Nas últimas décadas assistimos a uma transformação silenciosa mas decisiva no seio da ciência. A visão materialista tem vindo a ser desmontada, o que abriu caminho para uma visão integrada mas espiritual da realidade.

Desde o século XVI, com o Heliocentrismo de Copérnico e Galileu, o paradigma dominante da ciência assentou num materialismo estrito que reduzia o universo a uma imensa maquinaria, regida por leis deterministas e matéria tangível. Esta visão, consolidada posteriormente nos séculos XVIII e XIX com a Teoria da Gravitação de Newton, o Determinismo de Laplace e a Seleção Natural de Darwin, moldou não apenas a ciência, mas também a cultura, a educação e até a espiritualidade – esta última empurrada para os domínios da superstição ou da irracionalidade.

Contudo, os progressos científicos do século XX trouxeram uma revolução silenciosa mas profunda do pensamento. A teoria da termodinâmica, confirmada pela descoberta da expansão acelerada do Universo, implica que o Universo teve um início – o que, por sua vez, pressupõe um criador. A teoria da relatividade de Einstein afirma que o tempo, a matéria e o espaço estão intimamente ligados – a existir uma origem do Universo, ela terá de ser atemporal, não espacial nem material. Desde o Big Bang à passagem do inerve ao vivo, passando também pelo ajuste fino do Universo, diversas foram as descobertas que foram desmontando os alicerces dessa visão estritamente materialista.

“(…) é a própria ciência – e não a rejeição dela –, que tem permitido o regresso da espiritualidade com uma nova dignidade.”

A física quântica, através da constatação de que o observador (consciência) influencia o observado – ou seja, as partículas subatómicas comportar-se-iam ora como partículas ora como ondas (reconhece que a consciência tem um papel estruturante no Universo, longe de constituir um mero subproduto da matéria). No campo da neurociência, a investigação sobre os estados elevados de consciência, a meditação e as experiências de quase morte trouxeram para debate a visão de que a mente não pode ser completamente explicada por mecanismos cerebrais.

Dessa forma, é a própria ciência – e não a rejeição dela – que tem permitido o regresso da espiritualidade com uma nova dignidade. Não se trata agora de dogmas ou crenças irracionais, mas de uma espiritualidade crítica e aberta, que vê no Universo uma realidade viva, dinâmica e permeada por sentido. Estes novos horizontes têm implicações profundas, desde a consciência da interconexão entre todos os seres e da natureza participativa da realidade – o que, por sua vez, promove uma ética mais compassiva, uma ecologia mais respeitosa e uma valorização da interioridade que o materialismo havia eclipsado. Assim, a ciência ao reconhecer que a matéria não é a única realidade, restitui à espiritualidade um lugar legítimo na busca do conhecimento.

É preciso salientar que a derrota da materialidade não implica o triunfo do irracional (muito pelo contrário), mas sim a maturação da ciência, mais humilde e inclusiva, e mais próxima de uma sabedoria integrada. É nesta convergência entre a ciência e o desenvolvimento espiritual que talvez seja possível desenhar o próximo passo da humanidade – a descoberta do espaço interior, onde a matéria, o tempo e o espaço não dominam a realidade. O século XXI traz a oportunidade de reconciliar o Homem e o mistério que o habita. Tal como Einstein afirmou “a ciência sem religião é coxa, e a religião sem ciência é cega”. Terá o grande génio acertado uma vez mais?