Rita Loureiro
Também incluído no FEPIANO 60, publicado em Outubro de 2025
Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser apenas uma preocupação meramente clínica para se tornar numa questão de dimensão económica e estratégica para empresas e universidades. O burnout, condição associada ao stress crónico, caracterizado por exaustão, perda de motivação e diminuição de desempenho, é hoje reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como um fenómeno diretamente relacionado com o trabalho. A sua crescente incidência representa não só uma ameaça à qualidade de vida, mas também um enorme fardo financeiro para as organizações e para a sociedade como um todo.
A Organização Mundial de Saúde define ainda a Saúde Psicológica como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, pode trabalhar de forma produtiva e frutífera e pode contribuir para a comunidade em que se insere” (OMS, 2022). Assim, promover a Saúde Psicológica e o bem-estar significa assegurar as condições essenciais para o desempenho no trabalho, como garantir a integração das pessoas tanto no seu local de trabalho como na sociedade, e assegurar ainda que vivem experiências de cooperação e realização pessoal. Nesse sentido, a Direção-Geral da Saúde destaca que investir na Saúde Psicológica e no bem-estar constitui uma das estratégias mais eficazes para as organizações que desejam permanecer competitivas, sustentáveis, e produtivas.
“Investir na Saúde Psicológica e no bem-estar constitui uma das estratégias mais eficazes“
Estudos internacionais revelam que a ansiedade e a depressão causam cerca de 12 mil milhões de dias de trabalho perdidos anualmente a nível mundial, o que equivale a custos que podem ultrapassar o bilião de dólares para as entidades. Em setores de elevada exigência, como o financeiro e o académico, a situação é particularmente preocupante. No Reino Unido, por exemplo, o impacto médio do burnout pode chegar a mais de cinco mil libras por colaborador por ano no setor financeiro, um valor consideravelmente mais elevado do que em outras áreas de atividade. Nos Estados Unidos, uma investigação publicada no American Journal of Preventive Medicine estimou que o burnout custa entre 4 mil e 21 mil dólares por colaborador num ano, dependendo da sua posição/ função dentro da instituição. Para uma empresa com mil trabalhadores, isto significa perdas que podem atingir os cinco milhões de dólares num único ano, números bastante alarmantes que as empresas cada vez mais têm de ter em conta nos seus orçamentos.
No nosso país, os números também revelam uma realidade preocupante. De acordo com a Ordem dos Psicólogos, os custos indiretos do stress e de uma má saúde mental atingem cerca de 5,3 mil milhões de euros por ano, um valor que equivale a cerca de 1,4% do volume de negócios nacional. Dentro deste montante, o absentismo (quando o trabalhador falta) representa aproximadamente 1,8 mil milhões, mas o presentismo, ou seja, quando o trabalhador está fisicamente presente no seu local de trabalho, mas com baixo rendimento devido ao grande desgaste emocional ou até mesmo físico é ainda mais oneroso, rondando os 3,5 mil milhões de euros anuais. Estes números revelam um fenómeno curioso muitas vezes, o maior custo para as organizações não está em quem falta, mas sim em quem está presente no seu posto de trabalho, mas sem condições para ser produtivo.
“O maior custo para as organizações não está em quem falta”
Embora a maioria dos estudos incida sobre o setor empresarial, as universidades vivem um cenário bastante parecido, ainda que menos estudado em termos de impacto económico direto. Entre os estudantes do ensino superior, a pressão para manter um elevado desempenho académico, a incerteza quanto ao futuro profissional e a falta de equilíbrio entre os estudos e a vida pessoal contribuem para níveis elevados de stress, podendo atingir a exaustão. Do lado dos docentes e investigadores, a sobrecarga de responsabilidades administrativas, o excesso de horas de trabalho e a precariedade presente em muitas carreiras académicas levam a sintomas semelhantes aos observados no setor privado. O resultado é uma perda de qualidade no ensino e na investigação, maior risco de abandono académico e, em último caso, um impacto bastante negativo na economia do conhecimento.
O mais preocupante é que este ciclo de desgaste não afeta apenas a produtividade imediata. O burnout leva a consequências de médio e longo prazo sobre a saúde, aumentando a probabilidade dos indivíduos desenvolverem doenças cardiovasculares, depressão e outros problemas de saúde, quer a nível físico, quer a nível mental. Estes efeitos, muitas vezes invisíveis, acabam por recair sobre os sistemas de saúde públicos e privados, bem como sobre toda a sociedade através da quebra de rendimento o que leva à diminuição da capacidade contributiva. Cada vez mais este é um problema que afeta as organizações e que merece a nossa especial atenção.
Mas nem tudo são más notícias. Vários estudos comprovam que investir em iniciativas que visam a promoção da saúde mental e bem-estar leva a retornos financeiros significativos. A Organização Mundial da Saúde estima que, por cada euro investido em intervenções de promoção da saúde mental, o retorno em ganhos de produtividade pode alcançar os cinco euros. Especificamente no ambiente empresarial, os programas de bem-estar no local de trabalho têm mostrado um retorno médio que varia entre três e seis dólares por cada dólar investido. Podemos concluir assim que cuidar da saúde mental não é apenas uma medida ética e socialmente responsável ou algo que “está na moda”, é uma decisão financeiramente vantajosa e cada vez mais necessária.
Na vertente universitária, estratégias como a disponibilização de serviços de aconselhamento psicológico, a flexibilização de prazos académicos em situações de crise e a promoção de atividades de bem-estar podem reduzir significativamente os níveis de burnout entre estudantes e corpo docente. Nas empresas, medidas como a formação de líderes capazes de detetar precocemente sinais de exaustão, a implementação de políticas de equilíbrio entre vida profissional e pessoal, e a criação de ambientes de trabalho mais saudáveis são fundamentais para travar este fenómeno.
O burnout não é um problema meramente individual, mas sim coletivo e estrutural. Ignorar o seu peso económico significa comprometer a competitividade das empresas, a qualidade das universidades e o futuro de gerações. Reconhecê-lo como um problema preocupante e agir preventivamente é uma oportunidade não só de melhorar vidas, mas também de criar valor sustentável para a nossa sociedade como um todo.

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