O Dr. Daniel Bessa foi estudante e posteriormente lecionou na FEP. Na sua opinião, qual é a vantagem que os estudantes que não pretendem seguir a via académica, ou seja, as pessoas que pretendem ingressar no mercado de trabalho, podem retirar de um curso de economia ou gestão na FEP?

No meu caso, eu fiz uma carreira muito académica, portanto qual é a vantagem para os outros. Vamos ver, eu penso que a frequência de uma licenciatura e a aprovação com êxito, e hoje já não é apenas uma licenciatura mas na grande maioria dos casos uma licenciatura e um mestrado, é um instrumento, é um elemento de comunicação e um ativo. Entre outros.

No meu tempo a licenciatura podia ser um ativo decisivo, mas hoje há outros elementos que são comunicados, experiências diversas, é muito valorizado o que foi fazendo na área circum-escolar, as atividades associativas e outras à volta da licenciatura; experiências pessoais, vivências, correu o mundo ou não correu o mundo, fez ERASMUS ou não fez ERASMUS, já teve alguma experiência profissional não teve uma experiência profissional…Depois às licenciaturas estão associadas imagens: a ir a extremos, digamos assim, se uma pessoa comunicar que é licenciada por Harvard, qualquer um que esteja do lado de lá sente-se seguro e tira logo dali um conjunto de informações ou de implicações positivas. Se pelo contrário disser que vem da Universidade Independente e que foi colega do Engenheiro Sócrates, enfim, não sabe o que está a dizer porque mais valia não dizer nada, porque isso transmite um conjunto de sinais extremamente negativos, de práticas pouco exigentes, enfim, para dizer o menos.

A licenciatura como tal é um elemento e depois há licenciaturas melhores ou piores. Em Portugal, dizer que é licenciado pela FEP talvez tenha algum significado, e talvez as pessoas atribuam a isso alguma importância e talvez distingam entre FEP e ISEG, e ISCTE, e Nova, e Católica…se passarmos de Badajoz para lá, não tenho a certeza que FEP comunique grande coisa. Eu talvez preferisse dizer que era licenciado em Economia pela Universidade do Porto. Porque isso traz à cabeça de quem ouve uma série de informações e de conotações e portanto eu tenho dito que não me envergonho de ser licenciado pela Universidade do Porto, digo isso com gosto, e com honra pelo mundo adiante, e cá dentro também não me envergonho de ser licenciado pela FEP, digo isso com gosto e com honra. Sendo certo que há melhores universidades que a UP por esse mundo adiante e talvez haja melhores escolas que a FEP em Portugal.

Depois de deixar a FEP continuou ligado a instituições de ensino superior.

Ora bem, eu aí tive uma experiência que hoje é considerada horrível e que não deveria acontecer, porque eu licenciei-me na FEP em junho ou julho de 1970, tinha 22 anos, acabei uma licenciatura de 5 anos, e como era um dos melhores alunos do meu curso uns dias depois o director da faculdade chamou- -me e convidou-me a dar aulas. E portanto eu deixei de ser aluno em junho ou julho e em outubro estava a dar aulas. Na mesma escola. E isto hoje é considerado uma prática péssima porque eu não tinha mais experiência nenhuma, não fui posto à prova num ambiente agressivo.

Mas sente que a falta de experiência que naturalmente tinha ou sentiu poderá ter influenciado negativamente o início?

Há quem fale nos melões que só se vê se são bons depois de abertos, ou dos bilhetes de lotaria que a pessoa só sabe se são premiados depois de feito o sorteio. Eu acho que às vezes as coisas correm bem e às vezes correm mal, e quando contratamos alguém rodeado de todos os cuidados também não é certo que corra bem, agora, a probabilidade de que no primeiro caso corra mal e no segundo caso corra bem parece-me maior. Eu acho que desde cedo gostei de dar aulas, portanto revi-me nisso. Eu já tinha uma experiência desse tipo porque ganhei a minha vida como explicador, dava explicações a partir dos 12 anos de idade.

O meu primeiro aluno tinha eu 12 anos, ele tinha 11, foi assim que comecei a dar explicações. E dei explicações das matérias todas, portanto no ensino secundário eu tomava conta de um aluno e era português, era inglês, era francês, era ciências, era matemática, era geografia, eu cuidava dele, era uma espécie de perceptor, quase como os bebés ingleses têm, era uma ama, ou um tutor, era um tipo a quem os pais pagavam e entregavam os miúdos e eu tinha que lhes ensinar, nalguns casos, as matérias todas.

