Licenciou-se em Gestão na Faculdade de Economia do Porto (FEP). O que destaca do seu percurso nesta faculdade?

A FEP tem um nível de exigência que nos obriga a dar o melhor de nós em cada momento e essa foi uma lição que aprendi para a vida. Quando tirei a licenciatura, esta tinha uma duração de 5 anos, incluindo estágio profissional. Esta conjugação da teoria com a aplicação prática no meio empresarial foi excelente para garantir uma correta preparação para o ingresso no mundo do trabalho. Paralelamente, estive envolvida na AIESEC Porto FEP, uma associação internacional de estudantes que promove a paz e o desenvolvimento do potencial humano. Foi uma experiência única, que me fez crescer e que recomendo a qualquer estudante.

Em que medida as vivências e o conhecimento que adquiriu, não só ao nível das hard skills, mas também na sua experiência na AIESEC, lhe são úteis para o desempenho profissional quotidiano?

O curso de Gestão é abrangente nas suas áreas de domínio, preparando qualquer estudante para desenvolver carreira em áreas tão diversas como finanças, marketing ou recursos humanos. Lembro-me de ter sido questionada, numa das minhas primeiras entrevistas de emprego, sobre o significado do conceito de elasticidade. Fiquei muito satisfeita por ver efetivamente a aplicabilidade prática do que tinha aprendido. A AIESEC foi fundamental para colocar em prática o que estava a aprender no curso. Liderar o núcleo da FEP obrigou-me a elaborar planos de atividades, orçamentos, consolidação de contas, bem como gerir os recursos materiais e humanos. Acredito, por isso, que qualquer recém licenciado que tenha passado por uma experiência nesta, ou noutra Associação, poderá ter maior facilidade em adaptar-se ao mundo do trabalho.

Ganhou notoriedade pública por ter sido considerada a melhor aluna de MBA do mundo. Como se sentiu ao receber esse prémio?

Muito orgulhosa e com o sentido de dever cumprido perante a Porto Business School (PBS), perante a empresa onde trabalho e, acima de tudo, perante a minha família.

O que é preciso para atingir tal distinção?

Os critérios de avaliação baseiam-se fundamentalmente no registo académico, no percurso profissional e no potencial enquanto embaixadores do MBA. No meu caso concreto, acredito que a experiência profissional foi um fator distintivo, uma vez que influenciou os meus resultados durante o curso. No MBA, os próprios alunos fazem parte da experiência educativa. Na PBS, temos excelentes professores, acesso aos materiais de estudo mais relevantes em cada matéria e é proporcionado um ambiente de partilha de experiências entre os colegas extremamente enriquecedor. Pela minha parte, esforcei-me ao longo de todo o MBA por partilhar a minha experiência profissional, de forma a dotar de prática as abordagens mais teóricas.

Mãe de dois filhos e casada, afirmou numa entrevista que “no último ano não existiram tempos livres”. Foi fácil, aos 37 anos, conciliar a sua vida profissional e pessoal com as exigências subjacentes à sua condição de estudante?

Fácil não foi. Foi preciso muito planeamento a todos os níveis. Perceber, em cada momento, qual o papel mais importante a desempenhar para que nenhum dos três mundos – profissional, académico e pessoal – ficasse demasiado afetado. Claro que foi fundamental o apoio do meu marido, que é um ótimo companheiro e amigo, de uma verdadeira família e trabalhar numa empresa como a Sonae, que nos estimula e dá condições únicas para enriquecermos os nossos conhecimentos e colocá-los em prática.

Em que medida o seu conhecimento da realidade empresarial, através do desempenho do cargo de diretora de inovação da Sonae, constituiu uma mais valia para o seu excecional desempenho no MBA?

O MBA executivo da PBS apresenta um nível de exigência muito elevado que nos obriga a estar constantemente sob pressão. E isso, em si, já constitui uma enorme aprendizagem. Enquanto innovation manager da Sonae, lidero uma equipa multidisciplinar e todos os dias nos deparamos com novos desafios para resolver. Em paralelo, temos uma aprendizagem contínua sobre as melhores ferramentas e metodologias de trabalho. Sem dúvida que este ambiente de trabalho e preparação fez com que me sentisse confiante e preparada para responder com segurança aos desafios do MBA.

Após a conquista generalizada de reconhecimento, já estabeleceu a próxima meta?

Durante o MBA da PBS, temos a oportunidade de fazer um exercício de autoconhecimento e de planeamento do nosso desenvolvimento pessoal e, aí, identifiquei as minhas metas a atingir a curto, médio e longo prazos. É um exercício muito rico que nos obriga a declarar de forma transparente onde queremos chegar. Estou totalmente comprometida com este plano e farei o meu melhor para o atingir.

Qual é a sua fonte de inspiração para as exigências profissionais do seu cargo?

Tenho a felicidade de trabalhar numa empresa que é uma verdadeira escola de líderes e, nesse sentido, sinto-me continuamente inspirada pela minha equipa, pelos meus pares e pelos meus líderes.

