A maior competição de futebol europeu, a UEFA Champions League, que já ocorre há quase 70 anos, sofreu grandes mudanças no seu formato já considerado “tradicional”. Este novo formato, que entrou em vigor no começo desta temporada 2024/25, busca aumentar a quantidade de clubes participantes no torneio, o número de jogos totais e, obviamente, o montante total de dinheiro movimentado.

O antigo sistema com 32 clubes foi totalmente remodelado e o formato que já vigorava desde 2003, chegou ao seu fim. Agora, com 36 clubes no torneio, todas as equipas estão distribuídas numa mesma tabela de pontos corridos. Desta forma, cada equipa precisa enfrentar 8 adversários diferentes que foram definidos através de um sorteio para somar pontos e conquistar posições para avançar de fase, competindo com todos os outros 35 clubes pelas vagas de acesso. Após estas oito rodadas, os 8 primeiros classificados já garantem uma vaga nos oitavos de final; os clubes que ficarem de 9º a 24º lugar precisam de jogar uma fase extra de play-off para conseguirem avançar aos oitavos; os últimos 12 colocados são eliminados. A partir deste instante, tudo irá seguir de igual modo, através de jogos de eliminação divididos em dois encontros, até à final.

O formato inédito pode ter causado estranheza a princípio para muitos torcedores, mas quais são as reais consequências destas mudanças? Para começar, apesar de haver um aumento de apenas quatro clubes na competição, o número total de jogos (sem contar qualificações prévias para o torneio) foi de 125 para 189. Além deste aumento de mais de 50% de partidas, outro aspeto verificado foi o aumento dos chamados “grandes jogos”. Um exemplo disto foi a partida realizada na Jornada 3 entre o Real Madrid e o Borussia Dortmund, jogo este que foi uma repetição da final da edição passada. Assim, neste novo formato haverão mais jogos emblemáticos ao longo de todo o ano.

Todavia, nem sempre mais é melhor. Com o aumento significativo de jogos em competições continentais, somado ao acréscimo de partidas pelas seleções internacionais, juntamente com o novo Mundial de Clubes FIFA que começará no ano que vem, há uma preocupação verdadeira entre os atletas sobre como haverá tempo no calendário para todas estas atividades e se eles terão condições para manterem um bom físico a fim de evitarem lesões. E a resposta é simples, não terão. Vários clubes já têm sofrido atualmente com inúmeras baixas médicas e muitas são causadas por jogarem 2 ou até 3 jogos numa mesma semana, não havendo um tempo saudável para que os atletas se recuperem. Um dos comentários que mais se repercutiu nas redes sociais foi de Rodri, jogador do Manchester City, atual vencedor do Ballon d’Or, que afirmou, em setembro, o seguinte: “O campeonato atual é, na minha modesta opinião, excessivo. Temos de cuidar de nós próprios, somos os protagonistas deste desporto, ou deste negócio, como lhe queiram chamar” e, coincidentemente, pouco tempo depois, o mesmo jogador sofreu uma lesão grave que o deixará de fora do futebol pelo menos até ao fim desta temporada.

Se a situação para os jogadores piorou, em contrapartida não se pode dizer o mesmo para os clubes. Mais jogos originam mais receitas e maior visibilidade para eles. Desta forma, até mesmo equipas menores que participam esporadicamente do torneio são também favorecidas. E, além disto, a UEFA decidiu aumentar ainda mais as premiações neste ano. Assim, apenas por se classificar para o torneio, todos os clubes recebem 18,62 M€ (antes eram 15,64 M€) e têm a chance de receber montantes adicionais de acordo com os seus resultados e progressos na competição. Ao todo, o vencedor da Champions League poderá ganhar até 96,2 M€, fora os lucros externos gerados por bilheteiras.

Por fim, a entidade verdadeiramente favorecida pelas novas mudanças é a própria UEFA, já que com mais jogos, com resultados mais imprevisíveis e com cada vez maiores confrontos ao longo do torneio, é a UEFA quem recebe maior visibilidade a nível internacional e, consequentemente, mais rendimentos pela competição que atrai milhões de espectadores por todo o mundo. Desse modo, será que essa alteração na UEFA Champions League foi realmente feita visando a melhoria do desporto? Sendo assim, será que o futebol ainda é um desporto ou já é apenas um negócio?