Opinião de Sofia Condez Alves
Artigo exclusivo do site, publicado em Outubro de 2025
“O lar está atrás,/ O mundo à frente,/ E há muitos caminhos a trilhar/ Pela sombra/ Até ao termo da noite,/ Até que todas as estrelas estejam iluminadas./ Névoa e escuro/ Nuvem e sombra/ Tudo irá desaparecer/ Tudo irá… desaparecer.”
J. R. R. Tolkien em Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel
É estar à beira de algo imenso. Começar a escrever um artigo, escolher um percurso de vida aos dezoito anos (tecnicamente, aos quinze). Os momentos antes da ida são esquisitos – temos os pés ainda assentes em solo familiar, mas a estrada tijolada a amarelo estende-se pela frente, enevoada. Podemos achar que vemos algo ao longe, talvez um castelo, ou as montanhas, mas o nevoeiro não nos permite saber de nada. Talvez, se conhecêssemos o destino, não caminharíamos, mas é a esperança que nos ajuda a pegar nos livros e nos sonhos. E partir.
Cedo percebemos que a estrada que percorremos começa a ter buracos, troços não alcatroados, animais no caminho. Durante o secundário, a disparidade entre alunos numa turma é notória. Sendo a escolaridade obrigatória, e a escola frequentada muitas vezes escolhida por conveniência dos pais, acabamos por conviver com colegas com objetivos e ideias muito diferentes. Já na universidade, há maiores parecenças, tanto nas médias de entrada, como nos sonhos. Se antes tínhamos algo a que nos agarrávamos por nos fazer “únicos”, é aqui que o perdemos.
Esta perda, que muitas vezes é associada ao nosso self-worth, reflete-se na maneira como nos passamos a transformar para caber em moldes iguais, para perseguirmos metas semelhantes. Na universidade, e, em especial, num curso na área de Economia, somos de imediato atirados para a competitividade do mercado de trabalho. Aprendemos exatamente o que as empresas esperam de nós, e tornamo-nos nisso. Claro que é importante a adaptação ao emprego e à vida adulta, especialmente em relação aos nossos objetivos para o futuro, mas nunca a custo de nós próprios.
O burnout é definitivamente uma das palavras da década, e devemos começar a questionar se as nossas ambições não nos estão a matar lentamente.
Em 2023, foi relatado pelo Observador que 80% dos trabalhadores em Portugal apresentam pelo menos um sintoma de burnout, e, segundo um estudo desenvolvido pelo Observatório dos Ambientes de Aprendizagem Saudáveis e Participação Juvenil, estima-se que mais de metade dos estudantes universitários revelem o mesmo. Esta palavra refere-se a uma “entidade que pode surgir como resposta à exposição a um stress laboral crónico” (CUF), ou seja, uma exaustão emocional e física resultante de elevadas exigências a nível profissional ou pessoal. Desta síndrome surgem problemas cognitivos, comportamentais, sociais, e até existenciais, muito difíceis reverter.
Alguém mais velho poderá argumentar que, no seu tempo, as coisas eram mais complicadas, considerando que hoje em dia há muitas mais oportunidades para estudar e para viver com liberdade do que havia mesmo há 20 ou 30 anos atrás. Mas, com a evolução dos pensamentos, também o resto mudou. De facto, o mundo gira cada vez mais rápido. E, quanto mais rápido vai, mais são os soldados que deixa para trás. As exigências do sucesso atuais não são concebidas para ritmos humanos comuns. A fasquia está tão elevada que a sensação é que só máquinas conseguiriam acompanhar tal velocidade e tal exigência. Herdamos, nesta geração, céus pesados de fumo por uma sociedade que prioriza apenas o lucro, a eficiência e a otimização.
A nossa norma social atual é que todos os minutos que não passamos a trabalhar para o sucesso, são minutos desperdiçados. Até hobbies estão a ser convertidos em oportunidades de monetização. Vídeos e artigos do tipo “Eis como otimizar o teu estudo”, “Segue estas dicas rápidas para seres mais organizado”, “Como maximizar as horas do teu dia”, apesar de úteis e até necessários por vezes, pressionam-nos a moldar a nossa vida à norma dos outros, perpetuando ciclos infinitos de burnout.
