The Revenant: O Renascido

The Revenant

Alejandro González Iñárritu · 2015

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Novembro de 2025

“The revenant” é, de forma bastante clara, um senhor filme. Dirigido por Alejandro González Iñárritu, esta obra cinematográfica revela-se muito mais do que um filme, transcendendo a simplicidade básica do “assistir”, propondo, assim, ao visualizador, o desfrutar de uma obra de arte.

Através da primeira cena, é estabelecido o tom do filme. Um ataque bárbaro de indígenas desfigura completamente toda a tripulação a que o nosso protagonista, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), pertence. Assim, já destabilizado todo o ambiente criado ao longo de meses de trabalho da tripulação, Hugh Glass assume a liderança, para frustração de John Fitzgerald (Tom Hardy), resolvendo guiar o que resta da tripulação até à sua base.

No entanto, num evento presumivelmente normal, Hugh é brutalmente atacado e praticamente morto por um urso. Neste momento agonizante, assistimos com assustador detalhe o desfigurar do corpo de Hugh, que em poucos minutos passa de líder a um fardo.

Encontrado pelos seus homens, este é transportado durante diversos dias pelo inverno rígido do Estados Unidos do séc.XVIII. No entanto, após perceberem que permanecer assim é insustentável, deixam Hugh ao encargo de John, Jim (Will Poulter) e Hawk (Forrest Goodluck), filho indígena do protagonista.

Após já vários dias aguardando pela melhora de Hugh, Fitzgerald desiste de esperar e tenta acabá-lo de forma, novamente, agoniante. Hawk, ao ver tudo, ataca Fitzgerald, perdendo, no entanto, a batalha, sendo rapidamente morto pelo antagonista. De forma rápida, Fitzgerald recolhe Jim, manipulando-o a pensar que estavam sob ataque de outras tripulações, e enterra vivo Hugh. Contudo, Hugh, resiliente (e com a ajudinha de um milagre ou dois), recupera lentamente, passando inúmeras peripécias na busca por vingança.
No momento final, num encontro inesperado onde Hugh pretende alcançar o seu objetivo final, rompe uma luta visceral entre ambos os homens, observando-se, de forma assustadora, o primitivismo que mora em todos nós.

“The revenant”, num ponto de vista temático, é muito mais do que do que uma história de vingança, sendo uma reflexão sobre o espírito de resiliência do ser humano, e como este desafia recorrentemente as adversidades que lhe são atiradas, de forma crua, à cara. Embora seja possível admitir que o tempo de filme transborda para o excessivo, nota-se que tal é feito com um objetivo claro: sentir o tempo e o peso da jornada de Glass, tornando a experiência mais autêntica e dolorosa.

Já do ponto de vista estético, o filme é uma verdadeira obra de arte. Desde o primeiro momento, o filme impressiona pela sua ambição. A cinematografia de Emmanuel Lubezki, premiada com um merecido Óscar, é misteriosamente deslumbrante. A utilização única de luz natural para todo o filme é uma decisão que ultrapassa o corajoso, no entanto, é excedida em qualidade invejável. O reforço do realismo é alcançado através de enquadramentos longos que, conjugados com a amplitude de paisagens, permite reforçar a sensação de isolamento e pequenez do Homem perante a imensidão da natureza.

Em suma, “The revenant” é uma obra de arte cinematográfica que combina maestria técnica, intensidade emocional e profundidade filosófica. É um filme que desafia o espectador a refletir sobre a resistência humana e a brutalidade da existência, enquanto oferece um espetáculo visual de rara beleza. Embora árduo e exigente, é também um testemunho poderoso da força do cinema enquanto expressão artística total.