Opinião de Eduardo Beltrão - Business Developer nBanks
Também incluído no FEPIANO 58, publicado em Junho de 2025
O recente agravamento das tarifas comerciais por parte dos Estados Unidos, sob a administração Trump, está a alterar o equilíbrio geopolítico do comércio internacional e a oferecer uma oportunidade estratégica para a consolidação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.
Segundo a Comissão Europeia, o acordo com o Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, representa uma “oportunidade massiva” para diversificar os parceiros comerciais da Europa, especialmente num momento em que as relações com os Estados Unidos enfrentam desafios. O receio de uma redução drástica das exportações europeias para o mercado norte-americano, na sequência de tarifas que podem atingir os 20%, reforça a urgência de concluir o tratado com os países sul-americanos.
Do lado brasileiro, o otimismo é evidente. O responsável da ApexBrasil, Agência Brasileira de Exportações, Jorge Vian, afirmou que o clima atual favorece a ratificação do acordo. Sublinhou ainda que, apesar de algumas resistências europeias, nomeadamente da parte de França, “o mundo precisa de cooperação” para enfrentar o retrocesso do multilateralismo promovido por Washington. Para o Brasil, além da exportação de matérias-primas, o pacto abriria portas para investimentos em setores estratégicos, como o da energia renovável e da indústria aeronáutica.
Além disso, o Presidente Lula da Silva tem assumido um papel de liderança, aproveitando a presidência rotativa do Mercosul no segundo semestre de 2025 para pressionar pela conclusão do acordo. Durante uma visita de Estado à França neste mês – a primeira de um chefe de Estado brasileiro em 13 anos – Lula apelou diretamente ao Presidente Emmanuel Macron para “abrir o coração” e fechar o acordo nos próximos seis meses. Segundo Lula, o pacto seria “a melhor resposta” à atual instabilidade comercial mundial e garantiu que o Brasil está comprometido com normas sanitárias e ambientais rigorosas.
Contudo, há obstáculos significativos a ultrapassar. A França continua a liderar a oposição ao acordo, preocupada com a concorrência considerada desleal por parte de produtores agrícolas sul-americanos, que operam sob normas ambientais e sanitárias menos exigentes do que as europeias. O presidente Emmanuel Macron indicou estar disposto a assinar o acordo até ao final do ano, desde que sejam introduzidas salvaguardas adicionais para os agricultores europeus, como as chamadas “cláusulas espelho” e mecanismos de emergência para limitar importações em caso de desequilíbrio de mercado. Contudo, a recente visita do Presidente do Brasil à França intensificou a pressão para a assinatura do acordo.
Apesar disso, o Comissário Europeu para a Agricultura, Christophe Hansen, afirmou que reabrir as negociações nesta fase não seria útil e que há setores importantes da economia europeia a aguardar ansiosamente pelas novas oportunidades de comércio.
O diálogo entre os líderes europeus e sul-americanos tem-se intensificado, com o Brasil a assumir um papel central nas negociações durante a sua presidência rotativa do Mercosul no segundo semestre de 2025. A pressão externa causada pela política protecionista dos EUA pode, paradoxalmente, ser o catalisador que faltava para que a UE e o Mercosul ultrapassem as divergências e concluam um dos maiores acordos comerciais do mundo.

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