Opinião de Mariana Costa
Artigo exclusivo do site, publicado em Abril de 2025
São dias, semanas e, para muitos, meses. Por vezes, nasce de uma mera curiosidade por enfrentar o desconhecido, da vontade de levantar do sofá ou simplesmente da oportunidade de aprender. O fim de um caminho, qualquer que seja, traz sempre consigo desafios. Mas as marcas que ficam transformam-nos, pois o verdadeiro impacto não está no que vivemos, mas sim no que nos tornamos depois. Então, o que fica dentro de cada um quando acaba? Como se deve fazer disto uma vida?
O voluntariado inquieta. Quem o faz não fica indiferente. Pode ser definido como “o conjunto de ações de interesse social e comunitário realizadas por pessoas de forma voluntária”. Cada vez é mais comum as pessoas, sobretudo os jovens, participarem em práticas de voluntariado. Acredito que o façam não por ser uma “coisa da moda”, mas porque veem realmente o papel de ser voluntário como uma possibilidade de ajudar o outro, ao mesmo tempo que lidam com contextos e realidades diferentes da sua e que indubitavelmente os fazem crescer.
Desde os meus quinze anos que tenho vindo a participar com frequência em diferentes projetos de voluntariado. Desde ações com crianças e idosos, até reconstruções de casas e missões internacionais. Para além de sentimentos como a felicidade e a gratidão que tão bem caracterizam estas experiências e que são bem capazes de moldar os nossos valores, em todas elas senti sempre um enorme vazio. Por saber que quando acabassem já não iria mais contribuir da mesma forma como durante o tempo em que lá estive e que aquilo não passava de um mero projeto de voluntariado, sentia este vazio. Às vezes até podemos cair no erro de confundir isto de ser voluntário como ser um herói. No entanto, rapidamente nos apercebemos que, quando termina, as pessoas que lá ficam voltam às suas rotinas assim como nós. É uma sensação de missão cumprida ao mesmo tempo que nos sentimos desorientados.
O processo de desacoplamento entre a experiência vivida e o retorno ao dia a dia pode ser um grande desafio. Penso que grande parte das pessoas que já foram voluntárias se questionou sobre o que é que podia fazer para aquilo não acabar ali ou pelo menos refletiu sobre como poderia dar continuidade ao que viveu mas de outra forma. A verdade é que esta reflexão muitas vezes não passa disso. Não passa para a nossa vida, para o nosso meio ou para as pessoas que gostamos. Mas se queremos realmente fazer a diferença e ser agentes de mudança então não podemos deixar que isto seja só mais uma experiência para o nosso currículo. O voluntariado só faz sentido quando somos capazes de trazer connosco o que aprendemos para a nossa casa, cidade, família e amigos. Seja a ajudar nas tarefas domésticas, a fazer companhia a algum familiar que está mais sozinho ou a ajudar um amigo que está a passar por uma má fase. O verdadeiro voluntariado é este. É o voluntariado de uma vida.
“O processo de desacoplamento entre a experiência vivida e o retorno ao dia a dia pode ser um grande desafio.“
Nas palavras da Missão País 2025: “E que esta não seja só mais uma missão na nossa vida, mas que façamos da nossa vida uma missão”. Não tenho dúvida de que se todos olharmos para o voluntariado como uma oportunidade para sermos melhores no nosso quotidiano com todos os que nos rodeiam, certamente faremos parte de um mundo mais empático e solidário. As memórias da experiência ficam sempre guardadas em nós, mas o poder do voluntariado é justamente o caminho que decidimos percorrer depois dele.
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