Opinião de Guilherme Sampaio
Também incluído no FEPIANO 58, publicado em Julho de 2025
As eleições legislativas de 2025 assinalaram um ponto de viragem no panorama político nacional. Mais do que uma alteração na composição parlamentar, os resultados refletem uma vontade clara de mudança por parte dos eleitores.
As eleições legislativas de 2025 marcaram uma viragem clara no panorama político português. O Chega! ultrapassou o Partido Socialista, tornando-se a segunda maior força política do país. O resultado das urnas não deixou margem para dúvidas: os eleitores exigem mudança. Com cerca de dois terços da Assembleia da República agora dominados por partidos de direita, abriu-se a porta a revisões constitucionais que, até então, eram impensáveis.
Estas eleições foram, acima de tudo, uma derrota histórica da esquerda. O PS saiu fragilizado após anos de governação marcados por promessas incumpridas, degradação dos serviços públicos e uma perceção crescente de falta de visão para o país. Além disso, os partidos à esquerda, exceto o Livre, foram também penalizados, por serem incapazes de oferecer propostas realistas para os desafios atuais. A confiança depositada em forças políticas alternativas reflete o cansaço com a esquerda que não conseguiu dar resposta eficaz a problemas concretos como a habitação, o emprego jovem ou a qualidade dos serviços públicos.
Um dos setores onde esta nova correlação de forças já se faz sentir é o da Saúde. O regresso em força das Parcerias Público-Privadas (PPP) representa não apenas uma mudança de gestão, mas uma alteração de filosofia: admite-se agora, sem reservas, que o setor privado possa contribuir para a eficiência do Serviço Nacional de Saúde (SNS), sem que isso signifique a sua descaracterização. A questão essencial não deve ser ideológica, mas pragmática: se uma unidade de saúde gerida em regime de PPP presta um serviço de melhor qualidade, com maior controlo de custos e maior satisfação dos utentes, então deve ser considerada uma opção válida. A prioridade deve ser o acesso atempado e digno à saúde, independentemente da natureza jurídica do prestador.
Outro tema incontornável é o da habitação, um dos maiores problemas sociais do país. Os preços continuam a escalar, quer na compra, quer no arrendamento. As políticas públicas falharam, em grande parte, por não reconhecerem a importância de criar condições para o investimento privado no setor. A excessiva burocracia e os entraves ao licenciamento afastaram os promotores. Para inverter esta tendência, é fundamental liberalizar o mercado dos solos, acelerar os processos de licenciamento e garantir estabilidade fiscal para quem investe na construção e reabilitação urbana.
Mais do que subsidiar a habitação nos grandes centros urbanos, é tempo de olhar para o território como um todo. O interior e o sul do país, onde o Chega! obteve resultados particularmente expressivos, revelam uma população cansada do abandono e da concentração dos recursos em Lisboa e Porto. Criar incentivos reais à fixação de população e empresas nessas regiões – através de benefícios fiscais, simplificação administrativa, investimento em acessibilidades e digitalização – pode ser parte da solução. A habitação é mais acessível fora dos grandes centros, mas faltam oportunidades de trabalho e serviços públicos de qualidade. Combater o desequilíbrio territorial é também combater a crise habitacional.
Os jovens portugueses enfrentam hoje um cenário marcado por salários baixos, dificuldade em aceder à habitação, precariedade laboral e desvalorização do mérito. Muitos partem para o estrangeiro, não por falta de patriotismo, mas por ausência de horizontes.
É urgente inverter esta tendência. Um país que se dá ao luxo de perder os seus jovens mais qualificados é um país condenado ao declínio. A prioridade deve ser criar um ambiente económico dinâmico, onde haja espaço para o empreendedorismo, para a inovação, para o risco. A fiscalidade sobre o trabalho jovem deve ser reduzida, os encargos para quem contrata devem ser aliviados, e os mecanismos de acesso à habitação e ao crédito devem ser adaptados à realidade de quem começa a vida.
“Um país que se dá ao luxo de perder os seus jovens mais qualificados é um país condenado ao declínio”
Os jovens não querem subsídios nem discursos paternalistas: querem oportunidades reais. O futuro constrói-se com liberdade, responsabilidade e confiança nas capacidades de cada um. O país não pode continuar a tratar os jovens como uma faixa a proteger, mas sim como a geração que pode – e deve – transformar Portugal. A juventude é o maior ativo estratégico de uma nação; ignorá-la é hipotecar o amanhã.
Também a política de imigração deverá sofrer uma inflexão. Desde 2017, Portugal adotou uma postura extremamente aberta, com processos simplificados e, por vezes, pouco exigentes. Esta abordagem teve mérito no curto prazo, ao colmatar falhas em setores como a construção, a agricultura e os serviços. Contudo, a falta de critérios claros, de mecanismos de integração eficazes e de acompanhamento social gerou desequilíbrios visíveis, com pressão acrescida sobre os serviços públicos e tensões em algumas comunidades.
Uma política migratória sustentável deve articular abertura com responsabilidade. É essencial atrair quem queira contribuir, mas com regras definidas, acompanhamento rigoroso e investimento real na integração. Não basta permitir a entrada – é preciso garantir condições para que quem chega se insira, se qualifique e crie valor. Só assim a imigração será uma mais-valia para o país e para todos os que nele vivem.
O momento político que o país vive é, portanto, de encruzilhada. Os eleitores manifestaram de forma clara o desejo de mudança, e é fundamental que essa mudança se traduza em reformas estruturais que promovam a responsabilidade individual, a liberdade económica e a eficiência do Estado.
Contudo, a margem de erro é curta. A história recente mostra que o populismo não resolve problemas estruturais. O que Portugal precisa é de estabilidade, previsibilidade e reformas sérias. Isso implica coragem política, mas também sensatez, contenção e compromisso com resultados.
“O que Portugal precisa é de estabilidade, previsibilidade e reformas sérias”
Num tempo de mudanças, é preciso distinguir o acessório do essencial. E o essencial, hoje, é garantir que o país aproveita este novo ciclo para desbloquear o seu potencial económico, melhorar os serviços públicos com base em critérios de eficácia e reforçar a coesão social com políticas orientadas para a responsabilidade e a meritocracia. O Estado deve proteger os mais vulneráveis, mas também criar espaço para que os cidadãos possam crescer e prosperar por mérito próprio, com menos dependência do apoio público e maior liberdade para decidir o seu caminho.
A situação política atual encara riscos e oportunidades. Se as forças que ascenderam ao poder conseguirem resistir ao ruído e focar-se na governação eficiente e reformista, Portugal poderá entrar numa nova era de crescimento e modernização. A chave está em agir com convicção, mas também com racionalidade. O tempo não espera, e o país também não pode continuar à espera de reformas que tardam há décadas.

Comentários