Depois na FEP, durante a licenciatura, eu dei explicações das disciplinas todas. Do primeiro ao quinto ano, dei explicações na FEP enquanto aluno a alunos mais novos, contabilidade, economia, direito, matemática. Portanto, eu tinha muita experiência, digamos assim, pelo que acho que não correu muito mal a atividade letiva propriamente dita. Depois envolvi-me muito na gestão universitária, na administração universitária, mas isso é uma outra questão. Na FEP, entrei lá em 70, o 25 de abril foi em 74 e eu presidi ao Conselho Diretivo da FEP logo por aí.

Deixei essa actividade de administração universitária na FEP em 80, já tinha sido presidente do conselho directivo, portanto também tive essa experiência de administração universitária e depois há a terceira componente que é a componente da investigação onde eu tive um desempenho miserável. Doutorei-me muito tarde, tinha 38 anos, acho eu, quando me doutorei no ISEG, e depois não fiz mais carreira. Ficou por ali, eu tinha uma curiosidade muito grande pelo mundo exterior e passei a trabalhar noutras coisas.

Mas mantive sempre a costela da administração universitária, portanto estive no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, na criação da Escola de Tecnologia e Gestão, e aquela que acho que é a experiência da minha vida, de que eu talvez goste mais, é a experiência da Escola de Gestão do Porto, chamava-se assim nessa altura, agora chama-se Porto Business School, e que eu dirigi durante 10 anos e correu realmente muitíssimo bem. Mas nada disto era certo nem previsível quando fui recrutado em 70 para dar aulas na FEP. O que eu quero dizer é que se correu bem foi muito por acaso porque com processos como esses a probabilidade de correr mal é muito grande.

Como já referiu licenciou-se em 1970 e começou a dar aulas nesse mesmo ano. Durante os anos que se seguiram Portugal viu muitos processos a nível político e social que implicaram grandes mudanças, a começar com o 25 de abril em 1974. De que maneira é que estas mudanças influenciaram o ensino universitário e em particular a FEP?

Deixe-me precisar, eu estive realmente na FEP até 99, e até ao doutoramento fui um docente em exclusividade. Não era full-time era life-time como dizia lá o professor Rui Conceição Nunes que era um outro histórico da FEP. Depois em 86 com o doutoramento comecei a fazer outras coisas mas a FEP mantinha-se a minha atividade principal. Em 95 deu-se a ida para o governo e no regresso eu voltei à FEP, já não seria a atividade principal, mas eu continuava docente. Depois aí é que fui requisitado pela Escola de Gestão e aí deixei de dar aulas à FEP.

Quis regressar, quando resolvi terminar a carreira eu transmiti à FEP que queria terminar a carreira na casa, na cadeira de primeiro ano de economia que foi onde eu sempre gostei mais de funcionar e onde tive milhares de alunos…mas a FEP mandou-me para o curso de jornalismo portanto não dei lá mais aulas, fui, digamos assim, terminar a carreira no curso de jornalismo. Bem, o que mudou… eu acho que mudou quase tudo, vamos lá ver, quando eu comecei a dar aulas um aluno inscrevia-se numa cadeira e comprava uma sebenta. Hoje já não há sebentas, mas o que era uma sebenta? Uma sebenta era uma publicação, normalmente em fascículos, onde se reproduziam as palavras do professor. Normalmente o professor dava aulas um primeiro ano, nesse primeiro ano não havia nada, haveria muito pouco com que estudar, o professor chegava lá e dizia o que tinha a dizer.

Quando as coisas ganhavam alguma continuidade havia um aluno que tomava notas e nos anos a seguir começava a aparecer impresso o que o professor tinha dito. E que ia voltar a dizer. E tanto valia ir à aula como ler a sebenta, porque o que ele tinha para dizer estava lá. Havia uma biblioteca, mas eu acho que 90% dos alunos da FEP não iam à biblioteca. Eu como aluno da FEP lembro-me de ir à biblioteca no último ano. Aliás, havia figuras como o leitor. No limite o professor escusava de ir à aula porque alguém podia ler a sebenta por ele. E lia. E os alunos ouviam. E uma aula era assim.

