Vivemos tempos em que o humor, antes espaço de liberdade e crítica, se torna cada vez mais alvo de indignações públicas. Mas será que uma sociedade que não tolera uma piada está realmente preparada para viver em liberdade?

O humor é uma forma essencial de liberdade – talvez a mais incómoda de todas, porque mexe com o que muitos gostariam de manter intocável. É natural que nem todos gostem de ser alvo de uma piada. No entanto, nunca como agora se tentou tanto domá-lo, condicioná-lo, impor-lhe limites em nome de um respeito absoluto por todas as sensibilidades.

O caso recente entre a Joana Marques e Os Anjos é apenas mais um exemplo da crescente intolerância ao humor, sobretudo quando ele toca em figuras públicas que se levam demasiado a sério. Os visados, ofendidos, exigiram que se tivesse mais “respeito”. Mas quem decide o que é aceitável? Quem traça essa linha invisível que separa a liberdade da censura? 

O problema de submeter o humor ao crivo da ofensa é que essa medida é sempre arbitrária e, pior, individual. O que ofende um é irrelevante para outro. Se cada pessoa puder ditar o que se pode ou não dizer em nome do seu desconforto pessoal, o resultado é simples: não se pode dizer nada. O espaço público transforma-se num terreno delicado, onde qualquer palavra pode ser interpretada como ataque, qualquer piada como violência. E quando o medo de ofender se instala, o humor desaparece. 

Claro que o humor não está imune à crítica. Claro que há piadas de mau gosto, piadas que não se ajustam ao contexto ou que ultrapassam os limites do respeito. Mas a resposta a essas piadas não pode ser a imposição de um código moral inflexível que limite o que se pode ou não dizer. A resposta tem de ser a liberdade de continuar a fazer humor, de desafiar, de questionar. O humor deve ser uma arena em que todos podem errar, testar e, por vezes, exagerar. Se um humorista ou criador não puder correr o risco de dizer algo que possa ser mal interpretado ou mal recebido, então o próprio conceito de humor será completamente diluído.

“A resposta tem de ser a liberdade de continuar a fazer humor, de desafiar, de questionar”

O humor é também um elemento central na cultura. Não é apenas uma forma de entretenimento, mas um espelho da sociedade. O humor reflete os nossos valores, as nossas contradições e as nossas dificuldades. É através do humor que conseguimos olhar para nós mesmos de uma forma mais crítica e, ao mesmo tempo, mais leve. Em muitos casos, o humor é a forma mais eficaz de expor o absurdo de determinadas situações ou figuras. Portugal tem uma longa tradição de humoristas que, de forma irreverente, sempre desconstruíram a realidade, ajudando a questionar as estruturas de poder, os comportamentos sociais e até mesmo os tabus culturais.

Ricardo Araújo Pereira é um exemplo clássico de como se pode fazer humor com inteligência, sem nunca abdicar da liberdade criativa. Ele nunca se preocupou em agradar a todos, mas sim em provocar, em desafiar o pensamento e, sobretudo, em deixar claro que o humor não pode ser limitado. Ao longo da sua carreira, tem defendido que o humor não deve ser policiado, porque o humor é um reflexo do pensamento livre. 

Num tempo em que, cada vez mais, se pede que tudo seja filtrado pela ótica do respeito absoluto, o verdadeiro ato de resistência é continuar a fazer humor, sem medo de incomodar. A cultura que não se ri de si mesma não é uma cultura forte; é uma cultura frágil e, no fundo, triste. E quem quer viver numa sociedade onde ninguém se ri?