bridgerton” utiliza a ficção para transformar uma era historicamente opressiva num produto de luxo emocional, ao mesmo tempo que romantiza a rígida hierarquia social da Regência Britânica.
Passando da televisão para o telemóvel, o Tiktok é, nos dias de hoje, fundamental para a propagação de trends e movimentos alimentados pela nostalgia, como o estilo Y2K (anos 2000) e o movimento “Trad wife“, que beneficiam especialmente deste sentimento. Mas tal como a fantasia nostálgica pode ser usada para incluir mais diversidade na história, pode também ser utilizada para desafiar as conquistas de políticas de I&D do mundo contemporâneo.
O movimento “Trad wife” (esposa tradicional) enquadra-se neste paradigma, sendo popularmente caracterizado pela sua própria estética, precisa de luz suave, vestidos fluidos, aventais que marcam a cintura, cozinhas imaculadas e pão artesanal. Assim, este estilo cria um verdadeiro mundo paralelo onde a modernidade se ausenta, apesar de depender da sua captação pelas câmaras e subsequente publicação nas redes sociais para se sustentar. Sendo aparentemente inofensivo, funde-se com um movimento que romantiza papéis rígidos de género, especificamente associados à década de 1950 e ao imaginário pastoral do século XIX. O movimento “Trad wife” faz parte de um conjunto de vertentes pós-feministas que reciclam gramáticas do feminismo e defendem o “feminismo de escolha”, ou seja, defendem que qualquer decisão feminina é libertadora desde que apresentada como uma escolha autónoma, mesmo que essa escolha signifique regressar a papéis de submissão.
Com os seus belos vestidos e cheiro a pão caseiro, este movimento torna-se, assim, num verdadeiro “Cavalo de Troia”: ao mesmo tempo que defende a própria liberdade de escolha, alega que a dependência e submissão ao marido são o auge da felicidade feminina. No entanto, são evidentes alguns paradoxos fundamentais. Levantam-se imediatamente questões sobre a sustentabilidade deste estilo de vida sem o recurso às redes sociais, visto que, ao monetizar este conteúdo, as “trad wives” do Tiktok lucram ao apelar a um estilo de vida que não seguem na totalidade. Tendo em conta a atenção que este movimento recebe, é possível que a influenciadora se torne a principal geradora de rendimento da família. Vende-se, assim, à classe trabalhadora a ilusão de que o recuo para o lar e a dependência de um único provedor não só são sustentáveis, como também resolvem os problemas que rodeiam a mulher moderna.
«este movimento torna-se, assim, num verdadeiro “cavalo de troia”»
O marketing associado a esta tendência tem um cariz individualista que ignora falhas sistémicas, como a falta de creches públicas e o custo elevado de cuidados infantis, transformando um privilégio de uma elite na vulnerabilidade financeira de outros. À medida que se analisa este movimento, no contexto da diversidade e inclusão, torna-se claro que este estilo de vida é utópico, publicitando o recuo para o lar como uma solução para a exaustão, ao mesmo tempo que ignora as famílias de baixos rendimentos que gastam a maior parte do seu salário em necessidades básicas.
Adicionalmente, ao evocar a nostalgia dos anos 50 como uma década de harmonia, evoca, na verdade, as vidas das famílias de classe alta americana, uma pequena minoria em comparação com as muitas famílias que necessitavam de dois rendimentos para subsistir. Traduzindo para o caso português, os anos 50 foram ainda uma época em que o trabalho doméstico e a vida pastoral não eram uma opção: ser uma “Fada do Lar” não era uma escolha livre, mas uma imposição ideológica cercada de restrições legais, económicas e de classe, na qual a estrutura do Estado e da Igreja era usada para confinar a mulher à esfera doméstica, subordinando-a totalmente à autoridade masculina.
Uma restrição fundamental e frequentemente ocultada é que o estilo de vida do lar depende do trabalho de outras mulheres que não têm o direito de recuar. Para que uma mulher possa dedicar-se a fazer pão artesanal e a manter uma casa imaculada, ela vê-se, inevitavelmente, na necessidade de contratar empregadas de limpeza, que muitas vezes trabalham horas por salários precários.
A nostalgia revela-se, assim, uma ferramenta ambivalente no contexto da diversidade e inclusão, podendo ser usada para alargar o imaginário coletivo ou para o estreitar. Mas a verdadeira inclusão exige mais do que representação nos media, exigindo que as políticas de D&I tenham um impacto positivo na justiça económica, racial e de género. Sem estas bases, a vida doméstica permanecerá um privilégio luxuoso para as poucas mulheres que dependem do trabalho invisível de muitas.
“Sem estas bases, a vida doméstica permanecerá um privilégio luxuoso”

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