The bridges of Madison County
The bridges of Madison County
Clint Estwood · 1995
Crítica de Gonçalo Ferrinho
Também incluída no Online exclusive, publicado em Setembro de 2026
Viver na memória pode ser, como diria o incontornável Jaime Pacheco, uma “faca de dois legumes”. Optando por uma marcação homem a homem, associa-se uma maior vulnerabilidade no ataque à profundidade. Escolhendo uma defesa zonal, abdica-se de uma maior intensidade, aceitando ser encaixotado pelo ataque adversário. Conceções perfeitamente válidas, com as suas particularidades, fazendo de difícil a escolha de um treinador capaz. Mas, mesmo sendo o futebol, por demais, poético, é necessária a devida tradução para o mundo cinemático onde “The bridges of Madison County” reside – como alguém com uma passagem tão efémera tem um impacto imensurável no redescobrir do “eu”, apontando pontes por onde cruzar, desafiando a típica confortabilidade do “deixar andar”.
“The bridges of Madison County” é mais um dos filmes do eterno “homem do poncho”, Clint Eastwood, adaptando, com toda a sua maestria, o romance de Robert James Waller. Encarregado de transformar uma paixão fervorosa de 4 dias num romance eterno, Eastwood foge do típico estoicismo associado, escarafunchando, de forma delicada, os meandros do toque subtil deste tipo de emoção. Foge do clichê sentimentalista, abordando, com maturidade, o peso das consequências do amor vivido e, sobretudo, do que ficou por viver.
Maryl Streep, assumindo o papel principal de Francesca Johnson, entrega, naturalmente, uma das melhores atuações da sua lendária carreira. De forma perspicaz, recusa optar por uma excessividade sentimental, brilhando, precisamente, nos olhares sorrateiros, nos sorrisos contidos e na frustração de quem amou num momento, obrigando-se a revisitá-lo porque, em última instância, não passa de um mero momento. Clint Eastwood, domando o seu herói implacável interior, apresenta-se com uma subtilidade estonteante, vivendo, honestamente, o papel de “homem do mundo”. Expondo a modesta beleza do apaixonar, assume a hercúlea tarefa de lutar contra a tentação de viver aquilo que lhe está “a um sim” de distância.
Centrando-se no conceito de “deixar ir”, o que torna “The bridges of Madison County” fascinante é o sabor amargo a que a realidade opera. Por muito complexo que cada um, no seu direito à pretensiosidade, ache que seja, tudo sempre se resume a uma simplicidade tirana do ser. Amar, como ato de se dar, dói. Muito. Sobretudo quando a incerteza se torna no único axioma que conhecemos. Porém, e com a ajuda da alargada javardice do meu conhecimento futebolístico, admito que a decisão correta seja dar um passo em frente. Mesmo que à frente esteja um precipício.
Doravante, nestes casos onde “não se joga nem se deixa jogar”, a decisão acertada é contemplar, aplicando de forma pragmática o estilo de jogo do mítico Leça – tudo ao molho e fé em Deus, esperando que, ao misturar sorte à inércia da bola, haja golo, e um ego menos ferido. Mas bom, o que sei eu? Ora, difícil de quantificar, mas acredito que a minha expertise resida não em futebol, tampouco em cinema, mas sim em marisco, nomeadamente no meu predileto, o tremoço.