Chega mais um ano letivo e, com ele, milhares de novos alunos. O ar enche-se de entusiasmo e nervosismo, mas, para muitos alunos, é também o primeiro passo numa vida longe de casa. Foi assim que começou a minha experiência.

Para muitos, se tivessem de imaginar como seria a realidade universitária, a resposta iria ser uma versão de uma romcom adolescente de roteiro previsível: uma partida emocional para longe do conhecido em busca de um sonho, uma experiência de autoconhecimento que culmina em certezas, na descoberta de amizades para a vida e, quem sabe, num grande amor. A realidade, porém, raramente segue um guião tão linear. Quatro em cada dez estudantes portugueses deixam a sua casa para prosseguir estudos superiores, levando consigo sonhos e receios os quais acabarão por vivenciar. Eu sou apenas um exemplo no meio de milhares. Assim, neste artigo, partilho a minha experiência, o que aprendi e alguns conselhos, especialmente para ti que te preparas para embarcar nesta aventura, ou para ti que, às sextas-feiras, chegas às aulas de mala de viagem a torcer para que a CP não esteja em greve.

A minha experiência começou há 4 anos, quando decidi estudar a 250km de casa. Tinha pressa de descobrir, de ser, de encontrar respostas. Caí de paraquedas com uma missão pouco precisa e sem saber bem por onde começar. Será ou terá sido também o teu caso?

Os primeiros tempos ficaram marcados por vulnerabilidade. Nada nos prepara para o silêncio ensurdecedor dos primeiros minutos em que somos apenas nós, malas e um quarto que é nosso, mas não nos pertence de facto. Não temos caminhos habituais que nos levam aos sítios do costume, não conhecemos quem vive connosco ou quem se senta ao nosso lado nas aulas. Não sabemos que detergente comprar e não há um abraço para nos amparar. Se  pudesse voltar atrás, teria sido mais paciente comigo mesma. Não me teria condenado por me sentir insegura ou exigido resultados imediatos. É humano sentir este “aperto”: o nosso cérebro interpreta a mudança como ameaça, por mais desejada que seja, e ativa todos os alarmes internos. A adaptação leva tempo e rever objetivos não é sinal de falhar, mas sim de crescer.

“Os primeiros tempos ficaram marcados por vulnerabilidade”

Tendo vindo sozinha para o Porto, senti uma enorme necessidade de criar amizades rápidas e intensas. Quando isso não aconteceu nas primeiras semanas, desanimei. Mas as amizades que tanto ansiava acabaram por chegar, no seu tempo, e aprendi a valorizar também encontros casuais, conversas sem pressa e aqueles amigos que, embora passageiros, têm impacto. Esse equilíbrio permitiu-me gerir muito melhor a energia que dedicava às relações e tornou a minha vida mais rica. O meu conselho? Sai da tua bolha e aproveita: participa naquela atividade da faculdade interessante, candidata-te a organizações que te desafiem, inscreve-te num workshop inesperado e aceita o convite para ir àquele convívio onde não conheces ninguém. É a forma mais fácil e natural de conhecer pessoas, ao mesmo tempo que te conheces a ti.

Este também é o momento certo para questionarmos a solidão que possamos estar a sentir. Estaremos mesmo isolados ou apenas ainda não aprendemos a estar na nossa companhia? Viver de forma independente traz inadvertidamente mais momentos a sós, mas, como psicólogos apontam, isso tem inúmeros benefícios: maior autoconhecimento, inteligência emocional, criatividade, autonomia ou autoconfiança. Não há melhor altura para experimentar práticas de wellbeing – meditar, escrever, correr ou até dançar no quarto. E não deixes de visitar aquele café ou jardim que tanto queres conhecer só porque te falta companhia. Apesar de ter estranhado ao início, hoje não dispenso os meus momentos de solitude. Mas é importante também reconhecer quando o peso da solidão ou qualquer outra emoção se torna excessivo. Nesses momentos, é essencial pedir ajuda. Na FEP, por exemplo, existem psicólogos gratuitos disponíveis para apoiar os alunos – um recurso que fez a diferença na minha vida e que recomendo mesmo a quem queira apenas um simples check-up de tempos a tempos.

“A adaptação leva tempo e rever objetivos não é sinal de falhar, mas sim de crescer”

A nível académico, as expectativas também pesam. Se foi o curso que nos trouxe até aqui, é fácil acreditar que tem que ser “a paixão da nossa vida”. Mas no caso de formações abrangentes, como Gestão ou Economia, é natural adorar algumas cadeiras, tolerar outras e suspirar de alívio quando certas acabam. Isso não significa estar no caminho errado: cada unidade curricular ajuda-nos a perceber melhor os nossos interesses e a moldar o percurso. O mesmo acontece com as notas. Antes da faculdade, sentia que o meu empenho tinha sempre reflexo direto nos resultados. Aqui, a exigência aumenta e, para quem está deslocado, soma-se uma vida doméstica para gerir: cozinhar, limpar, fazer compras, deslocar-se… Por vezes não há energia para tudo e é necessário e normal ajustar expectativas, sobretudo no início. A tua saúde mental deve ser prioridade. Mas não te preocupes, com o tempo criamos rotinas que equilibram melhor as várias esferas do quotidiano, como preparar refeições para toda a semana, reservar sempre um mesmo horário para encaixar tarefas domésticas e aprender a organizar as prioridades.

A independência também se mede em números. Basta sair de casa para perceber que quase tudo tem um custo. Cada conta lembra o esforço dos pais e, para quem ainda trabalha, a pressão aumenta. É natural sentir ansiedade, sobretudo com preços em constante subida. Custou-me imenso admitir aos meus pais que precisava de ajuda financeira adicional, mas é muito importante sermos transparentes, uma vez que, para a maioria, é a primeira vez a viver com um budget real. Pessoalmente, ajudou-me criar orçamentos simples, registar as despesas por área numa app e adotar hábitos de poupança, como fazer uma lista de compras e descobrir onde compensa comprar cada coisa (quanto à dúvida do detergente, a resposta está no Mercadona).

Outro desafio é a dinâmica familiar. Ter a nossa presença em eventos apenas como uma carinha num ecrã passado de mão em mão é duro, assim como chegar a casa e perceber que as coisas mudaram sem nós. Agora existem duas rotinas paralelas, hábitos que chocam. Na minha família, tentamos fazer vídeochamadas aos fins de semana, temos grupos com os avós e partilhamos pequenos aspetos do quotidiano. Apesar de ter abraçado completamente esta vida fragmentada, não se torna fácil manter uma casa ao mesmo tempo que se tenta criar outra; não é fácil tentar pertencer ao Norte com um sotaque “lisboeta” que não passa despercebido ou regressar ao Sul com novas entoações que são estranhadas. 

Apesar de todas estas camadas, não trocava esta experiência por nada. Viver sozinha numa cidade nova deu-me a liberdade e o espaço para experimentar, falhar e recomeçar à minha maneira. A vida não é estanque, mas ganhamos uma maior facilidade em lidar com a mudança e com a novidade. Nesta aventura conheci as minhas pessoas, apaixonei-me pela cidade e, acima de tudo, descobri-me nas pequenas coisas que, de outro modo, não teria vivido.

Viver longe de casa é um ato de coragem. É aprender a criar raízes sem haver um chão fixo. É saber que, entre silêncios e vitórias, crescemos muito mais do que imaginamos. E, talvez, seja essa a verdadeira essência da vida universitária.