A Fórmula 1 sempre foi um território quase exclusivamente para homens. No entanto, o cenário começa a mostrar sinais de mudança com a criação da F1 Academy, uma categoria exclusivamente feminina lançada em 2023. Criada com o objetivo de preparar jovens mulheres para alcançar as categorias mais altas do automobilismo, a F1 Academy não representa apenas uma nova competição, mas sim uma tentativa de abrir espaço para talentos femininos num ambiente onde as oportunidades são praticamente inexistentes.

O projeto nasceu com apoio da própria Fórmula 1, por meio da Liberty Media, empresa que gere os direitos comerciais da principal categoria do automobilismo mundial. Esta relação institucional garante à nova categoria um nível de visibilidade superior, assim como uma infraestrutura e finanças estáveis, algo raro neste tipo de iniciativas. A ideia não é simplesmente competir no feminino, mas sim construir uma ponte entre o talento das jovens mulheres e os principais palcos do mundo do automobilismo.

O campeonato conta com cinco equipas de renome, como a Prema Racing, tendo cada uma três pilotos, totalizando uma grelha com quinze jovens entre os 16 e 25 anos. A proposta da categoria é clara: desenvolver, preparar e promover jovens talentos para que possam subir na pirâmide do automobilismo.

Como é de conhecimento geral, o desporto motorizado é muito dispendioso, sendo a cobertura de custos um dos grandes desafios . Na formação, o talento muitas vezes não basta, é preciso dispor de recursos financeiros avultados. Para tornar a entrada na competição mais acessível, a Fórmula 1 atribui um subsídio no valor de 150 mil euros por carro, aliviando uma parte significativa da carga financeira que recai sobre a família e os patrocinadores dos pilotos. Este apoio revela-se fundamental para democratizar o acesso e garantir que o fator económico não seja a principal barreira à entrada de novos talentos.

Para além da componente financeira, a F1 Academy precisa de apostar na sua visibilidade. Para isso, em 2024, a maioria das etapas do campeonato decorreram durante os fins de semana de corrida da Fórmula 1, em circuitos como Miami, Barcelona e Zandvoort. Isso proporciona maior exposição ao público e à mídia internacional, além de um contacto próximo com engenheiros e equipas da elite do desporto.

Outro aspecto relevante é a crescente entrada de patrocinadores interessados em associar as suas marcas à inclusão e diversidade no desporto. Marcas como Tommy Hilfiger e Puma já assinaram acordos com a categoria e com algumas pilotos. O envolvimento das marcas não é apenas simbólico, representa um investimento estratégico num público jovem cada vez mais diverso e interessado em desporto motorizado. Aliado a estas marcas está o patrocínio das próprias equipas da Fórmula 1 a, pelo menos, uma piloto da F1 Academy, o que cria um elo entre a base e o topo da pirâmide. A ideia é acompanhar as jovens desde cedo, formando não só atletas mas também embaixadoras das marcas. A própria gestão da categoria está nas mãos de Susie Wolff, ex-piloto, figura influente na F1 e mulher de Toto Wolff, diretor executivo da Mercedes e personagem querida do público da categoria.

No entanto, é importante não romantizar. A F1 Academy é um passo fundamental, mas ainda muito embrionário. Nenhuma mulher participa numa corrida da Fórmula 1 desde a italiana Lella Lombardi, nos anos 70, e as barreiras culturais e estruturais continuam a existir. Além disso, mantém-se uma grande questão: será uma categoria separada o caminho certo para promover igualdade ou apenas reforça a segregação?

Não existe uma resposta certa, mas podemos analisar os resultados práticos. Desde a sua criação, a F1 Academy tem permitido a jovens mulheres competir em condições técnicas e desportivas de alto nível. Os tempos por volta, o rigor da engenharia, a preparação física e a exigência estratégica não ficam aquém das categorias mistas. Para muitas destas pilotos, a F1 Academy representa a única esperança de entrar na mira de grandes equipas.

Com o apoio institucional da F1, o envolvimento crescente de patrocinadores e a evolução no desempenho das atletas, a F1 Academy já deixou de ser apenas uma “iniciativa de inclusão” e passou a ser uma verdadeira plataforma de formação de talentos. Se bem-sucedida, poderá servir de exemplo não só para outras categorias do automobilismo, mas também para diferentes modalidades desportivas onde a igualdade de oportunidades ainda é uma meta distante.

As luzes já estão verdes para a nova geração do automobilismo. Agora, o desafio é manter o ritmo, garantir a sustentabilidade do projeto e, acima de tudo, abrir caminho para que seja o talento e não o género a determinar quem termina no pódio.