Opinião de Sofia Condez Alves
Também incluído no FEPIANO 57, publicado em Maio de 2025
Vivemos tempos de crise – isso é um facto – não apenas política e económica, mas também de perceção da realidade.
No nosso mundo saturado de informações, meias verdades, e fake news, distinguir o real do manipulado tornou-se algo com que lidamos diariamente. Aliás, ao ponto de existirem programas televisivos como o Polígrafo dedicados a garantir a verdade dos factos. É precisamente neste cenário que está a ressurgir a ficção distópica, não mais como uma visão exagerada de um futuro distante, mas como um espelho do nosso dia-a-dia.
Suzanne Collins afirmou numa entrevista só escrever quando tem alguma coisa a dizer, e, hoje em dia, infelizmente, não lhe faltam problemas em que comentar. Desta forma, a autora regressou à literatura no momento certo com “Amanhecer na Ceifa”, uma nova prequela da saga “Os Jogos da Fome”. Estes livros descrevem a jornada de sobrevivência de Katniss nos Jogos da Fome, um evento orquestrado pelo Capitólio em que duas crianças de cada distrito do país, Panem, lutam até à morte de forma a assegurar a paz. Se a trilogia original já propunha um comentário não muito subtil ao espetáculo mediático, à desigualdade social, e ao uso de propaganda, este volume é um apelo direto. Enquanto antes a crítica incisiva ao desenvolvimento moderno específico dos Estados Unidos se encontrava mais nas entrelinhas, aqui Collins não tentou sequer esconder as suas intenções, dando até uma data à ceifa dos jogadores – 4 de julho.
Nesta prequela, lemos sobre Haymitch Abernathy, o mentor de Katniss, protagonista dos livros originais, e acompanhamos a sua luta nos seus próprios jogos da fome. O livro é uma peça muito complicada de orquestrar no puzzle deste universo – Suzanne tinha o trabalho de pegar numa história e em personagens que os leitores já conheciam, e contá-la sem invalidar o que já tinha definido. Como fã da escritora e desta saga, eu já achava conhecer a brutalidade tanto física como emocional dos jogos de Haymitch, mas não esperava os níveis a que chegaria.
Em livros anteriores, assistimos aos fins do presidente de Panem, Coriolanus Snow, e também aos seus inícios. Neste, encontramo-lo no meio, já assentado na sua posição de poder. Pela sua mão de ferro, o Capitólio já teria aprendido a manipular a perceção pública e já estava habituado ao sadismo dos jogos anuais. De facto, sem estragar a história para leitores interessados, a propaganda é uma das armas mais eficazes do Capitólio, especialmente neste livro, com o controlo narrativo sobre a revolta que os personagens achavam que estava a resultar.
O livro abre com uma citação de David Hume: “A submissão implícita da maioria ao governo de poucos é um dos maiores mistérios da história.” Esta escolha não é apenas uma referência erudita, mas um aviso ao leitor do que virá nas páginas seguintes. Ao longo da história, Collins revela como a aceitação tácita da autoridade é muitas vezes construída por narrativas cuidadosamente elaboradas, um processo em que a propaganda cumpre um papel vital.
Esta dinâmica, claro, não é exclusiva da ficção. George Orwell escreveu que “toda a propaganda é mentira, mesmo quando alguém estiver a dizer a verdade.” A propaganda, enquanto instrumento de poder, acompanha a humanidade. No século XX, o seu potencial atingiu novos patamares com o advento da mass media. Um dos seus exemplos mais reconhecíveis é o famoso póster do Uncle Sam – “I Want You for the U.S. Army” – criado durante a Primeira Guerra Mundial para convencer jovens a inscrever-se para uma morte praticamente certa. A imagem com o personagem a apontar diretamente para quem vê o póster foi tão eficaz que ainda hoje é um símbolo da manipulação emocional em prol dos interesses políticos.
“A propaganda, enquanto instrumento de poder, acompanha a humanidade”
A propaganda sempre soube usar símbolos simples e poderosos para mover multidões, seja para a guerra, para o consumo, ou para a conformidade. Contudo, enquanto nos inícios do século XX o seu sucesso residia na escassez de fontes alternativas de informação, hoje a dinâmica mudou. Vivemos num mar de dados e de opiniões, mas o resultado, paradoxalmente, é o mesmo – desorientação. As fake news prosperam não porque a informação seja escassa, mas porque é excessiva e fragmentada, e as pessoas nunca se dão ao trabalho de a verificar. E, perante tanta abundância, muitos de nós escolhem confiar no rápido, no emocional, no mais conveniente.
As redes sociais, os algoritmos, e, hoje, até as ferramentas de inteligência artificial participam neste ciclo de propaganda. Em vez dos pósteres patrióticos, temos memes, formas de as marcas parecerem mais próximas de nós do que o que são. Em vez de rádio estatal, temos influencers a serem pagos para nos distrair. Como advertiu o vocalista dos The Doors, Jim Morrison, “quem controla a mídia, controla a mente”. A manipulação do povo tornou-se mais subtil, mas não menos perigosa.
Suzanne Collins, com o Amanhecer, não nos deixa esquecer que a propaganda é eficaz. Apesar de os leitores já conhecerem os finais de Haymitch, este livro serve para nos apercebermos de que fomos vítimas de propaganda do Capitólio, que caímos nas suas mentiras pela perspetiva de Katniss. Acabamos a questionar quantos tributos já se teriam tentado rebelar, compreendemos que a arqueira não foi “a escolhida”, mas a que teve a sorte e o timing certo para a revolução. Haymitch sobrevive aos seus jogos esperançoso pelo futuro para chegar a casa e se aperceber que a audiência não tinha prestado atenção, e que já estava tão desensibilizada com o evento de violência, quase o achando divertido ou prazeroso. Isto reflete-se na vida real: tal como os cidadãos do Capitólio, também nós assistimos hoje ao espetáculo, à violência, à polarização, ao drama mediático, sem nos apercebermos de que fazemos parte dele. Nós somos o problema, mas também somos a solução.
“Como cidadãos, temos o dever de reaprender a questionar”
É-me fundamental reconhecer que a propaganda contemporânea não precisa de mentir descaradamente. Basta-lhe semear dúvidas, confundir, relativizar os factos. Frente a este panorama, a responsabilidade individual torna-se ainda mais crucial. Tal como Plutarch diz a Haymitch, “pela perspetiva do Capitólio, os Jogos são a melhor propaganda que temos. Vocês, tributos, são as nossas estrelas. Vocês carregam isto. Mas só se nós controlarmos a narrativa. Não nos deixem.” Assim, não nos basta consumir informação, é necessário analisá-la criticamente, verificar fontes, cultivar o hábito da dúvida construtiva. Como cidadãos, temos o dever de reaprender a questionar. Temos de recuperar o esforço consciente de pensar.
Se os Jogos da Fome nos mostraram o preço da complacência, Amanhecer na Ceifa reforçou a necessidade da luta, mesmo quando a propaganda a torna invisível e solitária. A liberdade de pensamento é a primeira vítima da propaganda, e a última esperança contra ela. Tal como as personagens do livro discutem, devemos pintar os nossos próprios pósteres, reivindicando o direito de contarmos a nossa própria história. No final, o apelo deste artigo é simples, mas urgente: Prestem mais atenção. Tenham cuidado. Leiam mais. Pensem mais.
E prestem atenção.

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