Com exceção da parte da contabilidade, onde a FEP se destacou muito graças a pessoas que realmente eram os professores mais marcantes da FEP nessa época. E era aí que estava a maior reputação da FEP, um licenciado da FEP no meu tempo era alguém que tinha uma licenciatura em economia mas era basicamente um gestor ou tinha alguns conhecimentos de gestão, sobretudo na área financeira. Nada de recursos humanos, nada de comunicação, nada de marketing, praticamente zero em matéria de organização de empresas, mas sim, um conhecimento bastante razoável em contabilidade e finanças. As questões dos bancos ou do crédito, essa era a parte mais prática do curso da FEP, e a grande maioria dos alunos que saíam da FEP iam trabalhar apara uma empresa em contas.

Ainda em relação às cadeiras, qual é que pensa ser o critério para definir as linhas de pensamento que as regem?

As grandes incubadoras do pensamento de esquerda ou mais revolucionário, como queiram chamar-lhe, são as escolas. Onde é que está o Bloco em Portugal? Está na escola. Sejam os membros mais destacados seja a sua base militante. O Bloco sai da Universidade. Não sai das fábricas. Nem sai das ruas. O Podemos é liderado por um professor universitário. O debate mais ideológico e nesse debate mais ideológico o debate mais à esquerda, em certo sentido mais transgressor, e isto também está muito ligado à fase da vida em que as pessoas estão, está na escola. A FEP passou por isso por inteiro.

Antes do 25 de abril a FEP era uma espécie de patinho feio da esquerda portuguesa, porque por causa daquela concentração nas contas e nas finanças e também muito no direito e alguma coisa na matemática a FEP era uma escola que era praticamente impermeável ao debate político e tirou disso partido porque nós dizíamos que o Quelhas, o Instituto Superior de Economia, era, de todas as escolas de economia, a mais penetrada assim pelo debate político. Foi no Quelhas que a PIDE matou um aluno, o Ribeiro Santos foi morto dentro da escola. Isto dá conta do confronto ideológico no seu interior. Coisa que, em Lisboa, acontecia menos, por exemplo, numa Nova.

A Nova foi criada para ser uma coisa mais limpa e menos contaminada pela político, ou no ISCTE que sempre se apresentou como uma escola mais de gestão do que de economia e portanto também fugiu a essas questões um bocado mais. E portanto, nesse tempo, o grande argumento da FEP, quando nesse tempo se dizia “sou licenciado pela FEP”, o que se dava a entender é que era um menino ou uma menina que vinha de uma escola onde se trabalhava alguma coisa, sobretudo, em questões mais práticas e onde não se passava tempo a discutir política a ponto de se poder ser morto pela PIDE lá dentro. Essa era a situação da FEP até 74. Em 74 deu uma volta completa e cometeu, e eu lá dentro também, as asneiras todas, a ponto de chegar a ser fechada: o ministro da educação, um dia, mandou lá a polícia e fechou a FEP e pôs tudo na rua, fechou e esteve fechada por volta de um mês. Foi tudo embora, professores, alunos, foi tudo embora, reabriu aí um mês depois com um grupo de professores nomeado pelo ministério.

Acabou a gestão democrática da escola e os professores foram todos submetidos a um concurso, todos, para ver se podiam lá continuar ou não. Isso deve ter sido para aí, não sei, em 76, foi logo a seguir, portanto a coisa ganhou contornos de tal ordem e de tal agressividade lá dentro que o ministro da educação um dia mandou lá uns tanques com a polícia lá dentro e o exército, e fechou aquilo. Depois, foi normalizando. Enfim, como tudo no país. Eu acho que a escola, a FEP, é hoje uma escola que nem 8 nem 80, que não será tão assética do ponto de vista político e ideológico como foi antes de 74, nem estará tão contaminada por esse tipo de problemas como se deixou contaminar naqueles dois ou três anos a seguir, e portanto foi normalizando.

Eu já disse que nos anos 74, 76, 77, fiz todas as asneiras possíveis, mas gostei muito da controvérsia. Apesar de ter feito todas as asneiras possíveis eu fui o primeiro tipo que depois do 25 de abril deu aulas de sala cheia naqueles anfiteatros sobre Keynes numa escola que era marxista dos pés à cabeça e regi a última cadeira de economia marxista que houve na FEP.

