Opinião de Sara Arêde
Também incluído no FEPIANO 57, publicado em Maio de 2025
Grande parte da atualidade é vivida através de ecrãs. Trabalhamos, descansamos, comemos, conhecemos novas pessoas, lugares ou artes com despreocupados cliques e deslizes para o próximo vídeo. No meio de conteúdos virais e influencers, como é que o consumo cultural e de entretenimento dos jovens é afetado? Estará a cultura portuguesa a diluir-se ou, pelo contrário, a ser redescoberta?
As redes sociais transformaram o quotidiano: a economia conheceu novas variáveis, as relações mudaram e discute-se o efeito na cognição. Desde que acordamos até voltarmos a pousar a cabeça na almofada, temos sob os dedos um algoritmo desenhado para prender a atenção com vídeos curtos e apelativos. O resultado? Horas de scroll, necessidade de estímulo constante, dificuldade em manter o foco e um telemóvel que parece parte do corpo.
Pela quantidade de vezes que já fiz um detox do Instagram, não nego a influência destas apps nos nossos hábitos e saúde. Contudo, noto que o espaço online, sobretudo o português, tem vindo a contrariar o consumo superficial, promovendo novas formas de estar dentro e fora das redes.
Segundo um estudo da Consumer Choice, os portugueses procuram autenticidade: histórias reais, universos com que se identificam, ideias aplicáveis. Não basta o número de seguidores, o público exige representatividade, um cunho nacional. Apesar das influências globais, os criadores portugueses destacam-se por uma abordagem genuína e criativa. Como aponta a ENSO, há uma aposta na construção de comunidade, numa estética simples, em conexão emocional e em partilha de experiências pessoais.
“os portugueses procuram autenticidade: histórias reais, universos com que se identificam, ideias aplicáveis”
É também visível o esforço em promover marcas nacionais de forma natural e coerente, o que gera maior confiança. Vemos influenciadores valorizar o que é português: do foodie determinado a descobrir a melhor francesinha da cidade, ao casal que nos leva a recantos improváveis do país, até à verdadeira portuguese girlie cujos vlogs despertam o desejo de ficar offline, inscrever-nos em aulas de cerâmica ou pilates e fazer da corrida toda a nossa personalidade.
Neste cenário, o digital torna-se um espaço de celebração do quotidiano, algo tão português. A recomendação de um café bonito convida a conversas longas, um jardim inspira passeios a passo bamboleante, uma tasca com alma basta para juntar amigos.
Participar em eventos culturais promovidos por câmaras ou espaços independentes volta a ser hábito e até tendência!
Num plano mais amplo, conhecer os efeitos das redes abriu espaço a movimentos de resistência digital. Ganham destaque criadores que desafiam a colocar ecrãs de lado, através de vlogs ou posts: partilham rotinas mais lentas e conscientes, práticas de autocuidado, conversas com terapeutas ou escritores e incentivam a viver com mais intenção. Mais do que um feed bonito, oferecem um espelho onde, por vezes, nos vemos cansados do ruído e com vontade de regressar ao essencial, estar presentes.
“Talvez estejamos a entrar numa fase em que as redes sociais são, ao mesmo tempo, parte do problema e da solução”
O tão falado FOMO (medo de ficar de fora) também pode, na dose certa, motivar-nos a viver mais. Ver amigos ou figuras conhecidas em concertos, exposições ou debates, desperta a vontade de sair, participar e dar mais sentido ao dia-a-dia.
Talvez estejamos a entrar numa fase em que as redes sociais são, ao mesmo tempo, parte do problema e da solução. Talvez estejamos a aprender a usá-las como ponto de partida e não como fuga, levantando os olhos do ecrã para procurar mais cultura, mais ligação, mais presença no que nos rodeia.

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