Opinião de Fábio Castro
Também incluído no FEPIANO 57, publicado em Maio de 2025
A cultura portuguesa não se explica facilmente com palavras, mas através dos seus cheiros, sons, gestos e sabores. Celebrar Portugal é um prazer que enche o peito de orgulho apenas de quem ama verdadeiramente a vida.
Eu sou o Douro, bordado em ouro antigo, onde cada socalco desenha um compasso lento de uma partitura centenária, como se a terra, paciente e sábia, respirasse em clave de sol entre vinhas sonolentas e barris que envelhecem o tempo. Sou o verde húmido do Gerês, exuberante e ternurento, onde as águas cristalinas serpenteiam por entre rochedos musgosos, lobos furtivos e trilhos secretos guardados por carvalhos milenares — e onde as aldeias de granito, de olhos fechados, dormem abraçadas à raiz do mundo. Sou o romantismo agreste do azul violento da costa vicentina, onde o mar rasga o horizonte em fúrias e acalmias, e o vento sopra lendas por entre penhascos. Sou o nevoeiro matinal da Serra da Estrela, onde os rebanhos de ovelhas desenham silhuetas arcaicas sobre pedras geladas, balindo mistérios antigos que só os pastores entendem. Sou os lençóis dourados de trigo do Alentejo, silêncio ondulante sob o céu imenso, onde os sobreiros — sentinelas da planície — vigiam o tempo que ali caminha com os pés descalços. E sou as falésias do Algarve, escarpadas e rendilhadas como um segredo de pedra, esculpidas lentamente pelo sal, pelo vento e pelo olhar apaixonado do sol-poente. Sou a Madeira, jardim suspenso entre o céu e o mar, um poema de flores a crescer na vertical. Sou os Açores, verdes sagrados e crateras vivas que palpitam com o fogo da terra-mãe, um coração de lava a bater dentro do Atlântico.
“(…) a escrita que ondula como o pensamento e que levou Portugal ao mundo sem lhe tirar o cheiro da maresia.”
Sou um território de alma viva, que se experimenta com todos os sentidos: ouve-se o silêncio abençoado das paisagens, sente-se o calor generoso das gentes, saboreiam-se os gestos sábios de uma cozinha que não se aprende, herda-se. Sou o azeite quente a perfumar o tempo, o alho e a cebola a abraçarem-se na frigideira, as ervas que aromatizam os dias. Sou o cheiro da sardinha assada nos Santos Populares, o bacalhau com mil nomes e feitios, a feijoada que consola o inverno, o arroz de pato que cheira a domingo e a francesinha que desafia a razão com o seu excesso delicioso. Sou a broa de Avintes, o queijo curado da serra, a sopa da pedra e as lapas grelhadas ao sol atlântico. Sou o pastel de nata que geme sob a canela, os ovos moles que rendem o palato em doçura líquida, as barrigas de freira que escondem séculos de alquimia conventual e desejo sussurrado. Sou o vinho do Porto, profundo e silente, maturado em cascos que respiram o tempo; sou os cálices cálidos do Alentejo, a sobriedade elegante do Dão, os acordes aromáticos de Lisboa. Em mim, cada gole é um feitiço, uma celebração líquida daquilo que somos — terra, história, prazer e transcendência.
Eu sou a palavra navegante, que viajou até ao Brasil, Angola, Timor e Goa; sou a língua de Camões – terna, intensa, formal e acolhedora – uma melodia que embala os sentimentos com sílabas de saudade e promessas de aconchego. Sou o idioma do desenrasque poético, da emoção sem tradução, um rio de fonemas que nasce do coração do povo e desagua em expressões que sabem a casa, a perda, o riso e a lágrima. Sou Pessoa e todos os seus heterónimos que me habitam, sou Os Maias de Eça, os ensaios de Saramago, o grito de Florbela, a ternura atlântica de Sophia, o grão granítico de Torga. Sou a escrita que ondula como o pensamento e que levou Portugal ao mundo, sem deixar para trás o cheiro da maresia.
Eu sou os azulejos que cantam histórias em azul e branco nas fachadas, sou o manuelino dos Jerónimos, florido como um sonho, a sombra barroca que dança no Minho e a luz puríssima de Serralves. Sou a mão escultural de Soares dos Reis, o traço geométrico de Nadir Afonso, o universo feminino de Paula Rego, o excesso genial de Joana Vasconcelos. Sou arte rebelde, viva e indomável, a nascer nos muros do Porto e Lisboa, nos palcos, nas igrejas, nos mosteiros e nas galerias que desafiam o tempo. Eu sou o grito de Zamora, a pá de Brites de Almeida, o risco milimétrico do Tratado de Tordesilhas. Sou a caravela que rasgou o desconhecido, o navegador que confiou nas estrelas e o marinheiro que rezou entre tempestades. Sou o sonho inquieto do Infante D. Henrique, o esplendor de D. Manuel, o lirismo de D. Dinis; sou o tremor de 1755, a dor e a reinvenção do Marquês, sou sobretudo a Revolução dos Cravos, o cravo no cano da espingarda e a coragem de Novembro.
Eu sou a fé serena da Dona Conceição, a acender velas em Fátima como quem acende o céu. Sou a devoção da Dona Rosa na Irmã Alexandrina, o silêncio encantado dos claustros de Alcobaça, a rendição diante da rosácea da Batalha. Sou o hino da aldeia em missa, a procissão de pétalas, a romaria em Viana onde os bordados são preces. Sou o golo de Eusébio, o suor de Gomes, o génio de Cristiano, o instante eterno de Éder e o calcanhar de Madjer. Sou a onda da Nazaré, bíblica e colossal, a prancha a desafiar titãs e o eco do mar a escrever epopeias nas falésias. Sou Rosa Mota a correr com a alma e Carlos Lopes a cruzar a meta com um país inteiro nos ombros.
“(…) o fio invisível que une as gerações: o conto à lareira, o bordado passado de mãe para filha, o hino sussurrado em noites de saudade.”
Eu sou as Gentes. Sou o pescador da Nazaré que lê as nuvens como livros, o caxineiro que entende o sussurro do mar; o lavrador de Trás-os-Montes que conversa com a terra como quem reza. Sou a avó de lenço que amassa o pão com histórias nos dedos e canta lengalengas que já vinham com o vento. Sou o miúdo de calções, bola nos pés, a dizer “obrigado” com um sorriso de sol. Sou o emigrante que partiu com lágrimas e voltou com a alma cheia, o artesão de Barcelos que molda a memória em barro, o cantador de modas alentejanas, o pastor que dança com lobos sob a lua. Sou os manjericos de versos tímidos, os arcos de papel dos arraiais, as marchas que descem a avenida com o coração aos saltos e os martelos de São João que fazem do riso tradição. Sou a gaita-de-foles do Minho, o cavaquinho que pulsa tradição, o fandango que levanta o pó da lezíria. Sou a calçada desenhada com pedras de paciência, por onde passaram séculos de histórias e milhões de passos com destino nos olhos e coragem no peito. Sou o fio invisível que une as gerações: o conto à lareira, o bordado passado de mãe para filha, o hino sussurrado em noites de saudade.
Sou tudo isto e muito mais –
Sou a memória que resiste, o presente que pulsa e o futuro que canta.
Eu sou Português!

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