Opinião de Sara Arêde
Também incluído no FEPIANO 58, publicado em Julho de 2025
Com o agravar da crise climática, cresce a urgência de repensar a estrutura económica atual. Entre propostas de reforma e de rutura, que caminhos se abrem? Até onde estamos dispostos a ir?
Somos confrontados diariamente com sintomas de uma crise ecológica sistémica: colapso climático, extinção de espécies e escassez de recursos. Esta realidade não resulta apenas de escolhas individuais ou falhas técnicas, mas de um modelo económico centrado na exploração contínua de recursos e na maximização do lucro. Neste contexto, o debate sobre o capitalismo e a sua relação com a ecologia tem-se intensificado: será possível compatibilizar um sistema orientado para o crescimento ilimitado com os limites físicos do planeta.
Duas abordagens críticas ao modelo vigente ganham destaque: a Economia Circular (EC) e o Decrescimento (DG), com visões bastante distintas.
A EC propõe substituir o modelo linear “extrair, produzir, usar e descartar” por um ciclo onde resíduos são reintegrados como recursos. Baseia-se na eficiência, durabilidade, reutilização e energia renovável, e inspira-se nos processos naturais. Tem sido promovida por governos e empresas como uma solução viável dentro do sistema atual,conciliando crescimento económico e sustentabilidade. Contudo, os ganhos de eficiência tendem a ser anulados pelo aumento do consumo (efeito Jevons) e a sua aplicação efetiva permanece limitada. Críticos apontam ainda que, ao não romper com a lógica da acumulação, a EC pode reduzir-se a greenwashing.
O DG vai mais longe: propõe transformar, não apenas reformar. Considera o crescimento contínuo incompatível com a sustentabilidade e recusa o PIB como medida principal de progresso. Projeta uma reorganização estrutural assente na suficiência, justiça social e respeito pelos limites ecológicos. Defende a redução equitativa da produção e do consumo, a redistribuição da riqueza, o uso de tecnologias simples e locais, menos horas de trabalho e estilos de vida baseados em partilha e reparação. Não rejeita o desenvolvimento, mas reorienta-o para setores sustentáveis. Enfrenta, no entanto, forte resistência política e cultural, sendo associado à perda de bem-estar.
A EC atua dentro do sistema; o DG propõe ultrapassá-lo. Mas pode-se resolver uma crise sistémica sem mudar a estrutura do sistema que a causou?
A EC encaixa-se facilmente no discurso dominante da transição energética, pois não questiona os fundamentos do sistema. Apoia-se no “capitalismo verde”, prometendo conciliar a lógica de crescimento e competitividade via tecnologia e eficiência, sem reduzir a produção ou o consumo. Mas a questão é que, apesar de melhorar processos, não alcança a raiz do problema – os alicerces de toda a estrutura – podendo prolongar um sistema insustentável. Por outro lado, uma transição direta para o DG ainda parece politicamente inviável.
Assim, é essencial fomentar o debate público e implementar políticas que desconstruam progressivamente o modelo dominante e reorientem as expectativas sociais e económicas para um novo paradigma compatível com os limites do planeta. Reformar pode adiar o colapso; só reimaginar pode evitá-lo.

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