Ao colocarmos todo o nosso self-worth em sermos melhores, e porque muitas vezes falhamos, tornamo-nos amargos. O individualismo cresce e a qualidade das nossas relações sofre. As pessoas e as conexões passam a ser avaliadas pelo seu valor utilitário, e nós começamos a vê-las como “assets”. Perdemos, até, o incentivo a relacionarmo-nos com pessoas “inferiores”, ou seja, com nenhuma característica que contribua para a nossa otimização, porque deixamos de encontrar utilidade na simples conexão humana.
Quando tudo é um asset, incluindo nós mesmos, e todos funcionamos à volta da Eficiência, porque esta trabalha para o lucro, tornamo-nos apenas peões no grande jogo do Capitalismo. A razão pela qual este não se sustenta a longo prazo é sua incapacidade de parar, de ficar satisfeito. Esta ideologia requer crescimento constante: depois de termos automatizado processos de fabrico e de termos afetado todos os trabalhadores desses setores, os cortes lucrativos chegaram aos empregos de “escritório”. Com a Inteligência Artificial, capaz de escrever vinte relatórios (apesar de medíocres) no tempo de uma pessoa escrever um, deixam de ser necessários vinte funcionários, mas apenas o que opera o computador.
A agricultura moderna é um dos maiores exemplos do burnout provocado pela insistência na otimização. A agricultura requer paciência e cuidado com os solos. No entanto, agora, os anos de descanso dos solos são ignorados ao ponto de ser previsto que, eventualmente, a maioria dos terrenos utilizados hoje serão insalubres e inférteis durante muito, muito tempo. Este paralelo evidencia o risco humano: ao não respeitarmos os nossos limites, ao não fazermos pausas, sobrecarregamos a nossa mente e o nosso corpo, ficamos à mercê de nos tornarmos inócuos.
Reparamos, então, na nossa caminhada, que as árvores estão já secas e as montanhas queimadas. Surge-nos, então, um acompanhante de estrada: o Medo. Depois de muitos erros e da desconexão das pessoas reais, é fácil acreditar nos sussurros de que não somos suficientes e de que o fracasso é inevitável. É aqui que nos começamos a apoiar em fantasias. De forma a ignorar a vida real, caímos no incansável ciclo do doomscrolling e de invejar as vidas alheias.
Em vez de enfrentarmos o cansaço, a frustração, e o aborrecimento, experiências necessárias para que possamos refletir e crescer, os nossos cérebros procuram constante estimulação. Esta evasão, este não retirar momentos de descanso sem ecrãs, levam à irritabilidade e à amargura. Ao invejarmos e julgarmos quem não conhecemos nas redes sociais, reforçamos um certo nível de toxicidade que nos desfoca o sentido de empatia pelo próximo.
Sonhar é mais fácil do que agir. Este é o maior truque do medo: fazer-nos acreditar que nem vale a pena tentar, imobilizar-nos na cama do nosso quarto. Assim, da forma que existimos no mundo neste momento, fazemos demasiado e a menos ao mesmo tempo, e continuamos a sentir que não pertencemos exatamente a onde estamos.
Se me restam ainda palavras nesta jornada, devo usá-las num tom mais positivo. No meio de toda esta confusão, é cada vez mais evidente que o ser humano procura a conexão humana. Apesar de tudo estar a ser feito para que esta seja reduzida, por o individualismo ser mais eficiente, devemos lutar contra isso. É a gargalhada de um amigo o sol que brilha no derradeiro momento da batalha. É a comunidade com que nos rodeamos que nos consegue dar um sentido de pertença.
É incerto se alguma vez a névoa e o escuro que vivemos desaparecerão, mas há que, de qualquer forma, pela dúvida e pelo cansaço, avançar. Porque temos o mundo à frente e há muitos caminhos ainda a trilhar.
Francisco
16 de Outubro
Um artigo sobre nada que tudo tem lá dentro. Numa beleza com a tristeza dos caminhos pelos quais o mundo anda. Tão importante e tão lindo, parabéns
Natan Melo
4 de Outubro
Uma obra de arte em forma de texto
Joaquim Chaves
3 de Outubro
Muito bom
Parabéns