Além da bruma da memória, escondem-se, ou são-nos escondidos alguns de nós, caro leitor. Imagine-se envolto na densa condensação da recordação, revendo caras que há tanto partiram como se ontem tivessem passado lá por casa, como tantas vezes passaram, questionando: “Que novidades tens tu, mana, da tua vida?”. Imagine um nevoeiro tão cegante que os sentidos pregam-nos a partida de nos levar por caminhos deambulantes e incertos, acabando num destino sem nexo e num espírito fraco, que se sente sozinho e com medo. Imagine as palavras fugirem de uma boca que um dia as conheceu a todas eloquentemente, uma cabeça assertiva e capaz a tornar-se lentamente uma vela num dia de vento, tremeluzindo ao sabor das rajadas violentas de uma doença, e tantos dos mais brilhantes pensamentos, das mais lindas memórias, perderem-se como, citando Roy Batty de Blade Runner, “ lágrimas à chuva”.

“Ninguém merece viver somente nessa nebulosa existência em que a vida passa a ser só existir.”

Segundo a própria OMS, estima-se que em todo o mundo 47.5 milhões de pessoas vivam nesta nuvem negra tenebrosa que se intitula de demência, em termos mais amplos, e que cerca de 60% a 70% destes lutam especificamente com a doença de Alzheimer. Mas o que é ao certo este vendaval com nome de psiquiatra alemão? Ora os livros definem-na como “uma doença neurodegenerativa crónica que se manifesta lentamente, levando a sintomatologia a ostracizar o doente da família e sociedade”, que é traduzido em termos leigos para uma perda progressiva do funcionamento dos neurónios, para as nuvens e tempestades que vimos, caro leitor. Mas nem mesmo estes heróis de laboratório e bata branca, a quem temos tanto para agradecer, conseguem encontrar uma resposta assertiva sobre as causas da doença de Alzheimer, mesmo com programas de pesquisa com anos e anos de existência.

Ninguém merece viver somente nessa nebulosa existência em que a vida passa a ser só existir. Graças à medicina temos a possibilidade de amenizar alguns dos sintomas do Alzheimer. Tanto a nível de medicação como terapêutico têm-se explorado opções para ajudar a deter e atenuar a decadência cognitiva e feroz resultante desta. Na verdade, a melhor resposta a esta tempestade não é uma resposta, mas sim uma antecipação. Há comportamentos que, de certa forma, erguem um pouco de “sol” na nossa mente, um brilhante e forte sol que tenta manter as nuvens negras longe. Como o nosso corpo urge sempre por cultura, caro leitor, pois é com a cultura, com atividades intelectuais se quisermos citar os livros, que protegemos a mente.

Deixo então um apelo, vá e cultive o jardim que tem entre as orelhas. Vá, leitor, aprender a tocar a guitarra portuguesa que sempre quis. Vá e leia todos os livros que em tempos não teve tempo. Vá e fale com amigos de longa data com regularidade, não deixe chegar a neblina que irá ocultar as suas faces. Vá e faça todas as palavras-cruzadas que lhe aparecem no jornal, todos os sudokus e jogos de diferenças. Aprenda uma língua nova, um novo desporto, um novo jogo. E, ainda mais importante, vá e olhe por aqueles que já estão envoltos nestas nuvens, faça-lhes companhia, seja paciente. Por trás das perguntas repetitivas e olhos que parecem não recordar tudo aquilo que os construiu, continua a mesma pessoa, a mesma companhia de longa data, seja um pouco de luz numa tempestade.