Opinião de Eduardo Beltrão - Business Developer nBanks
Também incluído no FEPIANO 57, publicado em Maio de 2025
O economista e artista americano William J. Baumol desenvolveu, na década de 1960, um conceito central na ciência económica: a Doença de Custos. Segundo o economista Mark Blaug (2001: 123), “a economia da cultura, ou Economia das Artes, pode-se dizer que foi criada quase do zero há 30 anos com o livro de Baumol e Bowen (1966).” Essa teoria explica por que certos setores, como o da cultura, enfrentam aumentos de custos mais rápidos que outros, especialmente os mais intensivos em tecnologia.
A ideia central é que atividades como arte, música e teatro são intensivas em trabalho humano (em linguagem económica, são atividades mais “trabalho intensivas” do que “capital intensivas”), com poucas possibilidades de ganhos significativos de produtividade. Um concerto de música clássica, por exemplo, requer hoje o mesmo número de músicos e tempo de execução que há um século. Diferentemente de setores como o industrial, que podem automatizar processos e reduzir custos por unidade, as artes performativas são limitadas nesse aspecto.
“os salários dos profissionais da cultura tendem a crescer acompanhando os demais setores da economia”
Essa rigidez na produtividade leva a um aumento estrutural de custos. Embora a produtividade permaneça estável, os salários dos profissionais da cultura tendem a crescer acompanhando os demais setores da economia, onde há avanços tecnológicos e aumentos de produtividade. Assim, o custo de produzir cultura sobe, mesmo que o “output” (como número de espetáculos ou filmes) não aumente. Isso faz com que os bens e serviços culturais se tornem relativamente mais caros, pressionando financeiramente instituições como orquestras, teatros e museus.
Baumol exemplifica: “A produção por hora de trabalho de um violinista tocando um quarteto de Schubert é relativamente fixa, e é difícil reduzir o número de atores em Henrique IV, Parte I.” Já produções como blockbusters de cinema sofrem menos com a doença de custos, pois contam com recursos tecnológicos como CGI e edição digital, que permitem escalar a produção e diluir os custos.
Há também consequências importantes para o financiamento da cultura. Como os custos crescem sem que o retorno direto (como bilheteria) acompanhe, a dependência de apoios públicos e privados tende a aumentar. Surge, então, o dilema: como justificar o investimento contínuo em algo cujo custo cresce, mas cuja produtividade não acompanha?
A teoria de Baumol evidencia como a cultura desafia as visões clássicas (e neoclássicas) da economia, que ligam salários diretamente à produtividade marginal. Os setores culturais, embora pouco produtivos sob essa ótica, são essenciais para a identidade, coesão e bem-estar social. Entender a Doença de Custos é fundamental para formular políticas públicas e modelos de financiamento inovadores que garantam sua sustentabilidade — algo que também se discute em outros setores, como a saúde, frente à ascensão da Inteligência Artificial.

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