Nos últimos anos, o fenómeno do empreendedorismo jovem tem ganho grande visibilidade, tanto nas redes sociais, como nos ambientes académicos e empresariais. Os jovens cada vez mais cedo aventuram-se no mundo dos negócios, através da criação de marcas, oferecendo serviços digitais ou mesmo na venda de produtos artesanais. Mas afinal, esta onda de jovens empreendedores representa uma tendência passageira, uma resposta à crise do mercado de trabalho ou uma verdadeira vocação?

A expansão da tecnologia digital tem facilitado o acesso a ferramentas que permitem a criação de negócios com baixo investimento inicial. A popularização de plataformas como o Instagram, o TikTok e o YouTube tem tornado possível a construção de marcas pessoais e a promoção de produtos ou serviços mais perto das grandes audiências. Esta nova configuração de mercado estimulou o crescimento de um perfil empreendedor jovem, frequentemente apresentado como independente, criativo e inovador. No entanto, o empreendedorismo juvenil, sobretudo na Europa e em países desenvolvidos, não se resume ao entusiasmo gerado pelas redes sociais.

Um fenómeno crescente associado a este empreendedorismo é o dos chamados “nómadas digitais”, isto é, indivíduos que trabalham remotamente enquanto deslocam-se por diferentes países ou cidades. Esta forma de vida, viabilizada pela digitalização do trabalho e pela globalização, tem atraído muitos jovens que valorizam a flexibilidade, a autonomia e a mobilidade.

Em Portugal, por exemplo, a taxa de empreendedorismo entre jovens permanece relativamente baixa quando comparada com países como os Estados Unidos ou o Reino Unido. Apesar disso, iniciativas como a Web Summit, realizada anualmente em Lisboa, têm colocado o país no mapa das “startups”, gerando um ecossistema mais dinâmico e internacionalizado. Ainda assim, muitos jovens portugueses recorrem ao empreendedorismo não por vocação, mas como alternativa à dificuldade de inserção no mercado de trabalho formal. O desemprego jovem, embora em queda, permanece elevado, conduzindo alguns para os negócios informais ou de subsistência.

A nível global, é possível observar tendências semelhantes. Em países da União Europeia afetados pela crise financeira, como a Grécia ou a Itália, o empreendedorismo jovem tem sido impulsionado pela escassez de oportunidades de emprego estável. Já em contextos como os Estados Unidos ou a Alemanha, observa-se um empreendedorismo mais orientado pela inovação, com jovens fundadores de “startups” tecnológicas e sociais que se destacam em setores como fintech (tecnologia financeira), saúde digital e energias renováveis. Estes casos revelam um empreendedorismo por vocação, frequentemente associado ao capital de risco, redes de mentoria e educação empreendedora desde o ensino básico.

Apesar de todo o entusiasmo em torno da imagem do jovem empreendedor, importa refletir criticamente sobre os riscos da sua romantização. O discurso dominante tende a ocultar as dificuldades reais de empreender: a instabilidade financeira, a sobrecarga emocional e a burocracia associada à criação de empresas são apenas alguns dos obstáculos enfrentados. Além disso, a ideia do “empreendedor nato” ignora a importância da formação e do suporte institucional. Estudos indicam que a maioria das “startups” não sobrevive aos primeiros três anos de atividade, muitas vezes devido à falta de planeamento e experiência de gestão.

Podemos, então, concluir que o empreendedorismo jovem resulta de uma combinação complexa entre tendência cultural, necessidade económica e vocação pessoal. Reduzir a uma única explicação seria ignorar as múltiplas realidades vividas por jovens em diferentes contextos socioeconómicos. Cabe às instituições de ensino superior, aos governos e à sociedade civil criar condições para que os jovens que desejam empreender possam fazê-lo de forma informada, sustentável e com impacto social positivo. Empreender não deve ser um refúgio nem uma imposição, mas sim uma escolha consciente apoiada por um ecossistema sólido.