Como olha para as empresas portuguesas e qual o papel que a inovação desempenha no seu seio? No seu entendimento, o tecido empresarial português é suficientemente criativo para enfrentar os desafios que a crise económica lhe coloca?

A inovação é fundamental para o desenvolvimento das empresas. O mundo está em constante mudança, as necessidades e as expectativas dos clientes são cada vez maiores e mais exigentes, pelo que é necessário que as empresas tenham capacidade de se reinventarem sempre que necessário. Em Portugal, vivemos uma realidade pouco homogénea, mas aparenta existir uma maior consciencialização sobre o tema da inovação. Na Sonae, a inovação faz parte da nossa cultura há décadas e existe sobre ela uma forte aposta, nomeadamente através da disponibilização das ferramentas e formação adequada.

Considera os salários uma motivação de curto prazo. Qual pensa ser o verdadeiro incentivo dos trabalhadores?

Essa é uma questão de uma enorme complexidade. O que acredito é que as pessoas se motivam de formas diferentes. A motivação depende do cruzamento de variáveis como salário, projeto individual de carreira, valores e visão da empresa, chefias, colegas, subordinados, bem-estar emocional, atitude individual, workplace… Também por isso ser líder é tão difícil… Um líder necessita de compreender quais, dentro desta multiplicidade de variáveis, são as mais importantes para motivar cada um dos membros da equipa. Não existe melhor resposta para a questão “o que motiva?” do que um vago “depende”. E, para aumentar a complexidade, estas motivações são dinâmicas. O que motiva um homem solteiro de 20 anos não é o mesmo que motiva uma senhora de meia-idade casada com dois filhos. Era isso a que me referia quando falava de motivações de curto prazo. Acredito que as pessoas procuram sempre mais e melhores condições, mas, uma vez satisfeitas as necessidades fundamentais e de segurança, privilegiarão também outras como a autoestima ou relacionamento pessoal.

É descrita no site oficial da AMBA (Association of MBAs) como detentora de uma “capacidade natural para estimular e inspirar todos à sua volta”. Julga que estas características são as fundamentais para se ser um bom líder?

Acredito que sim. Um bom líder tem que ter um rumo muito bem definido, saber para onde quer levar a equipa. Contudo, também tem que ter curiosidade intelectual, uma mente aberta a novas abordagens e ser um ótimo ouvinte. O mundo está em constante mudança e, como tal, características como agilidade na tomada de decisão, capacidade de adaptação e de antevisão são essenciais.

Em Portugal, os cargos de topo já são igualmente acessíveis a homens e mulheres ou ainda há um caminho importante a percorrer?

A minha experiência de trabalho é exclusiva na Sonae, onde trabalho há 14 anos. E, na Sonae, o reconhecimento dos colaboradores sempre foi feito pelo mérito, independentemente do género, uma posição na qual me revejo. A ascensão da mulher na sociedade e nas empresas está a acontecer naturalmente. Claro que todos sabemos que, historicamente, o papel dos homens e das mulheres era diferente. Mudar séculos de tradição não se faz por decreto… O que acredito é que vivemos num país, comparado com o resto do mundo, muito evoluído, e que hoje é mais fácil a progressão profissional das mulheres. Neste percurso, a formação superior será chave.

Do seu ponto de vista, a uma licenciatura em Economia ou Gestão deve seguir-se, de imediato, um mestrado ou uma primeira experiência profissional?

O MBA é uma formação especial, muito baseada em casos práticos, pelo que, na minha opinião, torna-se mais enriquecedora para quem tenha já alguns anos de experiência de trabalho. Por exemplo, uma disciplina de Gestão de Recursos Humanos não é aproveitada da melhor maneira por alguém que nunca trabalhou ou se deparou na prática com um sistema de avaliação e incentivos. Acredito que a experiência profissional que temos quando ingressamos no MBA pode ser um fator distintivo.

É mito ou realidade que as mulheres possuem um sexto sentido? Se sim, como o utiliza no seu dia a dia?

Não sei se temos um sexto sentido, mas, em regra, somos diferentes dos homens. E ainda bem! Temos outros interesses, vivências, formas de ver o mundo, o que molda comportamentos e atitudes. Não somos melhores nem piores, somos diferentes. Não acredito, sequer, que exista uma forma única de motivar e organizar recursos. Por vezes, será necessário um estilo mais “feminino”, noutras nem por isso.

O que a move e comove?

O que me move são os desafios e o processo de aprendizagem que eles nos trazem. Para mim, é importante sair da zona de conforto e pôr-me à prova em novos territórios. E, claro, aprender sempre, tornar-me cada vez mais completa e versátil. O que me comove é ver os meus filhos crescer, é ver as relações humanas, a solidariedade entre quem não se conhece… O que me comove é a vida.

O que vale realmente a pena na vida?

Fazer alguém feliz.