Não há dúvidas de que atravessamos uma crise climática global e que, para enfrentá-la, é essencial garantir a redução das emissões de carbono, nomeadamente através da transição para sistemas energéticos mais verdes. Contudo, será esta solução, só por si, justa e inclusiva do ponto de vista social?

Vivemos as consequências de uma crise climática global que exige soluções urgentes. O setor energético está no centro deste desafio. Apesar do crescimento das energias renováveis, observa-se uma tendência crescente do consumo de combustíveis fósseis tendo as emissões carbónicas atingido novos máximos (KPMG, n.d.). Assim, a transição para modelos de baixo carbono tornou-se central para travar a progressão desta crise.

O progresso tecnológico trouxe esperança, mas muitas vezes a transição acaba, erradamente, por ser resumida como um processo técnico – fala-se de painéis solares, turbinas eólicas e novos sistemas de armazenamento, como se bastasse substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis. No entanto, a energia não existe isolada da sociedade: cada projeto reflete interesses políticos, económicos e culturais.

São cada vez mais os artigos e estudos que analisam o impacto das transições energéticas do ponto de vista social, sendo este texto baseado no estudo de McCauley et al. (2019): “Intersectionality and energy transitions: A review of gender, social equity and low-carbon energy”.

Durante muito tempo, vi a transição como algo que beneficiaria automaticamente todos, dado que atenuaria os efeitos sentidos globalmente. Mas os gráficos coloridos e promessas de sustentabilidade escondem que nem todos usufruem igualmente desta mudança. É essencial questionar quem usa a energia, a sua posição social e as suas necessidades; quem participa nas decisões e como são os benefícios distribuídos. Na prática, comunidades vulneráveis, sobretudo mulheres, povos indígenas e populações rurais pobres são frequentemente excluídas, carregando os custos sem colher frutos. Assim, desigualdades estruturais históricas são reproduzidas em novos sistemas.

Os impactos da transição são interseccionais e difíceis de desagregar, envolvendo género, classe, etnia e idade. Muitas vezes, um benefício está associado a um impacto, tornando difícil mapear toda a cadeia de causa e efeito. Ainda assim, alguns problemas são recorrentes e transversais.

A perda de terras é uma das questões mais críticas. A instalação de grandes plantações de biocombustíveis ou parques solares implica frequentemente a privatização de terras coletivas ou comunitárias, muitas vezes essenciais para a subsistência das comunidades, em nome do desenvolvimento sustentável. Isto compromete a segurança alimentar e força a adaptação a uma economia de mercado. Contudo, o impacto é desigual: homens têm maior facilidade em encontrar emprego fora da comunidade, enquanto mulheres, enfrentando maiores barreiras no mercado de trabalho, ficam mais dependentes e vulneráveis. Assim, género e classe tornam-se determinantes na definição de quem “ganha” ou “perde” com a transição.

“Assim, género e classe tornam-se determinantes na definição de quem “ganha” ou “perde” com a transição.”

Outro ponto essencial é a distribuição desigual. A eletrificação rural pode melhorar a saúde e a educação, sobretudo para mulheres e crianças. Porém, também pode reforçar desigualdades já existentes. Estudos indicam que, enquanto homens usam o tempo ganho com a eletrificação para lazer, as mulheres apenas acumulam mais tarefas. Além disso, barreiras socioculturais dificultam o empreendedorismo feminino, já que os homens têm mais acesso a crédito e apoios institucionais, consolidando assimetrias pré-existentes.

O custo inicial elevado das tecnologias é outro fator de exclusão. Famílias com poucos recursos ficam fora de projetos de energia renovável ou chegam a endividar-se para aceder a serviços básicos. Esta dinâmica é marcada por desigualdades de género, pois, como já foi referido, os homens possuem maior acesso a financiamento, agravando a vulnerabilidade das mulheres.

Muitos destes problemas resultam de projetos top-down, definidos pelos governos e empresas que priorizam a maximização da eficiência e/ou lucro, sem envolver as comunidades afetadas. Este afastamento conduz a metas e ações desalinhadas com as realidades locais, ignora necessidades e reforça desigualdades. Muitos veem este fenómeno como colonialismo energético, onde a exploração assume apenas uma nova forma sob a bandeira da energia limpa.

Para assegurar uma transição justa, é necessário repensar este modelo. Primeiro, promover a participação ativa das comunidades, incluindo grupos marginalizados, sobretudo mulheres, em todas as fases do processo. Projetos que envolvem mulheres mostram resultados positivos, aumentando o seu reconhecimento social e impacto comunitário. Segundo, investir na recolha de dados sobre género e desigualdades, permitindo que as políticas sejam formuladas com base em evidências. Terceiro, reduzir as barreiras de acesso através de subsídios e democratização da propriedade das tecnologias energéticas. Por fim, acompanhar os projetos após a sua implementação, usando indicadores complexos que avaliem impactos sociais e ambientais a longo prazo.

A descarbonização é necessária e inadiável, mas a tecnologia, só por si, não garante justiça. Políticas neutras em género e classe não obrigam a endereçar desigualdades, perpetuando-as. Mais do que mudar a fonte de energia, é preciso mudar a estrutura que define quem participa, quem tem acesso e quem beneficia desta transformação global.

As energias renováveis são a peça central no combate às alterações climáticas, mas só terão um impacto positivo se acompanhadas por equidade social.