Mas como diz as cadeiras eram mesmo influenciadas pelas ideologias políticas.

Ah sim! O Capital do Marx podia ser a sebenta das cadeiras todas.

Gostaria de partilhar connosco alguma peripécia ou algum acontecimento que tenha sido marcante para si na vivência na FEP?

A cena de um dia chegar à FEP às 8 da manhã e ver uns tanques do exército com os portões fechados é seguramente uma, não é assim uma experiência muito agradável. Depois eu disse que me meti muito na FEP, na luta lá dentro, e estive metido em eleições sobretudo no corpo de professores. Lembro-me de uma das eleições mais renhidas que tive, contra o Professor Conceição Nunes que era sempre o capitão da equipa adversária. É uma pessoa que, enfim, eu já não sou novo, ele tem mais alguns anos…e foi realmente a pessoa que estava do outro lado naquelas guerras. Lembro-me de umas eleições onde a lista do Dr. Nunes tinha mais apoiantes que a nossa.

Numa escola daquelas as pessoas quase que não podiam ficar de fora, portanto era para um lado ou era para o outro, a pior situação era ficar no meio. Eu achava que as pessoas estavam do lado de lá, porque era ali que estava o poder, e portanto, as pessoas não estariam ali com muita convicção, digamos, estavam mais ali por medo, e adotei como slogan da campanha que o voto é secreto. Secreto nós já sabemos que é, mas eu queria dizer “não faz mal, você apoia aquela lista mas na hora você vai votar direito”. E nós ganhámos.

Na sua perspectiva quais são as questões a que a economia deve dar resposta?

As questões das pessoas. Eu acho que 100% das pessoas querem ser felizes e a economia não pode responder a isso, isso é uma questão que transcende em muito a economia. Mas no meio da felicidade, para a maioria das pessoas, está ter um emprego minimamente estável, um salário decente que permita viver minimamente bem e com alguma estabilidade. Eu acho que a economia não pode dar a felicidade toda, mas essa dimensão da felicidade, do emprego e do salário, isso sim. E quando eu avalio se uma economia funciona bem, se merece aprovação ou reprovação, eu olho sobretudo para os empregos que cria e para os salários que são pagos através desses empregos.

Desse ponto de vista a economia portuguesa funciona muito mal, porque o desemprego é muito alto, tem vindo a reduzir, é verdade, têm sido criados alguns postos de trabalho embora muito gente também tenha saído, mas os salários são baixíssimos. Quando eu tenho que emitir um juízo sobre o desempenho de uma economia, de um país ou de uma região, emprego e salários. As empresas são instrumentais. A economia e a política não existem para resolver os problemas das empresas, existem para resolver problemas das pessoas, e as empresas estão no meio disso e podem ajudar.

E no que toca ao papel dos cientistas e da ciência económica neste sentido?

A ciência económica não sei bem o que é. É uma coisa relativamente recente, nascida lá no século XVIII em Inglaterra. Sempre muito ligada ao Estado, e à política, e também à religião, pelo menos na fase inicial…mas claro, quando eu digo que é uma coisa recente isso não significa que não seja uma coisa instituída, tem um corpo profissional, tem escolas, tem publicações, mas para dizer a verdade eu com a economia não conto muito. Um economista ou trabalha na esfera pública, e aproxima-se das políticas, ou trabalha na esfera empresarial e aproxima-se da gestão. Eu sou muito amigo de formações de banda larga, portanto eu se tivesse que escolher hoje talvez começasse pela economia e não ia logo para gestão, mas mais cedo ou mais tarde eu acho que os economistas terão que se aproximar da gestão.

Porque eu acho que é na gestão que um economista se cumpre. Não tem a dimensão tecnológica, claro que não tem, isso é dos engenheiros, mas acho que os economistas são pessoas que trazem para a gestão uma formação de base mais alargada. Porque, digamos, o que é ser um bom economista? Quais são os indicadores de desempenho? Se eu estiver na academia são as publicações, mas já disse que não é o que me seduz mais. Se estiver na política ou na área pública, não sei, são as propostas que apresento e o seguimento que isso teve. Na área mais empresarial um economista é medido pelo seu desempenho como gestor. E eu acho que o mundo precisa de gestão