Opinião de Martim Pereira
Artigo exclusivo do site, publicado em Setembro de 2025
A maioria reforçada da AD entrou em funções com confiança. Face à nova composição parlamentar e dado que os ministros se mantêm, grosso-modo, os mesmos, esta pujança pode parecer infundada. Este artigo serve como uma tentativa de identificar aquilo que servirá de ativo ao governo e aquilo que o ameaça.
As eleições de 2025, possivelmente as mais inusitadas até hoje, abanaram a nossa composição parlamentar como nunca antes. Com a descida do PS para a terceira posição, a situação dos lutadores pelo proletariado deixa a desejar. Ao que parece, o proletariado já elegeu outro lutador. O Chega, conta com completa hegemonia sobre os territórios mais rurais e com menos escolaridade. Ao ritmo a que o partido cresce, é natural que Ventura sinta que Montenegro só lhe está a aquecer a cadeira.
O Chega obteve uma votação expressiva nestas eleições, sendo natural que tenha agora um papel mais significativo. Dito isto, Montenegro acena a Ventura com a alegórica “pasta da imigração” e assume uma aproximação ao partido de Ventura nesta matéria. À superfície, os dois parecem nutrir uma relação como a do Mufasa e do Scar em O Rei Leão. Ventura conspira contra o primeiro-ministro de forma “cartoonesca”, enquanto Montenegro o trata como se fosse o seu braço direito. Parece-nos ingénuo que o governo, só porque se aproxima do Chega, ache que o partido de Ventura vá passar a ter os seus interesses em consideração.
Vimos um exemplo desta farsa há pouco tempo. A propósito da reforma da lei laboral, observámos uma AD claramente mais cínica quanto a certas ajudas do estado. Não querendo conotar a Ministra do Trabalho como simpatizante do Chega, é apenas denotar que a AD assumiu uma posição com que o Chega se identificaria. Face a esta situação, em que, de propósito ou não, o governo quase que pisca o olho a Ventura, este reage criticando fortemente o governo e puxa-lhe o tapete.
Caso o governo seja ríspido, Ventura será dramático e chamá-lo-á de tirano; caso seja afável, será agreste e chamá-lo-á de frouxo. É a maior ameaça a Montenegro. Ventura chega sempre primeiro aos jornalistas, continua a dominar a discussão política no espaço digital e percorre as zonas ardidas enquanto o fogo ainda está em rescaldo. O primeiro-ministro, face a isto tudo, parece inerte–mas só parece.
Seria ingénuo assumir que a classe política, em particular a portuguesa, tem tão pouco sentido de autopreservação. Este parece-me ser o jogo da AD. Reconhecem, e com sensatez, que o Chega tem hegemonia sobre os antidemocráticos e os odiosos. Não me parece que estejam a tentar contestar esse eleitorado com eles. Nesse aspeto, o Chega veio para ficar. Mas há definitivamente uma porção do seu novo eleitorado, muita da qual se desenamorou do PS, que pode ser capturada pela AD.
O governo está na mó de baixo, a tomar todas as medidas impopulares no início na esperança de colher dividendos no futuro. E, ao aproximar-se do Chega naquelas que eram as suas bandeiras, dá-lhe a chance de se dizerem os donos da razão. No entanto, conforme os anos de governação forem passando, pode ser que uma subida do poder de compra convença os portugueses. Porém, atribuir a “pasta da imigração” ao Chega poderá mostrar-se uma faca de dois gumes. Que moral tem Ventura para se indignar com o estado da imigração, quando esteve largamente envolvido no seu controlo?
O governo também provou que deixar o Chega à solta é bastante ilusório. A AD pode facilmente retirar-lhe posições mais conservadoras que estejam abrigadas pela Constituição. Isto obriga o Chega a operar para além dos seus limites, embatendo constantemente com o Tribunal Constitucional. O que deixa os radicais inquietos, e, por conseguinte, os moderados alienados.
“Que moral tem Ventura para se indignar com o estado da imigração, quando esteve largamente envolvido no seu controlo?“
Montenegro e Ventura têm, portanto, uma aliança muito pouco amistosa. Falta equacionar o partido socialista. O PS está numa posição que lhe é pouco familiar: nem governo, nem líder da oposição. Resta-lhe agora reconquistar eleitorado. Infelizmente para José Luís Carneiro, os conflitos internos do partido não expressam a estabilidade que aqueles que desertaram procuram, e, a campanha do partido, quando comparada à dos seus opositores, é no mínimo arcaica. O PS faz campanha contra o Chega e tem de provar aos eleitores que a responsabilidade de substituir o governo cai sobre si. Enquanto o Chega conta com memes e publicações nas redes sociais, José Luís Carneiro percorre o país pela Nacional 2. Isto mostra o quão parado no tempo o PS está. Enquanto o seu secretário-geral passa uma semana a ir de Faro a Chaves, o Chega faz campanha visível para o mundo inteiro em questão de segundos.
Existe um grupo de eleitores de centro que a AD pode perder para o PS caso os problemas na habitação e na saúde não sejam mitigados. Para este efeito, retirar relevância aos tópicos fraturantes é mais uma das formas em que a paz podre com o Chega funciona favoravelmente para a AD. Por outro lado, numa troca de papéis inesperada, o PS tem menos responsabilidade governativa que o Chega. Caso os socialistas consigam “colar” o Chega ao governo, têm chance de recuperar o seu eleitorado do interior e sul do país.
Dito isto, quer-me parecer que o verdadeiro problema do PS está na renovação dos eleitores. Aos olhos dos jovens, o PS é inerte e antiquado. Poderia, lentamente, trabalhar nesta frente, e a terceira posição pode ser uma boa oportunidade para isso mesmo. No entanto, talvez a chave para a renovação de eleitores passe pelo partido de Rui Tavares. O Livre, um partido jovem, tem como maior obstáculo a nacionalização, apesar de estar lentamente a conquistar mais distritos. O PS pode oferecer-lhes essa nacionalização, e o Livre pode, em troca, rejuvenescê-los.
Sem uma segunda geringonça à vista, os partidos à esquerda do PS estão condenados a fazer oposição inócua. O Livre poderá funcionar como um CDS para o PS, em vez de esperar por um acordo pós-eleitoral. Poderá ser aquilo que nivela a corrida, e talvez o único dos outros partidos que vá ter qualquer influência sobre a governação seguinte.
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