Opinião de Maria Carvalho
Também incluído no FEPIANO 60, publicado em Outubro de 2025
Com o surgimento das redes sociais, os boatos que antes eram espalhados de porta em porta passam agora de ecrã em ecrã. Em tempos não tão longínquos, uma aldeia de 300 pessoas disseminava entre si uma mentira. Hoje, uma informação falsa é mascarada por palavras rendilhadas para toda uma aldeia global.
Pessoas que promovem produtos que, por sua vez, prometem curas milagrosas e que oferecem respostas fáceis a problemas complexos aproveitam-se daqueles que estão mergulhados num desespero profundo. Expressões como “estudos recentes” ou “comprovadas cientificamente” atribuem uma falsa veracidade aos vídeos ou posts que todos os dias e a toda a hora são colocados na internet.
Ao mesmo tempo, a desinformação em saúde não passa apenas por espalhar a ideia de que “comer uma laranja à noite faz mal”, mas também por partilhar rotinas de saúde e bem-estar inalcançáveis ou não adequadas ao estilo de vida do espectador. Criar uma rotina na qual faça parte a qualquer custo, por exemplo, o exercício físico intenso antes do sol nascer, deixar de comer determinados alimentos ou tomar banhos gelados são aparentes ações curativas de qualquer mal. A ampla partilha nas redes sociais destas narrativas ignora o estilo de vida particular e faz querer que existe uma fórmula ideal para a saúde mental e física, quando na realidade não existe uma forma comum a todo e qualquer ser humano para alcançar o equilíbrio. Enquanto se multiplicam conteúdos sobre rituais de banho e afirmações positivas ao espelho, desaparece do discurso uma noção fundamental: o bem-estar deve ser pautado por uma construção coletiva, acessível e enraizada na realidade de cada um.
“A ampla partilha nas redes sociais destas narrativas ignora o estilo de vida particular”
O problema não está em querer viver melhor — querer cuidar do corpo e da mente é legítimo e imperativo, sendo que os conteúdos digitais relacionados com o bem-estar ajudam a fomentar o objetivo de viver melhor. No entanto, é importante desconstruir que o bem-estar não precisa de ser glamoroso para ser verdadeiro. Pode estar presente numa curta caminhada ao final do dia, numa refeição mais elaborada feita em casa, num telefonema a um amigo ou num momento de silêncio. Rotinas simples e que respeitam o tempo e os limites de cada um, contribuem para um estilo de vida completo e alinhado com o quotidiano de cada um.
Assim, é fundamental promover uma abordagem inclusiva e realista do bem-estar — uma que reconheça que há diferentes formas de cuidar da saúde. Num cenário digital onde a informação circula à velocidade de um clique, o pensamento crítico e a escolha consciente de fontes fiáveis tornam-se ferramentas indispensáveis. Cada publicação, cada gesto aparentemente inocente de partilha, pode contribuir para espalhar um mito ou para difundir informação verdadeira. Num contexto global, fazer esta escolha assume-se como responsabilidade de cada pessoa que faz parte do mundo da internet, quer como espectador, quer como comunicador.

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