Diz-se que somos à base de Fado, Futebol e Fátima, mas ser português é muito mais do que isso. Celebremos a verdadeira alma e a riqueza cultural que nos define há séculos.

Para quem é um leitor assíduo dos meus artigos, deve ter já reparado num constante tom de crítica da minha parte sobre todos os temas, como foram os casos da Saúde, do Desporto, da Defesa e da Europa, mas principalmente críticas à esfera político-partidária. Confesso, portanto, que, por este motivo, me surge um sentimento de querer reverter esta tendência e por isso hoje apresentarei um tom mais simples e elogiador.

Para tal, hoje abordo a “alma do Zé Manel”, a alma do típico português. Obviamente, admito desde já que irei cometer dois erros. Por um lado, o erro da generalização, talvez excessiva, da sociedade e, por outro lado, a ausência do contraditório e dos pontos menos positivos.

O típico português é frequentemente associado à trilogia dos “3 efes” – Futebol, Fado e Fátima – de origem desconhecida, mas que rapidamente caracteriza em grande parte a alma de um português, que é sem dúvida marcado pelo fanatismo do futebol, pelo gosto da música tradicional e pela religião católica. No entanto, a meu ver, esta definição apresenta um tom de desvalorização injustificado e carece certamente de fundamentação temporal, uma vez que o típico português conta com quase 900 anos de história, muito antes destes “3 efes” existirem e de ter sido capaz, por vários momentos, de mostrar o seu espírito de vencedor, inconformado, ambicioso e talentoso.

Foi esse português inconformado que lutou em Aljubarrota, combateu pela restauração da independência, resistiu às invasões Napoleónicas e que derrubou monarquias absolutistas e regimes antidemocráticos. Foi o português ambicioso, representado em figuras como D. João II e Vasco da Gama, que em caravelas desafiaram o horizonte e desbravaram outrora terras e mares desconhecidos com coragem e determinação. Foi o português destemido que fez chegar a bandeira portuguesa aos quatro cantos do mundo, desde o Brasil ao Japão ou de Moçambique à Índia.

“Somos um país de Zés Manéis talentosos, que levaram Portugal aos quatro cantos do mundo”

Somos também um país de “Zés Manéis” talentosos. Somos um país de Amália Rodrigues e Zeca Afonso que foram à rouquidão para nos mostrar o quão valiosa é a nossa musicalidade, ao recordar o que é “Uma Casa Portuguesa”, onde o “Povo é quem mais ordena”. Somos um país de Cristiano Ronaldo e Eusébio, que em cada minuto sempre deram tudo em campo e jogaram como ninguém, uma dose de magia em cada metro galgado no relvado e que, com uma simples bola nos pés, engrandeceram este nosso Portugal nos holofotes dos grandes palcos do mundo.

Somos um país de Saramago, Camões e Fernando Pessoa, que enriqueceram a nossa literatura e língua nacional, falada nos quatro cantos do globo. Certamente “um amor que (…) arde sem se ver” por um “V Império” idealizado por Pessoa e que Saramago não hesitava em pontuar com uma grande exclamação (!).

Fomos e somos de facto muita coisa, muito mais que os “3 efes”, que nos dias contemporâneos tendemos a esquecer e a desvalorizar, a mim mesmo faço a autocrítica. Tenhamos a vaidade de contar a nossa história e de promover a nossa cultura a qualquer um, porque não há nada como um típico português. Podemos já não ser “heróis do mar”, mas continuaremos certamente a ser uma “nação valente e imortal”