Opinião de Isabel Valério
Artigo exclusivo do site, publicado em Novembro de 2026
“When the hurly-burly is done, when the battle’s lost and won”- Macbeth, William Shakespeare
Mesmo que alguns achem que a palavra swag tenha sido criada por dealers (de ativos financeiros, obviamente), consultores ou… pelo Justin Bieber, a verdade é que a palavra já existia muito antes e William Shakespeare deu-lhe um twist. A língua inglesa e até a portuguesa, por via da tradução, devem-lhe algumas das suas expressões mais preciosas. William Shakespeare e outros autores internacionais são pouco ou nada explorados nas escolas portuguesas, o que é uma pena. Shakespeare parecia não encontrar palavras suficientes para escrever tudo o que queria transmitir. Então, este homem de carne e osso decidiu, sozinho, criar centenas de palavras e expressões. Algumas das minhas preferidas são shooting star (estrela-cadente) e the game is up (a farsa acabou). E, claro, star-crossed lovers, de Romeu e Julieta, para descrever aqueles destinados à ruína. Esta última expressão faz-me lembrar uma saga.
Livros de fantasia cujo enredo se passa nas cidades símbolo do século XXI, como Los Angeles, são uma tendência aliciante para vários autores. Não digo ao nível de aparecer um mercedes encerado num mundo fantástico construído de monarquias feudais e castelos de pedra. Isso… não. É uma atrocidade. Desconfigura-me a mim e a qualquer um. Cassandra Clare consegue introduzir a vida urbana e festas de adolescentes alternativas no meio de comunidades secretas de vampiros, lobisomens e fadas, uma jogada arriscada que torna a história mais credível.
A coleção mais popular desta autora é Os Instrumentos Mortais, mas Os Artifícios Negros passam-se no mesmo universo, anos depois, com outras personagens, o que, na minha opinião, é ainda melhor. A história começa por nos apresentar um conjunto de assassinatos e uma sociedade estruturada em torno da Clave, que governa os caçadores de sombras. No entanto, esta acaba também por ser uma das principais antagonistas da história, introduzindo elementos distópicos através da sua intolerância e inflexibilidade cruel. As personagens principais são Emma Carstairs e a família Blackthorn. Emma e Julian Blackthorn são, desde sempre, melhores amigos e parabatai, a ligados por um juramento e, quebrá-lo significaria a ruína de ambos.
A história é narrada na terceira pessoa e é viciante e rica em drama e traições imprevisíveis, tudo isto imerso numa neblina noturna americana e gótica. Cassandra Clare consegue explorar famílias que não são de sangue e amizades das mais nobres, tecidas em lealdade e sacrifício, mas também capazes de nos consumir. A autora incorpora ainda referências religiosas e mitológicas, como os nephilim e elementos da tradição judaica, na construção de um universo de anjos, demónios e crenças antigas. Um dos temas mais caóticos abordados nesta trilogia, sem contar o contexto, eu diria que é a necromancia, associada à vontade de ressuscitar os mortos.
A autora consegue distinguir as personalidades das suas personagens de forma impressionante. É raro encontrar esta diversidade tão bem executada. Há personagens inseguras, outras excêntricas e ambiciosas, cuja verdadeira natureza só descobrimos quando já é demasiado tarde. Kit, Dru, Diana e Malcolm são exemplos da capacidade da autora de deixar peças soltas pelo meio da narrativa, que só mais tarde ganham significado. Estas personagens são armadilhas para quem carrega preconceitos. Por vezes, criamos um apreço tão profundo por uma personagem que nem uma nova realidade consegue desfazê-lo. À partida, não conhecemos toda a verdade sobre ela, apenas a que mais importa, a que revela a sua verdadeira natureza: as suas motivações e a sua tortura moral. Quando depois nos contam o resto, as ideias preconcebidas que carregamos deixam de fazer sentido, porque gostamos delas à mesma. Só assim se eliminam preconceitos. Uma sociedade deve ter muitos leitores, não apenas pela cultura intelectual. Afinal, a vida tem coisas mais importantes do que isso, não é? Saber que os gregos costumavam queimar as partes mais caras e saborosas dos alimentos numa fogueira como oferenda aos deuses, ou que o cianeto, conhecido pela sua utilização histórica como veneno, foi também utilizado durante a Segunda Guerra Mundial, ou que, segundo a mitologia chinesa, dez sóis ameaçaram secar os cultivos e destruir a vida na Terra, até serem abatidos por um arqueiro que salvou a humanidade. Isto são apenas extras. A sabedoria mais importante que levamos dos livros é a perceção da matéria humana, a empatia e a tolerância.
Por vezes, a narrativa pode desacelerar e tornar-se extremamente enganadora quanto ao rumo que vai tomar, mas vale a pena. Por isso, leitores, persistam, como aqueles guerreiros que não faltam a uma aula às 8h30 na FEP. Por fim, aconselho a trilogia a todos aqueles que queiram mergulhar numa realidade criativa, cheia de mistério, ação, fantasia e romance.
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