Opinião de Sofia Condez Alves
Artigo exclusivo do site, publicado em Agosto de 2025
Em Portugal, gostamos de dizer que somos um povo de cultura. Cantarolamos Amália, desgastamos o amor que arde sem se ver e levamos ao peito o brasão das cinco quinas. No entanto, cada vez mais nos perdemos no significado destes símbolos. Preocupa-me que nem todos os portugueses sejam capazes de distinguir Camões de Pessoa (ou épico de lírico, como foi comprovado por uma pergunta controversa no Exame Nacional de Português do presente ano), e que as cores da nossa bandeira tenham perdido o seu significado para este povo. A verdade é que a cultura em Portugal já é, há muito, menosprezada, depreciada, olhada de soslaio e empurrada para os bastidores pelos grandes decisores políticos.
O mais recente episódio desta tendência corresponde à decisão do atual Governo de extinguir o Ministério da Cultura enquanto entidade autónoma, transformando a Ministra da Juventude (Margarida Balseiro Lopes) na Ministra da Juventude, da Cultura e do Desporto. Esta fusão, apesar de ter sido discutida e vendida como uma medida de eficiência administrativa, revela, na prática, uma clara declaração dos valores ideológicos dos nossos governantes. A inexistência de um Ministério dedicado exclusivamente à cultura confirma, sem disfarces, a ambição medíocre com que está a ser preparado o futuro deste país. Ainda, a junção da Cultura ao Desporto, apesar de haver cultura no desporto, traduz-se numa conceção pobre, num populismo baixo, do que realmente é a cultura.
Questiono, até, se há uma intenção deliberada de desvalorizar ainda mais a cultura aos olhos da população. Quando os investimentos e os fundos desta diminuem, quando há uma incitação à sua privatização, também desaparece a sua acessibilidade às classes mais baixas e torna-se um “bem” de luxo. Perde-se o acesso fácil, e, com este, desperdiçamos oportunidades de relembrar o passado, de refletir sobre o futuro e de questionar o presente. Esta diluição revela mesmo uma perigosa “cegueira” política. O governo que ambiciona atingir 2% do PIB direcionado para a Defesa, é o mesmo que desmantela e prejudica organismos culturais. Apesar da insistência nisso, a arte não deve ser cara nem rara, mas uma ferramenta de cidadania, um pilar de identidade e um espaço de expressão livre.
Claro que é compreensível que, num país atolado em crises (de saúde, de educação, de habitação), a preocupação com a cultura salte para segundo plano, assumindo um papel secundário. Mas, é precisamente pela cultura que vivemos, e é esta que nos serve de ponto de esperança nos momentos de maior fragilidade. Trabalhamos para ter o que consumir ou usufruir: livros, bilhetes para concertos ou para cinema, subscrições de serviços streaming, jogos, televisões. Apesar de não darmos conta, porque a sua familiaridade a torna invisível, a cultura está em todo o lado.
Há consequências reais neste desprezo institucional. Vivemos já décadas de reformas educativas erráticas que desestabilizaram as novas ondas de estudantes (e até de professores). Hoje em dia, são poucos os que sabem a nossa História e a do mundo (bem sabida!) e é raro o jovem que tenha lido alguma obra dos nossos melhores autores, à parte dos que são ensinados obrigatoriamente (e, por vezes, nem nesses textos tocam). A maioria dos novos adultos nunca puseram os pés num teatro nem numa galeria, porque estes têm a imagem (e, normalmente e infelizmente, os preços) de alta sociedade. Esta reforma do Estado está a revelar-se uma contrarreforma, um retrocesso do pensamento cívico, já que se está a escolher afastar a cultura e a cidadania em vez de as democratizarem.
Ainda assim, depois de tudo isto, há quem persista. Continuamos a ter escritores, pintores, cinematógrafos, encenadores. Mesmo com orçamentos miseráveis, com salas vazias, sem contratos, à norma da precariedade. Estes artistas continuam a existir porque reconhecem tanto a sua necessidade e urgência de expressão, como a dos públicos. É como gritou Ruy de Carvalho numa entrega de prémios, “Viva o teatro! E, viva o espetáculo! E, viva tudo o que é arte! E, viva a arca do tesouro que é a cultura portuguesa!”. E que viva sim, que seja celebrada, protegida, ensinada, e defendida. Sem cultura, um país não pensa, não cresce, não se conhece nem reconhece. E nós não queremos deixar de ser país.
Natan Melo
1 de Agosto de 2025
Perfeito!
Raquel Cortez
1 de Agosto de 2025
Bravo!!